Para Cisco
Lugar novo. Onde será que é o banheiro? Ahá! Achei. Bem ali. Melhor ir agora antes que alguma coisa ou força maior impeça que eu faça isto mais tarde. Com licença, com licença. Cuidado com um pé. Outro. Cheguei!
Notas do escritor:
Texto proibido para menores.
Não sou adepto ao suicídio.
Não sou adepto às críticas aos homossexuais.
Não sou adepto às políticas do medo.
Use o texto com responsabilidade literária.
Não me responsabilizo pelos seus atos! Não diga, frente aos juízes, que matou John Lennon por conta do meu texto ("O apanhador no campo de centeio") ou que imaginou que estava jogando GTA enquanto atropelava alguém.
Em parte inspirado em O homem de areia, de E.T.A. Hoffmann, 1815.
Hoje foi daqueles dias típicos. Pouca novidade quanto ao que pouco poderia acontecer no dia. Pouco porque em termos gerais as tarefas diárias me são mesmo poucas. Apenas trabalhar, organizar a casa para o dia seguinte e descansar. O trabalho, o de sempre. Nem vejo como poderia ser muito diferente de ontem o trabalho de digitação de contratos para uma empresa de eletrônicos. Pega o nome, digita, copia, cola, cola, cola, 8 vezes, o cnpj, copia, cola, cola, inscrição estadual, copia, cola, cônjuge, copia, cola, local e data, copia, cola, cola, imprime, 2 cópias, próximo contrato. Repita isto várias e várias vezes e no final do mês lhe depositarão cerca de oitocentos ou novecentos reais.
Você nem precisa conhecer seu chefe.
O meu nem tem cara.
O problema de sistematizar demais o trabalho é que depois que você acostuma, pode pensar em outras coisas enquanto trabalha. Sem novidades significa pensamentos. E eles, já que não têm novidades, são os mesmos de sempre.
Lembro-me daquela desgraçada que me largou há um ano atrás. Pudera, só porque não morávamos na mesma cidade. O que será que está fazendo hoje? Dando para outro, na certa. Cretina.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: delete um contrato importante.
Pelo menos a raiva diminui. Mas ainda não resolvi o problema, porque amanhã acontecerá de novo a mesma coisa. E lá se vai outro contrato importante. Ainda bem que nem conheço meu chefe, ou estaria encrencado.
Volto à digitação. Entre os contratos a serem digitados aparece a Jiowanna. Nome estranho? Ainda não viu nada. Pelo menos este é pronunciável e me lembra uma outra namorada, um pouco mais antiga. Esta sim pude amar, compartilhar todos os meus defeitos, ódios, medos e frustrações. Pena que me largou no altar. Não seria para menos, já que me pegou na cama com outra apenas dois dias antes. Ainda que tentou me perdoar, mas a pressão dos olhos atentos naquele que deveria ser o momento de felicidade de sua vida a fez desistir. Cheguei a duvidar que a amava, já que a traira. Ctrl+z. Errei um colar.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.
Mas ainda estou vivo e preciso imprimir mais um contrato. Clica, clica, 2, imprime, espera, grampeia, grampeia. Juntar de maneira permanente... isso me lembra... que... Nossa! Eu estou namorando e nem liguei pra ela ontem.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: invente uma boa desculpa.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: treine mentalmente antes de dizer.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: acredite nela. Na mentira, claro.
Alô, estou no trabalho, não, acho que não vou para a sua casa hoje, ontem não te liguei, acabou a bateria, eu sei que tenho cabeça oca, mas fazer o quê, também estou com saudade, amanhã a gente vai no cinema, beijo. Esta eu nem gosto tanto, mas ela é tão boa comigo que estou pensando em deixar como está por um tempo. Até ela vir e reclamar. Na terceira reclamação eu termino. É assim, temos que nos impor regras a nós mesmos para que possamos nos controlar. Mas nunca as sigo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na mão: Terminar com ela.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na testa: Terminar com você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: compre um colete que proteja de balas e um capacete para mesmo fim.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva neles: Terminar com você.
Talvez eu não tenha mesmo seguido nenhuma regra minha até aqui. Só as inúteis.
Certa vez comprei um fone de ouvido só porque prometi que se estivesse por cinco reais eu compraria. Quanto custa? Cinco reais. Eu levo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa que nunca mais prometerá nada.
Mas não funciona. Hoje cheguei em casa e prometi que nunca mais ia enloquecer. E quando dei por mim estava pelado na rua correndo e nem era na rua de casa. Na verdade, nem sei aonde era. Sei que acordei em casa, na minha cama. E não era sonho porque eu estava pelado, com os pés sujos e tinha até um chiclete nele.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa sempre o contrário daquilo que pensar.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometi não prometer, não poderia ter prometido não prometer, então ainda é possível prometer. Prometa o quanto quiser.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometer não enlouquecer, coloque um chinelo, ao menos.
Merda não é exatamente o palavrão que me vem em mente quando sinto que, depois de acordar, pisei no mesmo chiclete que achei que tinha sonhado.
Levantei de súbito e gritei feito louco. Subi pelas grades da janela fazendo questão de deixar o rastro de sujeira por ali. Corri até a porta gritando Vizinho do caralho, vou te matar e quando cheguei até a porta vi o vizinho. Pulei em seu pescoço e o vi ficar roxo. Não lembro bem que tonalidade era aquela, mas quando me tiraram da garganta dele ele estava era mais para lilás. Vai saber, sangue ruim é assim mesmo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: carregue sempre uma arma para seus acessos de loucura.
Minha frustração foi não tê-lo matado. Virei-me e vi que o filho da puta que me segurava era um vizinho que morava com aquele que eu quase matara. SEU LOUCO, gritei. NÃO!!! VOCÊ É BICHA, VEADO, CORNO E AINDA MAL AMADO POR UM CARA QUE QUASE MATEI! Todos os vizinhos saíram na rua.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: para chamar a atenção, grite.
E dei-lhe um soco direto no queixo. O sujeito, sem jeito, tentou revidar, mas corri. Não de medo. Mas de ódio. Do quê? Não sei... acho que corri para descobrir. Voltei para dentro do quarto e todos entraram atrás de mim. Alguns ainda tinham esperança de me conter. Em vão. Eu corria mais e dava mais tapa na cara que todo mundo ali. Abri minhas gavetas cheias de fotos de namoradas antigas. Por que não as joguei fora antes? Por quê? De novo, senti ódio de todas. TODAS, gritei.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: sempre jogue as fotos das ex-namoradas fora.
Me contaram que a polícia me conteve. Por sorte, dó ou medo, ninguém deu queixa dos acontecimentos.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: deixe que todos tenham medo de você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Alguém, provavelemente um amigo, me diz para me tratar. Diz que minha mãe não me ama. Diz que acha que é por isto que tenho problemas com minhas namoradas. Diz que acha que estou exagerando e que deveria me desfazer das fotos. Diz que falta de amor materno não é desculpa para nada.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate seu amigo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate sua mãe.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate suas namoradas.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.
"Menti pra você
Mas foi sem querer
Me perdoe, amor
Mas não pude conter"
Pato Fu (composição: Rubinho Troll)
De um lado está o coro da maior parte da população que condena a mentira como se fosse um dos sete pecados capitais. Sendo assim, alguns se julgam capazes de avaliar a situação e verificam se seria possível perdoar ou não uma mentira. Na maior parte das vezes, o perdão se dá quando o culpado não sabia, ou alegava não saber, qual era o conteúdo verdadeiro da história que ele contava. Ainda dentro deste enredo, um discurso se mostra com certa força. O de que quem mente está, no fundo, mentindo para si mesmo.
Do outro lado, parece pairar mais um vício interpretativo entre os psicólogos que não se cansam de repetir que a mentira é a verdade daquela pessoa. Portanto, aquela história contada por alguém que mente faria parte do enredo fantástico que aquela pessoa é capaz de fazer.
Direto ao assunto: todos estes discursos parecem versar sobre a culpa.
De um lado, a mentira é condenatória e nitidamente confundida com criminalidade e falta de caráter. Neste caso, a culpa é de quem mente, claro. Ficou deste mesmo lado o discurso sobre Mentir para si mesmo porque ele parece ser capaz de promover o perdão da culpa. Soa como Já que mente, mente a si próprio e desta maneira sou capaz de perdoar.
A psicologia, que não vem (ou não deveria vir) de outro lugar que não as próprias pessoas, parece fazer força no sentido oposto a este. Para isto, libera de antemão as culpas do sujeito. Assim, a mentira é perdoada a priori porque a psicologia acredita que o sujeito não mentiu, mas disse sua própria verdade ou a verdade sobre si mesmo. Este pensamento é essencial para apazigüar a culpa de pacientes que chegam diariamente em clínicas de psicologia se queixando de que Não consigo parar de mentir.
No entanto, ele não é completo. Acredito que a mentira aconteça com todos e por todos. Por duas razões. Uma delas é que nem sempre podemos ter certeza de que o que falamos é verdade. Quer ver? Na idade média dizia-se que o sol girava em torno da Terra. Em tempos modernos esta idéia é absurda. Do ponto de vista da realidade, pode-se dizer que mentiram. No entanto, é possível dizer que não foram sinceros em defender o que acreditavam?
A segunda razão chama mais a atenção. É que na mentira também existe prazer. Não é incomum ouvir pessoas dizerem que preferem não saber da traição do marido ou da esposa a sofrer com a verdade. Existem multidões de pessoas que votam no "rouba mas faz". Também não é incomum ouvir que Uma mentirinha só não faz mal, ainda mais se usada para o bem. Por quê?
Não sei bem, mas constantemente reparo nas mentiras. E como elas são freqüentes. Aproveito a época natalina para dar um bom exemplo. Você acredita em Papai Noel?
Para as crianças a resposta deve ser sempre Sim. Outras mentiras aparecem também para as crianças de maneira demasiado freqüente quanto à sexualidade. Cegonha? Sementinha? O que os pais estavam fazendo no quarto, mesmo?
Não condeno a mágica do natal e do Papai Noel. Aliás, sou fã de histórias mentirosas que os adultos chamam de ficção. Mas não soa estranho que os pais reclamem que suas crianças mentem sendo que eles os criaram sob mentiras? Mais uma vez, não condeno a mágica do Papai Noel ou do Peter Pan ou da fada Sininho. Só que acho que os adultos poderiam lidar de forma diferente com as mentiras infantis e fazer delas algo mágico, tal qual fazem com o Papai Noel.
Será que, com isto, a idéia não deveria ser a mesma que fizeram os homens da idade média sem o saber: tornar uma mentira autêntica por meio da sinceridade?
Não fiz a mesma via de pensamento que fez o Calligaris, até porque não acho que os americanos sejam tão comprometidos com a verdade quanto quer o autor. Mas posso dizer que concordo com o título e o último parágrafo de seu texto No ano novo, prometo parecer sincero e autêntico.
"Alguns não conseguem se libertar dos seus próprios grilhões, mas conseguem libertar os amigos."
Nietzsche
"Quando nos apaixonamos
Apenas nos apaixonamos
por nós mesmos."
Keane
O recém lançado Cd do Keane, Perfect Symmetry, é, além de imperdível, um convite ao envolvimento. Para gostar de Keane é necessário atentar para o esquema musical, que muito me lembra o eletrônico oitentista que ouvia enquanto ainda era criança. A abertura, Spiralling, já deixa isto claro logo.
Como já disse, o Cd é imperdível. Mas Spiralling me fez ter um enorme devaneio. Isto devido à criatividade de sua letra. É que em certo momento ela, a música, nos diz Cold like some magnificent skyline, out of my reach but always in my eye line (Frio como alguns horizontes magníficos, fora do meu alcance mas sempre em minha vista, em tradução livre). Além de poética, pensei sobre a psicoterapia.
De fato, nossos horizontes são alheios ao nosso toque. Temos que observá-los, mas jamais poderemos tocá-los. Mas é que outras pessoas podem tocá-lo. Basta que se localizem no horizonte e nós lhe daremos o sinal para abaixar e... pronto! Nosso horizonte está ao alcance de outros.
O psicoterapeuta é, em tese, um destes que se propõe a tocar horizontes alheios. Sempre se lembre do que Nietzsche nos disse sobre libertar os outros e nós mesmos de seus ou nossos grilhões. Nem sempre podemos nos libertar. Talvez porque Keane tenha razão: não nos é possível a nós tocarmos nossos próprios horizontes.
"(...) Não são as idéias, nem a visão, nem as ferramentas que realmente interessam na psicanálise. Se, no final de um tratamento, você perguntar ao paciente qual foi o processo da análise, do que ele se lembra? Nunca das idéias e sempre do relacionamento com o terapeuta. Eles raramente se lembram de uma conclusão importante do terapeuta, mas se lembram com carinho da relação. E me arrisco a dizer que isso serve para você também. (...)"
Em: A cura de Schopenhauer (p. 66)
Irvin D. Yalom
A National Geographic apresentou dia 10/11/08 um programa intitulado Mente bilhante, mais especificamente o episódio Gênio nato. Neste episódio, contaram a história de um menino, Marc Yu, que com sete anos já tocava piano com perfeição.
O programa foi organizado de maneira interessante e instigante, mas existia algo além da história que não foi contado pelo programa. Nem deveria ser, mas não pude passar sem reparar. É que o programa se organiza em torno de uma visão específica de ciência. E qual a importância disto?
Simples. Quando organizamos um programa televisivo em torno de um estilo de ciência também eliminamos, por conseguinte, todos os outros estilos de ciência que coexistem com o primeiro. Não creio que os programas televisivos devessem contemplar todos os tipos de visões científicas sobre cada tema. Se isto acontecesse, os programas ficariam enjoativos, repetitivos e sem conteúdo. Mas é importante que tenhamos conhecimento de que a NG é adepta a uma certa noção ciência e que podemos ter contato com outros tipos dela.
E é sobre uma outra modalidade de ciência, que não esteve inclusa no programa, que eu gostaria de falar. Em certo momento do documentário, eles mostram uma pesquisa realizada com uma quantidade grande de crianças com o intuito de verificar se a estimulação precoce ajudaria o desenvolvimento do intelecto. Resultado: até os 12 meses de idade existe pouca diferença no desenvolvimento das crianças, mas a partir dos 15 meses, com a criança sendo estimulada desde o sexto mês, aproximadamente, já é possível notar diferença significativa na aprendizagem da linguagem, matemática, QI e sociabilidade. E ainda, depois de crescerem elas foram comparadas a outros indivíduos não estimulados e obtiveram melhores resultados quanto aos empregos e desempenhos pessoais. Até aqui, apenas constatação de fatos.
As diferentes ciências convergem ou divergem a partir daqui. As explicações, motivos, maneiras de entender, maneiras de intervir é que determinam como cada ciência difere uma da outra. A primeira coisa que é preciso saber sobre este tipo de ciência descrita pelo programa é que ela trabalha com normalidade. Isto significa que tem que haver um número grande de sujeitos que serão testados e as arestas, por assim dizer, serão desconsideradas em prol do grupo. Assim, pouco importa que entre as crianças testadas pudesse haver uma ou duas que não chegaram nem perto do sucesso profissional, já que as outras chegaram e respondem pelo grupo todo. Quero dizer: nem todos são contemplados e, portanto, explicados. Segunda coisa a se pensar é que a explicação para o desenvolvimento das crianças se deu pela observação de seus cérebros. Sou materialista. Toda a transformação ocorrida passou, sim, pelo cérebro. Mas só?
Claro que não. Mas é que esta ciência exclusivamente materilista se esquece de aspectos importantes da pesquisa. Literalmente, se esquece, pois considera pouco (ou nada) o papel do contato humano na experiência. Como assim?
O experimento começou precocemente nas crianças. Algumas delas tiveram contato com os pesquisadores antes das seis semanas de idade. E permaneceram em contato com eles até pelo menos os primeiros anos de vida. Retornaram a vê-los na vida adolescente e adulta. Não teriam sido estas pessoas de extrema importância para a vida destas crianças? Não estariam os pesquisadores investindo os "sujeitos da pesquisa" de amor e afeto e ao mesmo tempo sendo investidos desta maneira? E ainda, não estariam eles investindo os mesmos "sujeitos" de expectativas sobre seus intelectos?
Este outro tipo de ciência não é novidade. Mas sem dúvida traria, se não tivesse sido deixada de lado, contribuições diferentes para a pesquisa. Não são contribuições opostas, mas complementares. Como por exemplo, propor que um dos objetivos seja verificar se os sujeitos tendem a não desapontar os pesquisadores. Ou que os sujeitos se achem sortudos de serem, depois de adultos, mais inteligentes simplesmente porque fizeram parte de um grupo que foi amado e esperado para ser inteligente. E ainda, como explicar aqueles que fugiram a norma?
As descobertas poderiam, estas sim, impressionar pelo incomensurável grau de sentimentos envolvidos nos sujeitos de uma pesquisa que até então tem sido desprezado pela ciência contemporânea dominante. A propósito, um romance que sem dúvida foi construído após muita experiência clínica neste estilo diferenciado de ciência é A cura de Schopenhauer. Vale a pena conferir o alto teor literário (e científico) de Yalom neste romance que emociona.
... sofre. E não é pouco. Depois de assistir Ensaio sobre a cegueira, de Meirelles, ouvi alguns comentários importantes que não poderiam me escapar aos ouvidos.
Entre as críticas estão que É só um filme com um monte de cegos, Não acontece nada ou É só isso, outro pergunta. É. É só isso. É somente a história de como seria a humanidade se ficássemos cegos. Nenhum espanto mesmo. No fundo, conhecemos bem o nosso lado animalesco, bem caracterizado pelo filme. E também não me parece espantoso que já vivamos em sociedade similar. Concordo com o outro, é só isso. Só um filme sobre um monte de cegos.
Os comentários mais otimistas, que tentam compreender por outro ângulo o filme, diziam Puxa, eles se organizavam em sociedades como a nossa, Fica clara a relação de poder entre os homens, Estou cego. Mesmo nestes comentários, ainda é só isto... uma história óbvia sobre nós mesmos. Isto é uma crítica negativa?
Não. O filme é excelente e muito fiel ao livro. Fiquei com a sensação de estar relendo enquanto assistia. E arrepiei de ver São Paulo vazia, com lixo para todos os lados e pessoas se comportando como animais (e um animal se comportando como pessoa). Parece que fui o único que me surpreendi com a história entre meus amigos, mas eles têm razão. É só uma história sobre nós mesmos, contada e assistida de ângulos diferentes. E por isto ele é tão bom.
Em outra oportunidade, falei sobre a complexa maldade do Curinga. E um outro comentário foi sobre a complexidade sobre o bem e o mal em torno da personagem que enxerga, que tem olho. Aqui está a única coisa que preciso discordar, que se esperava dela que fosse uma heroína, uma pessoa certa, a única com possibilidade de manter em si leis morais.
Como eu disse no começo, em terra de cegos quem tem olho sofre. Não pretendo contar o filme, mas posso tentar explicar com algumas cenas. O ditado popular, Em terra de cego quem tem olho é rei, tem um defeito. Como saber se aquele que diz que enxerga, enxerga? Com efeito, o surgimento de alguém que diz que vê em meio a outros cegos, se não fosse desastroso por conta de causarem a destruição daquele dotado de visão (conforme Platão acreditava e Saramago também em A caverna), seria desastroso por conta de, a partir disto, todos poderem simplesmente dizer que enxergam. Aliás, freqüentemente ouço pessoas repetirem a pergunta Será que ele não enxerga isto que é tão claro para mim. Esta é uma das frases que parte do pressuposto que nós mesmos enxergamos. E certamente faríamos o mesmo caso fôssemos cegos. Como quando na cena do outro que disse estar diante de um negro por reconhecer seu tom de voz. Escuso dizer que o lado mais bestialmente excludente do ser humano esteve presente nesta fala. Mas ela também nos diz que ele sim enxergava, ele sim saberia distinguir o bom do ruim pelo tom de voz, quase enxergando sua cor. Quantas vezes fazemos isto por dia?
A decisão de não contar a quase ninguém sobre sua lucidez, por assim dizer, torna a única personagem que enxerga uma heroína sem igual na literatura. É aqui que entram os críticos que dizem que ela era uma heroína que ia contra princípios éticos. Que fazia também o mal. E também aqui que eu rebato a crítica e pergunto Qual ética? Qual mal? Naquela terra de cegos? Duvido que não faríamos o mesmo.
Freud, em Mal estar na civilização, nos lembra que não é possível a nós nos colocarmos em lugar de outrem, pois isto implicaria levar conosco toda a nossa experiência e subjetividade para tal lugar. O que implica em enxergar conforme si mesmo, e não conforme outrem. Acredito que tenhamos, neste caso, exemplo nítido de tal fenômeno. É que levamos a nossa moral, nossa ética para o corpo daquela que enxergava em meio a cegos. Só que nos esquecemos que no filme somente ela enxerga. Por isto, esperamos que ela aja como nós e soa mal, soa antiético que ela faça o que faz durante o filme. Por exemplo, correr de cegos esfomeados com sacos de comida em mãos.
No entanto, todo aquele que percebe algo de diferente, algo de novo, algo que somente ele diz estar enxergando também se queixa de sua situação de impotência. Não é raro, logo depois daquelas frases típicas de Será que ele não vê o que está fazendo, ouvirmos Mas ele é assim, não temos o que fazer. E sofremos frente a nossa impotência de querer fazer algo, mas não poder fazer. Os estadunidenses se enganam. Querer não é poder.
Por sorte, Drummond nos lembra que a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Nossa heroína sente dor. Mas por fim escolhe não sofrer. Digam-me... o que de antiético ou imoral existe em matar aquele que se dispõe em matá-lo de antemão, apenas por seu tom de voz? A lei brasileira reconhece este ato como, pelo menos, plausível de não ser entendido como crime. O que de imoral existe em querer comer após dias de fome e sendo tratado de maneira excludente por esta mesma sociedade que agora está cega? Discutir ética é sempre demasiado complexo. Mas discutir ética em terra (quase) sem ela é insano. O Curinga sim, revelou tal complexidade de maneira que o bem e mal são colocados a prova em todos os momentos. Mas a nossa heroína. Ela agiu como lhe obrigou a sobrevivência do corpo. E enxergar teve um preço caro. Teria que suportar que a sobrevivência transcende à razão. Teria que suportar ver a própria onipotência destruída frente ao caos.
Suportou como pôde, acredito eu. E isto não tem implicações éticas em terra sem ética. Calligaris aposta em mais uma coisa. Em caos, quando temos que recomeçar do zero, as mulheres, via de regra, se saem melhor.
P.S. em 02/11: http://caderno.josesaramago.org/2008/10/28/fernando-meirelles-cª/
"(...) foi a apresentação deste Ensaio sobre a cegueira em imagens e sons."
José Saramago
Para os que ainda não puderam conferir o novo filme do Batman, o cavaleiro das trevas, não percam. Mas reparem. O Batman não é o ator principal do filme. Aliás, ele chega a apelar várias vezes para filmes do 007 em momentos absolutamente dispensáveis. 007 tem clima para um agente absurdamente irreal. Batman perdeu a graça usando este tipo de cena. Não porque são chatas. Não são. Mas é que ele só faz isto. Já o Curinga...
Desempenhou mesmo um papel difícil, o ator. E mostrou para o que veio. Pegou o espírito da coisa e foi a fundo no personagem. Resultado, um Curinga extremamente sincero para com o seu papel. Em ritmo enlouquecedor para quem assiste (agora se imagine interpretando o personagem), põe em ação tudo o que irá acontecer durante o filme. Quer ver maldade? Veja o novo filme do Curinga.
Maldade por maldade, me lembrei do Sweeney Todd várias vezes enquanto assistia o novo Batman. É que o Curinga e o Todd têm lá suas diferenças. Ambos abusando de maldade, claro. Mas o Todd tinha um, por assim dizer, motivo. O Curinga, aparentemente, não.
Todd volta depois de longo período recluso de sua cidade para se vingar daquele que matou sua família. Não estraguei nada do filme até aqui, para quem ainda não viu. Isto que contei são apenas os quinze primeiros minutos. Cenas teatrais, filme musical, mas nem um pouco cansativo. Muita crueldade e meticulosidade movem o barbeiro a cada novo treino para sua vingança maior. Não quero contar mais sobre o filme. Dizem que o ódio cega.
Mas também dizem que o amor cega. Ou é cego.
Então, como enxergar?
Outro dia, um grande amigo de longa data esteve me contando sobre as dificuldades de dirigir seu carro. É que ele é quase cego de um olho. Esteve me explicando que perde a noção de profundidade quando se enxerga somente com um olho. Um professor que tive na faculdade já me alertara, Se você acha que dois olhos apontando para o mesmo lugar e o dedo polegar não fazem diferença para a evolução, experimente fechar um olho, amarrar o dedão e pular para agarrar um galho de árvore. Mesmo assim, tentei. Dirigi com um olho só aberto durante alguns segundos. Me convenci logo que chegou a primeira curva e o primeiro carro. Faça isto somente a baixas velocidades, não quero ninguém me culpando por seus próprios acidentes.
Voltando ao assunto, se o ódio cega e o amor também, mas nem por isto deixamos de enxergar certas coisas apenas porque estamos em estado de ódio ou amor, estes sentimentos devem cegar um olho só. O Todd não deixou de ver o alvo de sua vingança. E o Curinga... bom... eu diria que não deixou de enxergar o alvo de seu amor. Estranho?
Certa vez, Calligaris nos sugeriu que a melhor maneira de amarmos ou sermos amados é quando o parceiro se torna um enigma. E o Batman acha o Curinga um verdadeiro enigma. Que esta seja a última vez que falo do Batman. É que sua autonomia no filme é tão pequena que quem alerta o herói que seu vilão é um enigma é o seu mordomo. E mesmo o Curinga acha o Batman um enigma, já que quer descobrir a verdadeira identidade de seu rival mascarado. E estranhamente, um nunca mata o outro. Isto me lembra inúmeras músicas estilo Entre tapas e beijos.
Todd é cruel. Mas é uma pena. Se eu pudesse reescrever aquele final, eu certamente tiraria o clima de Moral da história que ele contém e substituiria por algo realmente cruel. Porém o filme não perde seu brilho. Todd esteve cego do olho do amor, que o ódio lhe cegou. Não esteve ausente de realidade, só a enxergou por um ângulo sem profundidade.
Curinga, por outro lado, impecavelmente louco, tem o olho do ódio cego. E só ama seu rival. Jeito esquisito de amar, é verdade, mas talvez a loucura dele esteja no fato de amar estranho e não em matar. Matar é quase conseqüência. Outro dia, e digo isto mais uma vez, falo sobre o amor. Se ele fosse simples, não existiriam poetas. E nem seriam contraditórios. Voltando ao Curinga, ele se mostra lúcido demais em duas passagens. Uma, diz ao herói Não quero matá-lo, só desmascará-lo. Entre tapas e beijos me vem em mente. Outra, A loucura é que nem a gravidade, basta dar um empurrãozinho.
Entre um e outro estamos nós, espero. Ora nos cegando de um olho, ora de outro. Jamais estamos sãos e sabemos disto, pois reconhecemos abertamente que o ódio cega. E o amor também.
Como enxergar? Não negando nem um nem outro. E nem que tanto um quanto outro podem ser construtivos e destruitivos. Problema é que para enxergar com os sentimentos não existe nem fórmula nem órgão corpóreo específico. Todd deu o jeito que conseguiu (ou pôde) dar. Curinga também.
P.S.: Freud nos alertou várias vezes que em nossa normalidade somos loucos. É que nunca tinha citado ele assim, abertamente. Fiquei com vontade de creditar algo àquele que intitula este site. Leiam a Conferência XX de suas Obras Completas.
Tenho notado a freqüência com que se associa inteligência com capacidade de apertar botões. Um aqui outro acolá repetem frases como Meu filho é muito mais inteligente do que eu, já sabe mexer no controle remoto da televisão e tem apenas 3 anos. Outros dizem que os filhos já sabem, aos 5, usar o computador. Freqüentemente também, os pais se perguntam o que este menino, ou menina, fica fazendo até tão tarde na internet que eles não têm domínio algum.
Não vivi a esta outra época, mas também com grande freqüência ouço que as revistas em quadrinhos, quando de seus surgimentos, teriam o mesmo poder destruidor da humanidade que tem hoje a inter-rede. A geração anterior a esta, que prega que a internet destruirá o mundo, leu quadrinhos. Muitos quadrinhos. E seus pais se perguntavam e ficavam em dúvida se eles, os quadrinhos, não destruiriam seus filhos e, por conseguinte, o mundo.
Claro que não me isento de ser participante ativo deste que já é meio de comunicação importante entre pessoas de todas as idades ao redor do mundo. Mas é que me soa antiqüado dizer que a internet é ou será responsável pela desgraça da humanidade. Digo isto porque tenho notado o quão importante têm sido as visitas neste blog de pessoas buscando ajuda para si ou conhecidos. No entanto, isto tem me preocupado. Porque pouco tenho escrito aqui que acredito que possa ser uma luz no fim do túnel. Ou que possa indicar caminhos. Ou que algo de novo possa ser enxergado. Por enquanto, ainda não é o que pretendo escrever. Explico.
Outro dia, em conversa de bar, alguém que tive pouca oportunidade de conhecer melhor me pergunta minhas características pessoais. Dei-lhe então toda a minha sinceridade em responder tanto coisas que são socialmente reconhecidas como boas quanto como ruins. E nem me atentei ao fato de tê-lo feito. Mas acontece que os olhos, do outro lado da mesa, se esbugalharam e ouvi Nossa, você deve sofrer um bocado. Resposta simples em forma de pergunta, E você não.
Ora, apesar de meu cansaço em ter que discutir este tipo de assunto e finalizar com uma pergunta que simplesmente evita delongas, não sei se não tive, por outro lado, certa razão. É que não conheço ser humano que não sofra.
De fato, o assunto não pôde prosseguir. Mas em verdade, percebi nitidamente que algo de desconforto e ao mesmo tempo conforto ocorrera do outro lado da mesa. Reconhecer que eu sofro e que este outro também sofre foi ao mesmo tempo espantoso e confortante. Não consigo provar, em linhas de blog, as sensações que pude observar, mas que ouve certo relaxamento após o clima de tensão, isto houve. Por que? Respondo agora, explico depois. Acredito, veja que é apenas uma suposição, que isto fez esta pessoa reconhecer que, apesar de sofrermos ambos, podemos nos recuperar do mesmo sofrimento.
Winnicott me vem em mente. E aproveito o seu curto, mas certeiro A função materna primária com excelente tradução (2000) no livro Da pediatria à psicanálise. É que ele descreve de maneira que poucos conseguiram fazer o que acontece com a mãe logo após o nascimento de seu bebê. Aliás, este autor fora durante sua vida exímio observador da relação de mães com seus filhos. E, com provas simples, ele conta como a mãe faz seu percurso a partir da anormalidade de volta para a normalidade logo após o nascimento do filho. Estranho?
Faço um pedido. Quando observar um recém nascido, não apenas observe aquele corpo em si, mas note com que facilidade a mãe atribui àquele bebê sensações que supõe pertencer a ele, sem saber se em verdade é isto que ocorre. Assim, ela diz que ele tem fome. Ou fez cocô. Ou xixi. Ou está com dor de barriga. Mas ela não sente o mesmo que ele. Quero dizer que, em certo grau, ela sente em seu lugar, como se fosse dele a vontade de que ele fosse alimentado. Mas é pouco provavel que um bebê saiba, nos primeiros dias, diferenciar uma dor qualquer de uma dor no estômago sendo que ainda nem reconhece sua mão como parte do seu corpo. Só que a prova mais convincente de que a mãe não está normal é que o cocô do bebê não lhe cheira mal. Pare do lado do bebê recém nascido e peça para trocar-lhe as fraldas. Mesmo que seja rápido, não nos passa a nós, que não somos mães naquele momento, despercebido o fato de que aquele produto tem um cheiro. Para a mãe passa.
Mas, no texto, o que me chama a atenção é que, depois de certa discução teórica, ele consegue afirmar que o bebê vai se constituindo a partir de se recuperar das próprias reações que tem ao ambiente. Cunfuso. Dito de outra forma, o bebê passa a adquirir segurança quando percebe que, mesmo que o estômago lhe doa e que isto pareça o fim de sua própria existência, ele pode se recuperar após algo acontecer. Ele reage às dores e, com sorte, algo lhe tranqüiliza. Isto o faz reconhecer que seus momentos mais frágeis e de sensação de desintegração de si mesmo são recuperáveis. Claro, isto tem ainda outros desdobramentos.
Só que é este pensamento que me importa agora. Para todos estes que procuram este blog atrás de respostas, que nunca lhes dei, posso dizer que pouco provavelmente lhes darei agora. Mas que, por outro lado, se ainda lhes resta esta capacidade de acreditar que é possível se recuperar da sensação inevitável de estar se despedaçando, esta mesma capacidade pode movê-lo a criar novas possibilidades de existência. E quero crer que buscar ajuda na inter-rede é uma das manifestações de que esta capacidade ainda existe. Este texto é, portanto, dedicado a todo aquele que sofre.
Neste sentido, nossa querida internet, bem como o ombro amigo, podem exercer funções bastante divergentes daquela intenção destruidora. Não só isto, a internet também vem cooperar com o que antes só era possível viver enquanto sensação de pura solidão. É que a internet abre a possibilidade de sempre encontrarmos alguém que, mesmo a meio globo de distância, pensa como nós. Sempre.
Ah! Durante a faculdade de psicologia, pelo menos nos anos que cursei, tive que condicionar um rato a apertar uma espécie de botão para tomar água. Com facilidade de pouco mais de uma hora de prática, o rato, que tinha pouco mais de um mês de vida, pôde apertar o botão para saciar a sede. Em menos de três meses depois disto, pôde fazer longas cadeias de rituais até chegar a apertar a barrinha. Aliás, sobre a inteligência de nossos bebês, tenho uma séria pergunta que me faço quando ouço algo relacionado. Por que acreditamos que inteligência é a capacidade de apertar botões e não delegamos tamanha importância a esta mesma capacidade em ratos?
"Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede."
Eduardo Galeano
Faz algum tempo que ensaio escrever sobre os sonhos. E penso que chegou um momento propício para isto. Esta semana tive a oportunidade de contemplar um sarau do mais alto nível que aconteceu em Ribeirão Preto e contou com a presença de ilustres artistas. Em pouco tempo, me fizeram me sentir em casa e despertaram em mim algo que em verdade diz mais respeito ao quase oposto do despertar. Algo que se compara ao mágico. Este algo que prezo ter o direito não declarado pela ONU de tê-lo comigo todas as noites.
Aliás, o texto acima pode ser encontrado neste endereço, que também posto ao lado. http://www.dhnet.org.br/desejos/sonhos/dsonhar.htm
No entanto, não é sobre os meus sonhos que quero falar. Há algum tempo tenho contato com uma pessoa que sonha. Muito. E claro, eu a contemplo. Muito. Não estou dizendo sobre os sonhos despertos, estes que mais se parecem com sonhos morais do que com a concretude do desejo. Quero falar sobre este último. Antes, permita-me explicar as frases anteriores.
Há muito, bem antes de me inclinar sobre os estudos de tal fenômeno, ouço pessoas dizendo que sonham em ser engenheiros ou advogados, ou sonham em estudar, ou sonham em ser feliz. Claro que todos estes sonhos têm grande potencial de construtibilidade, se me permitem a invenção desta palavra caso não exista. No entanto, todos eles me parecem conter algo de comum quando se trata dO que é socialmente aceito.
Acredito que minha opinião sobre o sonho de ser feliz já foi dada em outro texto (Felicidade foi-se embora) e, por isto, parece ser o jeito mais fácil de explicar o que quero dizer. Os planos de felicidade que construímos socialmente não nos têm deixado opção diferente do Seja feliz. Neste sentido, estes sonhos sempre me soam alegorias da vontade de ser socialmente aceito e não de ser feliz. Isto porque escondem algo do desejo que fora outrora desejado mas não pode mais transparecer em prol de ser visto e aceito por terceiros.
Me desculpe Galeano, mas a continuação do seu texto também segue esta linha de raciocínio. Mas acredito que só foi possível a ele, Galeano, escrever algo de tão verdadeiro como a frase supracitada porque ele sonha durante as noites. E, claro, não me esqueço de repetir que todos os sonhos dele no texto citado têm grande potencial de construtibilidade, esta palavrinha que usei há pouco. Mas é que hoje não estou tão interessado nestes sonhos.
Quero reavivar às pessoas sobre a existência dos sonhos comuns. Estes que temos durante a noite. Alguns dizem não os terem e até acredito que seja mesmo possível. Mas não consigo conter o pesar que sinto por todo aquele que por qualquer motivo tem uma das janelas do desejo fechada. Por sorte, não é a única janela. Mas também não vou me prolongar por este assunto por agora.
Como ia dizendo, tenho tido contato com esta pessoa que sonha muito. Noto sempre o quão importante é cada sonho que ela tem. E que a cada sonho ela reluta em dizer que tudo aquilo que acaba ficando óbvio por si só Não é óbvio, nem sequer existe, nem fez parte do sonho. Claro que faz. Mas é tão custoso admitir que temos algo que não sabemos em nós. Assim, é difícil admitir que aquele sonho foi por ciúme E inveja simultâneas de tal pessoa. Ou que é preciso morrer para recomeçar (em sentido simbólico, claro). Ou que desejávamos mesmo sentir ódio de fulano e que no sonho foi inevitável matá-lo.
Por outro lado, sabemos que temos algo desconhecido em nós. Afinal, é fácil reconhecer que não escolhemos os conteúdos dos nossos sonhos. Portanto, eles só podem acontecer por motivos desconhecidos por nós mesmos. Mesmo assim, é custoso.
Reconheço e respeito as dificuldades de admitir que algo foge em nós mesmos do nosso controle. Mas é que hoje... hoje acordei poeta. E por isto acordei apostando que os sonhos farão o trabalho de nos mostrar que não nos governamos nem a nós mesmos.
E com sorte, poderemos encará-los com a mesma coragem e medo que tem feito esta pessoa que admiro.
Venho por meio desta comunicar algo que é deveras importante para nós. Acredito que isto não altere a maneira como o respeito ou como nos relacionamos. Afinal de contas, não tenho um décimo de sua experiência e um centésimo de suas leituras. Mas preciso dizer que não concordo com você. Claro que também preciso dizer que concordo pouco com qualquer outro. É que hoje acordei com especial vocação para não concordar com muito do que você me diz. Não me importa dizer que é a idade, ou que eu tenho muito o que aprender, ou que eu é que não tenho razão. Na minha cabeça, você errou e eu acertei. Não sou obrigado a concordar com você única e tão somente por ser mais velho, ter mais títulos e mais conhecimentos. Nem porque este é seu ofício de anos ou porque esta é sua especialidade. O fato é que vou fazer à minha maneira e dizer as minhas coisas porque assim eu quero. E não me venha com sermões sobre aprendizagem ou qualquer outro. Não concordo e pronto. E assumo! Quero de outra maneira e estou disposto a correr os riscos por discordar de você. Inclusive o risco de quebrar a cara e no final das contas ter que chorar que você tinha razão. Não me importo. Desde que eu possa aprender a caminhar com as minhas pernas, e não as suas. Para mim, suas pernas são mancas. Mesmo que sirvam para você, se fosse me carregar, certamente andaria em outro passo. Por isto, fica decidido que não concordo com seu ponto de vista e vou espalhar o meu por aí. E vejo você quando isto tudo tranqüilizar e possamos conversar sobre isto como se não fosse mais importante. Como se nem precisássemos falar nada por saber que o que aconteceu aconteceu, e que agora não só não tem volta como um dos dois aprendeu algo de novo. E espero fazer isto sem que nunca nos digamos nada sobre este assunto. E que isto possa fortalecer nossos laços por nos tolerarmos como somos.
Sinceramente,
Obrigado.
O artigo anterior contou algumas situações que fazem pensar O que, afinal, esperamos dos eventos da vida. Mesmo que eles não devessem ser surpreendentes por serem apenas a repetição do que sempre ocorreu, parece que estamos fadados a, pelo menos em boa parte das coisas, esperar que o mundo seja como ele não é. E nos queixamos muito disto.
Mas o mundo nos escapa ao controle. E o Leo Wroblewski, autor de um blog que acompanho e que já tem o link logo ao lado, propôs uma pergunta interessante nos comentários do artigo anterior. E se fizéssemos por merecer, fôssemos quem poderíamos supor merecedores de algo, mas não conseguíssemos alcançar o tal merecido... poderíamos reclamar? Teríamos este direito?
Em termos econômicos fica mais fácil. Se eu pago por algo que não recebo a lei garante que é possível recorrer para a devolução do que foi pago ou a exigência do objeto adquirido, seja ele material ou imaterial. Mesmo que as dificuldades para o recebimento variem em cada caso, o que acontece de mais importante para nós neste texto é que a lei garante este direito. Portanto, fica entendido que por uma negociação social, ou pelo menos uma negociação entre os votantes pela existência da lei, podemos reclamar o merecido do ponto de vista econômico. Mas é claro que não é deste merecido que estou falando.
É daquele outro merecido que também podemos encontrar com freqüência nas queixas como Eu sempre fui fiel e ele sempre foi um galinha. Ou Eu fiz desta e daquela maneira e ele me deixou. Ou Eu sou tão bom para ela, mas ela não se importa comigo. Ou Eu fiz este prato de comida com tanto gosto, vontade e dedicação e nem sequer um elogio eu recebo. Ou Sempre ajudei as pessoas, mas quando precisei ninguém me ajudou.
Pois é. Reclamamos disto diariamente. Claro que todas estas frases guardam um bom bocado daquela pergunta título do meu artigo anterior, O que você esperava?, mas existe algo mais nelas. Existe a noção de que estamos certos em nosso ponto de vista, por isto reclamamos. Mas eu nunca vi lei, que em última instância é o que regula o certo e o errado, que diz que se você for uma boa moça deverá se casar com um bom moço ou o moço deverá deixar de ser mau moço. Ou que diz que somos obrigados a elogiar o autor, por assim dizer, da obra de arte que ficou a nossa janta. Além de não ser possível regulamentar este tipo de situação por sua grande freqüência e baixa acessibilidade dos meios de controle, acredito que estas leis não existam por ainda mais um motivo. É impossível regulamentar o que desejamos. Explico.
Assim como o que acontece no mundo foge ao nosso controle, o que acontece com as nossas vontades também foge. Além disto, aproveito para relembrar mais uma vez do Calligaris. Em seu texto Liberdade para o quê?, colocado no fim deste artigo, ele diz que relacionamentos amoros têm mais a ver com encontro do que com escolha. Ainda não expliquei nada. Mas semeei o que quero dizer. Passo a explicar.
Relacionamento amoroso envolve desejo. Não só o desejo sexual ou desejo de ter vontade, mas outros tipos de desejo. Que nem desejo de chocolate, que se fosse só vontade daríamos o mesmo nome. E também por isto é que não é só questão de escolha, mas encontro. O chocolate B não serve quando desejamos o A. E só podemos desejar A porque encontramos nele algo de especial. Assim, adoramos ver nosso parceiro dormindo simplesmente porque é linda a posição que ele fica, ou amamos ver o outro bocejar porque ele fica com aquela carinha tão lindinha. Acho que Drummond é muito melhor do que eu. Agradeço à Raíssa por este oportuno artigo.
http://quiproquos.blogspot.com/2008/06/namorados.html
E por que gostamos disto? Por que temos estes desejos, não só o físico e o sexual? São perguntas que sempre que alguém se aventura a responder acaba sendo reconhecido como poeta enquanto é um verdadeiro cientista do desejo. Mas é fácil reconhecer que estes desejos vêm de onde não sabemos e apontam para coisas que tampouco sabemos porque tomaram tal direção. Mesmo os poetas concordam com isto. Assim, fica explicado que também nossas vontades fogem ao nosso controle. Regulamentar que boa moça devesse casar apenas com bom moço mata qualquer possibilidade de a moça desejar, buscar ou encontrar o moço que ela quiser ou não quiser, já que é fora de controle, seja ele bom ou mau.
E parece ser este um dos fundamentos de nossa reclamação. Além de expor algo que desejávamos e que se produz a cada vez que falamos, voltando a citar Calligaris no texto Amores silenciosos que está abaixo, ela, a reclamação, ainda mostra o descontentamento que temos frente à nossa ausência de controle sobre a realidade. Tanto a interna quanto à externa.
Coitados destes nossos pensamentos que se julgam sabedores morais das regras universais e que tentam controlar o mundo à sua maneira. Não fazem mais do que aquilo que são capazes, que é pensar. E neste caso, como não controlaram nada, pensam reclamações. Reclamam porque não têm outra opção. Reclamam porque é melhor para eles do que admitirem que o mundo não quis ser como eles queriam fosse. Portanto eles foram, os pensamentos, incapazes de mudar o mundo. Só posso dizer que reclamar fora dos limites da economia não é uma questão de direito, por isto não é regulamentado pela lei.
Quando fazemos por merecer e não temos o merecido, ou dito de outra forma Quando nos julgamos certos merecedores e o mundo não quer o mesmo que nós... temos o direito de reclamar?
Oras, temos a falta de opção de reclamar. A reclamação, sendo resultado da frustração de nossos desejos mais íntimos, só pode guardar a mesma característica de ser extraordinariamente fora de nosso controle.
P.S.: Links
Leo Wroblewski http://leowroblewski.wordpress.com/
Raíssa* http://quiproquos.blogspot.com/
Liberdade para o quê? http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=1464
Amores Silenciosos http://contardocalligaris.blogspot.com/2008/06/amores-silenciosos.html
É sempre tarefa difícil escrever sobre as tendências Indies por uma razão mais ou menos simples. É que quase qualquer coisa pode ser Indie.
Vamos ao termo. Indie é uma abreviação inglesa para Independent, que traduzido signfica Independente. O movimento Indie, ou os movimentos Indies, se expande por todo o ramo da arte e ganha em cada uma delas uma subdivisão, história, influências e tendências. E para ser Independente é preciso que não seja, por exemplo, como a Mariah Carey que tem a obrigação de vender X milhões de dólares por disco, gravar há cada Y espaço de tempo músicas que não são feitas por ela ou quando são têm que seguir um certo formato. Entremos, já que este virou o assunto, na música.
Formato é a palavra chave para a questão do que é ou não Independente. Os Independentes não se sentem, ou não deveriam se sentir, na obrigação de seguir este formato. Vantagem é que podem compôr às suas maneiras, com trechos experimentais, dissonâncias, alternância de volume ou qualquer coisa que perpasse o momento artístico de quem compõe. Desvantagem é que nem tudo é audível.
Já nas músicas, por assim dizer, Dependentes, isto se torna mais fácil de resolver. Poucas ousadias e muita repetição do mesmo são peças chave para a manutenção destes estilos. Assim, por mais que a Britney Spears se esforce ao máximo por ser diferente da Madonna sua música sempre terá o mesmo teor musical, os mesmos tipos de efeito, a mesma quantidade silábica, os mesmos apelos sexuais.
A única chance de as músicas, como aqui foram chamadas, Dependentes se modificarem é em função das tendências Independentes. Não que o movimento Indie seja livre de repetições, que não é, mas é o único lugar aonde existe possibilidade de experimentações virem à tona e causar qualquer modificação no estilo musical vigente. Quero dizer que tudo o que é Dependente outrora foi Independente. Isto me causa estranheza.
Porque é precisamente o oposto o que esperamos vivenciar durante a vida. Esperamos que quando bebês sejamos dependentes e quando adultos sejamos independentes. Por que nos movimentos artísticos isto é trocado?
Chega aquela parte em que não posso responder com certeza, apenas por impressões. E também fica aberto para qualquer um que acompanhe estes movimentos que possa dar sua opinião. Mas de repente me ocorreu um texto do Fábio Herrmann, psicanalista brasileiro que morreu há não muitos anos, que diz, já com as minhas distorções, que tudo o que é independente quer voltar ao estado anterior em que ainda era dependente, em que ainda era uno. O texto se chama Pesquisando com o método psicanalítico. Relutâncias dos independentes de todas as áreas à parte, concordo com ele do ponto de vista da psicanálise.
Quero dizer que não é do ponto de vista consciente que queremos voltar a ser dependentes. Não queremos parar de trabalhar e voltar a morar na casa dos pais e ir diminuindo até voltarmos à infância. Ao contrário, queremos poder construir nossas próprias vidas e ter produções próprias e independentes. Mas, independentes de quê?
Certamente não é independente do, em nosso tempo, capital. Se vivêssemos em outras sociedades não seria indepentente, por exemplo, dos bens de consumo dividos por igual, ou do peixe pescado e trocado pela limpeza da oca. Seja como for, as sociedades se organizam sempre, e por isto são sociedades, em grupos de dependência que se forem desfeitos causam problemas sérios ao funcionamento das mesmas. Veja as greves como exemplo. Os correios, quando têm seus períodos de greve, causam maior rebuliço.
Me desculpem todos os que se dizem independentes. Não acredito mais em vocês.
Portanto a saída para que a sensação de independência seja criada é dividir e impessoalizar. Existe o independente financeiro, a música Indie, o escritor independente e os blogs, que têm seguido o mesmo exemplo. Mas se pararem de visitar meu blog, o mais provável é que ele acabe. Isto não é dependência? E para que criamos estes grupos ou sensações de independência?
Agora não consigo pensar em outra coisa que não seja para voltar à dependência. Simples. Ganhamos dinheiro, impessoal e independente, para gastar com nossos vícios, dependências, repetições. Os Indies musicais só existem porque pagamos as entradas dos shows, porque compramos seus discos. Por isto não me estranha que os grandes encabeçadores e financiadores dos movimentos independentes sejam os jovens.
Nunca vi alguém de mais de quarenta anos ouvir discos inteiros do Bloc Party, Interpol, Snow Patrol, Doves. Existem, mas sem dúvida são bandas ouvidas principalmente por jovens. Os jovens estão precisamente na fase de se despregarem de casa, na luta entre a dependência e a independência financeira e talvez por isto apostem tanto nos seus próprios artistas preferidos, independentes e da mesma idade e geração.
Novamente, não são todos os jovens que mantém esta preferência e nem todos os adultos ouvem só Dependentes. Mas é muito provável que quando os jovens crescerem, todas estas bandas que hoje são independentes e experimentais serão as que farão parte das músicas Dependentes. Com um pouco de sorte, as grandes gravadoras se enfraquecerão e selos Independentes ganharão destaque, mas ainda assim as rádios não tocarão os mesmos estilos musicais desta atualidade. Duvida? Então se pergunte o que aconteceu com as músicas eletronicizadas dos anos oitenta. Nossos pais cresceram e o que era independente tomou conta das FM e pouco se ouve Outlets tocando Josi's on vacation far away... I just wanna use your love tonight.
Portanto, ainda mantenho minha concordância com Herrmann. Mas acaba de me ocorrer, e disto me serve escrever, que em certa altura eu escrevi que o movimento Dependente só encontra possibilidade de se modificar em função do movimento Independente. Assim, por mais que o desejo Indie seja voltar a ser Dependente e isto acabe acontecendo de fato nas alternâncias entre as gerações, é esta uma maneira possível de se movimentar, criar, atualizar, desatualizar, mudar, fazer, desfazer. Enfim, se eu pudesse apostar que algo faz diferença, eu apostaria naquelas coisas que não esperávamos que fosse acontecer justamente por ser ela fora de controle, fora da dependência de nossa onipotência.
Ainda bem que esta é uma pergunta de duplo sentido.
A palavra Acredita, nesta frase, devido à sua falta de complementos lança mão para uma dupla interpretação que é pouco explorada. Tanto pode querer perguntar se você acredita que exista, a exemplo de perguntas como Acredita em ET, como pode querer perguntar se você acredita que ele possa vingar, guardando este segundo sentido a idéia de que ele já aconteceu e a pergunta passa a ser se Acredita que este amor tenha futuro. Veja que a omissão é simples mas oportuna. A omissão de que falo é do que viria depois de Acredita, que pode ser tanto Que exista como Que tenha futuro. Como ainda não sei se me fiz claro, vou dar um outro exemplo da segunda omissão, já que é o sentido menos comum. O antigo casal de ex-namorados volta a namorar e alguém pergunta Você acredita que agora vá dar certo. Ou omitindo partes Você acredita neste namoro. Você acredita Neste amor à primeira vista?
Sim e não são respostas que comumente designam a crença na possibilidade de ele existir. Mas a resposta que tem me inquietado demais é aquela que deixa as conversas no limbo, que faz com que a dúvida possa servir tanto para não assumirmos qualquer responsabilidade quanto para nos movimentar para outras possibilidades... é o Talvez.
Talvez é freqüentemente entendida como a resposta mais humana em contraponto ao sim ou não do computador, do um ou zero, bom ou mau, certo ou errado. E notar que pode ser uma resposta tanto paralizadora quanto movimentadora deixa o Talvez tão divido quanto o sim e o não. Se eu digo que Talvez eu acredite e não quero conversar sobre isto soa deveras paralizador quando os atos subseqüentes não contradizem a fala. Mas quando se diz, em tom mais animado, Talvez eu acredite, a fala pode soar quase como a colocação de teste sobre a crença na possibilidade de dar certo. É este segundo Talvez que tem me interessado mais.
Não que o primeiro não tenha sua importância, que sem sombra de dúvida o tem. Mas é que o segundo Talvez nos faz esquecer aquele primeiro sentido da pergunta que soa quase como se Acreditamos em ET. É mais ou menos assim Se os ET existem ou não pouco me importa, mas se vierem estarei pronto para recebê-los. Claro que com um pouco de mau jeito e falta de habilidade no começo, mas aos poucos vamos nos ajustando. Agora estou falando do amor, não dos ET.
Portanto, fica aqui a minha opinião. Se eu acredito em amor à primeira vista?! Ah... por que não nos preocupamos com coisas mais interessantes como Devo apostar Neste amor, à primeira vista ou não, tão intenso e vívido? Esta sim deveria ser a verdadeira pergunta.
Não sei se é possível avaliar esta nova lei de trânsito apelidada de Lei Seca. Por um lado, pode ser uma maneira de reduzir acidentes. Por outro, é exageradamente severa. Mas não é sobre isto que me interessa discutir.
Desde que a lei foi estreada, por assim dizer, as conversas de bar não conseguem mais passar sem conter pelo menos leve referência sobre o assunto. Não importa há quanto tempo você conhece aquele seu amigo ou ficou sem vê-lo, cedo ou tarde alguém pergunta E a Lei Seca?
Ainda mais interessante é reparar que não importa quantas vezes o assunto já foi repetido. Ele será repetido novamente. Nem que seja em tom de alerta Cuidado com a nova lei. Ou em tom de resguardo Nossa, não posso beber hoje... Essa lei... Por que tamanho furor?
Claro que as respostas serão as mais individuais possíveis. Um pode alegar que é para não discutirmos coisas mais sérias, como corrupção ou o que de fato é crime. Outros podem dizer que é mais um daqueles papos como Será que vai chover, só porque não temos mais assunto. Ou ainda podem dizer que é para negar assuntos mais sérios ou aproximativos entre os envolvidos na conversa. Podem alegar que é para descarregar a raiva da lei. Servir de lição de moral para o próximo. Realizar uma verdadeira discução política. Enfim, podem ainda ter mais N sentidos.
Concordo com todas as respostas. Digo mais, é possível que todas essas funções estejam presentes em nossa fala quando repetimos sobre a lei. Mas o fato é que nenhuma destas respostas satisfaz a pergunta anterior por serem, em si, respostas incompletas. Mais do que isto, nem mesmo acredito que ela tenha uma resposta que possa ser completa.
Até que me ocorreu que vivemos de furor em furor. Já discutimos acidentes aéreos, crimes importantes, o filme Matrix, corrupção, mudança de moeda... e agora esta nova lei. Falem bem, falem mal, mas sempre falando deles.
Por isto, gostaria de expor que de fato continuo não sabendo o porquê do furor pela nova lei, tendo em vista que conheço defensores e opositores. Mas observando que vivemos transitando os interesses públicos e burburinhos, não acredito que eles sejam de todo ruim. Primeiro por conta da repetição. E como já disse no meu texto sobre repetição, ela contém o lado bom. E segundo porque graças a estes assuntos comuns ainda podemos nos comunicar a partir da nossa relação com o outro. Explico.
Esta semana eu estava discutindo uma outra lei, a do rodízio de placas em São Paulo, com uma pessoa deveras estimada por mim. Até que percebi que um de nós defendia ferrenhamente o cumprimento da regra e outro fazia de tudo para convencer o primeiro do contrário. O mais interessante disto foi que, via de regra, aquele que queria seguir a lei tem o discurso menos rígido e o segundo tem, em geral, o discurso mais rígido.
Além dos motivos particulares de cada um para inverter seu papel para consigo mesmo, também estávamos, em última instância, dizendo um para o outro Não concordo com você. E esta é a posição que em boa parte das nossas conversas, entre eu e tal pessoa, tem sido tomada. Será, então, que a discussão da regra era mesmo o mais fundamental?
Acredito que não. Talvez o mais importante fique por conta da maneira como é conversada, da disposição que temos em conversar, do conteúdo da conversa e porque ele é dito assim, entre outras coisas mais que compõem nossas conversas diárias.
Por isto, discutir os prós e contras da nova lei não tem sido divertido, nem tampouco seguí-la. Mas podemos agradecer a esta lei e a tudo aquilo que tem causado furor por ser mais uma maneira de nos comunicarmos.
E alguém me diz Acho que não tem problema de fazermos desta maneira porque ... e eu agradeço que o assunto existe, mas preciso dizer... Não concordo.
... um jeito melhor de explicar psicologia do que aquele outro artigo (Explicando psicologia), deixando o outro em um lugar mais literário ainda. É que hoje pude observar uma metáfora interessante a respeito da psicanálise que tomarei como exemplo. Mas deixando claro que não foi construída por mim, em essência.
Já se imaginou perdido em alto mar, sem rumo, sem bússola e sem ninguém além de você mesmo? Pois imagine. Agora imagine que o terapeuta é aquele que vai tentar encontrá-lo. Só que ele também está sem qualquer outro recurso além de uma bóia. Ainda não estão em atendimento. Assim, o analista pode apenas imaginar se algum dia sua bóia será útil para alguém. E o futuro analisando nem sequer sabe se será salvo. E também não sabemos se quer ser.
Reparando no parágrafo anterior, eu chamei o analisando de futuro analisando. Já ficando entendido que ele conseguirá ser atendido. Suas forças estão acabando e ele começa a gritar, se debater e fazer a maior quantidade de barulhos que consegue, já que é sua única alternativa. E, com sorte, acontece de o analista o enxergar. Iniciados os atendimentos, é uma longa jornada até que o analista consiga se aproximar do analisando com a bóia.
Os mais atentos já repararam em qual é o intuito do analista. Ajudar. No entanto, está enganado aquele que pensa que o analista tem tal capacidade. Porquê?
Oras, qualquer um que já tenha se afogado por curto período de tempo sabe que quase nada adianta jogar uma bóia a alguém em desespero e se debatendo. Sem contar que os movimentos do analisando quanto mais se intensificam e cansam o corpo o fazem afundar com maior facilidade. Aqui está um dos maiores problemas do analista. O instrumento e a vontade que possui de quase nada servirão para o desespero de quem se afoga. É o fim da psicologia?
Claro que não. Antes de jogar tudo pelos ares, ou melhor, antes de afundarmos sem ter o que fazer, é melhor tentar, de começo, jogar a bóia do que deixar se afogar. Se o analisando conseguir se apropriar dela, muito bem. Só que surge um outro problema. Como fica o analista nesta história? Sem a bóia? Ainda no mesmo exemplo, ele precisaria puxar a bóia com o sujeito e, como qualquer salva-vidas pode nos explicar melhor do que eu, o próprio salva-vidas é quem deverá subir na bóia, trocando de lugar com o sujeito, e a usar para nadar, já que é melhor nadador. Só então pode puxar o outro. Correto?
Em parte. Em análise temos um segundo problema a ser pensado. O caminho que o analista faria de volta até a praia nem sempre é o que o analisando gostaria de fazer! Já se perguntou o que estaria fazendo aquele sujeito ali na água? E se ele tiver fugido por qualquer motivo da mesma praia em que o analista o vai colocar de volta? Pois bem, a idéia não pode ser essa em uma análise, a de simplesmente devolver em terra o analisando. O negócio se complica, porque é necessário que o analista faça o caminho que o analisando quer. Como saber o caminho?! Não tenho espaço aqui, mas leia o meu outro texto (Padre, se deixe aprender a rezar missa) que pode ser útil.
Mas nem de longe este é o melhor exemplo. Como eu disse antes, você já se perguntou o que faz aquela pessoa no meio do mar? Minha amiga Thaís Machado, citando a banda Terminal Guadalupe, diz que a vontade de fugir é sempre medo de ficar. O site dela está nos links indicados (texto Congresso internacional do medo). E se o medo de estar em continente for grande demais e ela (a pessoa) resolve fugir, para onde vai? Para o oceano. Mas isto importa pouco para nós por agora. Vamos nos ater ao exemplo. Eu ia dizendo que o anterior não é o melhor exemplo.
Isto por que o mais provavel é que o analisando não pegue a bóia. Por qualquer razão. Mas se lembre que ele tem uma razão em especial: o medo de voltar. De qualquer maneira, mais uma vez a simples vontade de ajudar e o instrumento do analista não serviram. É o fim?
Ainda não. Agora imagine que não só o analista não pega a bóia como nada para mais longe, tamanho o medo, que neste caso se torna evidente. Agora é o fim?! Não! De novo, o salva-vidas tem lá suas maneiras de resolver. Entre elas, ele simplesmente dá um soco naquele que está se afogando e o deixa meio grogue. Assim pode puxá-lo para terra firme. De novo, o método do salva-vidas não nos interessa muito, pois seria questão de tempo até o analisando querer fugir de novo, uma vez que o medo ainda persiste. E para onde fugirá? Não seria melhor tratá-lo em terra?
Não é uma opção completamente segura, pois ele estaria ali por vontade do analista e não por vontade própria. E ainda, assim como fazem os prisioneiros que tanto clamam por liberdade, nem pestanejam em mentir para se verem livres. O que fazer se o método usado pelo salva-vidas não funciona?
O jeito mesmo parece ser ir tentando jogar a bóia e ir atrás do analisando, mesmo que ele fuja. O mais impaciente ainda diria Oras, quer se afogar, se afogue. E iria embora. Mas não fiz psicologia justamente para ajudar outros? Mesmo que a ajuda não me sirva bem como instrumento, não pretendo desistir apenas por ter quebrado a cara. Então, nadamos atrás dos pacientes o quanto podemos e vamos nós e nossas bóias atrás dele até conseguirmos, pacientemente, que ele se canse ou segure a bóia. Daí voltamos ao primeiro exemplo. É preciso esperar que retorne o fôlego e nos diga aonde ir. Não adianta vencer pelo cansaço e levá-lo aonde não quer ir. Teremos que, novamente, pedir auxílio ao texto Padre, se deixe aprender a rezar missa e sugerir apenas que esperemos as propostas de caminhos dadas pelo analisando. Uma técnica bastante diferente da do salva-vidas.
A bóia, no fim das contas, importa menos para o analisando do que para o analista. Este último sim usará a bóia. Por isto, quanto mais conhecer a respeito dela, melhor poderá se apoiar sobre ela. Saber sobre as próprias braçadas também parece importante. O auto conhecimento e a vontade de ajudar, entre outras coisas, movem o analista para o mar. No entanto, nenhuma das duas coisas parece muito útil ao analisando, que parece precisar mais de vontade de aventurar em si mesmo e vencer seus medos do que dos instrumentos do analista.
Se dermos todas estas sortes, a análise acontecerá. Trabalho difícil, não?
... é um livro do Chuck Palahniuk traduzido para o português há não muito tempo. Palahniuk ficou famoso por seu livro Clube da luta, que mais tarde virou um filme interessante com o Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham. Um comentário sobre este filme posso fazer em outra hora, mas fica recomendado tanto o filme quanto os dois livros.
É um livro que conta como a personagem principal vive sua vida engasgando de restaurante em restaurante até quase morrer somente para ser salvo e, conseqüentemente, arrecadar fundos para si mesmo. Vale a pena ler para conferir como isto se desenrola. O livro esbarra em inúmeros assuntos na maneira Palahniuk de narrar. Entre eles, vou me ater em um específico.
Para isto, vou contar o final do livro. Mas fique tranqüilo, porque o que vou contar não estraga a leitura. Isto porque não revelarei a história, mas sim o sentido que se pode tirar dela. Com sorte, a vontade de ler o livro poderá aumentar. A história acaba e o autor diz que vivemos repetindo o passado.
O que ele quer dizer? Mesmo no livro, a personagem se vê frente a situações das mais diversas possíveis. Ele conta a história do menino que o levou a ser aquele homem e as histórias são bem diferentes! Como podem ser repetidas? Ainda mais em alguém tão dinâmico quanto aquela personagem, que tem várias facetas divergentes e várias histórias simultâneas, quase como se fosse uma pessoa diferente em cada situação. O que ele quer dizer?
Claro que o livro tem seu sentido peculiar, e este é um bom motivo para lê-lo. Mas como situações tão novas e diversas podem ser repetição?
Nossa, isto dá pano às mangas! O fato é que nossas repetições fogem ao nosso controle. Para aqueles que dizem odiar rotina ou que sempre pegam caminhos diferentes para voltar para casa, só tenho a lamentar a falácia ao qual se submetem ao fazer da Não repetição a mais pura repetição. Talvez por aqui eu possa responder à pergunta sobre o livro... as mais variadas situações giram em torno do mesmo tema sem percebermos. A chave para a questão é o Sem percebermos.
Não percebemos que os namoros não são A, B, C... mas A, A', A''. Ou as comidas. Ou os amigos. Ou as conversas. Ou o trabalho. Ou as viagens. Ou a negação de tudo isto. Assim como a personagem do livro não percebeu que repetia sua vida a cada capítulo diferente de sua história. Ainda bem que não percebemos!
Como assim? Sempre aprendi que repetição é um saco, que faz relacionamentos caírem em rotina e que estragam amizades ou qualquer outra coisa. Não seria melhor perceber as repetições e evitá-las? Pessoalmente, discordo que repetições sejam ruins a este ponto. São as repetições que nos fazem ser bons profissionais, por exemplo. Você iria em um médico que nunca repetiu por vários anos Ser médico? Ou contrataria um estilista que nunca assistiu a um desfile? Ou um administrador que não tenha feito contas e pensado em empresas por pelo menos alguns anos?
Em psicanálise, procuramos justamente por tudo aquilo que não percebemos mas que faz parte de nós. No entanto, não vivemos em constante análise e por isto não é preocupante que não percebamos as repetições. Aliás, contém certo grau de relaxamento quando nos permitimos repetir e usar a repetição criativamente. Como quando nos tornamos médicos, lemos, escrevemos, viramos estilistas ou administradores.
Mais uma vez, culpamos quem não devia por ter feito o que não fez. A repetição não parece ser nossa inimiga. Chuck diria, desta vez em outro livro entitulado Cantiga de ninar, que Quanto mais as coisas mudam, mais continuam na mesma. Concordo. Não podemos evitá-la. E algumas vezes (maioria delas) clamamos por mais do mesmo.
Qualquer um que já tenha se incumbido por pelo menos alguns dias da árdua tarefa de cuidar de um bebê em seus primeiros estágios de vida sabe o quão desgastante isto pode ser. É um ser que não fala com nossos sinais verbais, não consegue se locomover, mal conhece a própria mão e pé, não tem movimentos coordenados, é pequeno e tantas outras características próprias de sua idade. O que torna esta tarefa tão complicada?
Winnicott destaca um motivo, um bom motivo, para a tarefa ser difícil. O ódio. Em seu texto O ódio na contratransferência, recomendado para mães, pais e analistas, ele propõe que a mãe sente ódio de seu bebê. Mas estamos tão acostumados a pensar que as mães amam seus bebês, o que pode estar errado neste texto? Talvez no texto dele não tenha nada de errado, mas sim na nossa concepção de amor. Sobre amor, deixo para dedicar outros artigos. Por agora vou falar sobre uma possível inferência que se pode fazer deste texto e que pode se tornar outro motivo para que a tarefa seja complicada. Estou falando do sentimento de impotência na relação com um bebê.
Oras, em observação superficial se poderia argumentar que nos sentimos tão impotentes quanto o bebê frente suas dores e frente a situações que ainda não sabe lidar. O choro dele é sentido por nós com dor e nos coloca frente a pergunta O que fazer?. Parece que bebê e cuidador acabam se sentindo de maneira similar. No entanto, por agora não consigo provas suficientes para demonstrar se isto ocorre, como e porquê. Portanto gostaria de inclinar a conversa para o sentimento de impotência do cuidador. E mais, gostaria de pensar sobre a possibilidade de relacionar este sentimento à uma situação de análise.
Ensinar padre a rezar missa é um provérbio que aparece nas nossas falas quando alguém que acreditamos ser leigo em determinado assunto dá sua opinião sobre o mesmo assunto. Não é intenção discutir se os preceitos e lógicas usadas pelo leigos são corretos ou não, mas sim observar alguns sentidos presentes na frase e observar sua relação com o sentimento de impotência.
A frase supõe que o padre, por ser seu ofício, sabe melhor do que qualquer não-padre, portanto leigo neste assunto, como realizar seu ofício. Por ser este o sentido da frase, também existe visível proteção sobre o sentimento de impotência quanto à execução de seu trabalho. Como assim? Simples. O leigo, esteja certo ou errado em sua premissa, é ignorado pois o portador das técnicas e conhecimento é o padre. Supondo que o leigo esteja certo em um argumento e este provérbio seja usado, o padre, que supõe saber rezar a missa, pode contradizer o primeiro dizendo que é ele quem sabe rezar a missa e fim de discussão.
Agora, imagine uma missa em que um dos fiéis se levanta com uma arma na mão e ameaça o padre de morte. Como rezar a missa nestas circunstâncias usando as mesmas técnicas anteriores? Aparentemente impossível, não? Então, como poderia o padre saber rezar a missa sendo a missa diferente a cada dia, impondo novas situações e problemas que não se tinha pensado anteriormente?
Como este padre vai sair desta situação eu não sei. Mas o certo é que quando se julga que se sabe, ainda não foi experimentado algo novo, diferente. Supondo que cada contato com outro ser humano seja diferente do anterior (pelo menos fisicamente há que se assumir que são diferentes), como podemos imaginar saber como será o próximo contato? Só podemos imaginar saber para tapar a pequena falha de não sabermos.
O mesmo me parece operar com os bebês quanto ao sentimento de impotência. E supor que sabemos rezar a missa do bebê a todo o momento usando as mesmas técnicas anteriores pode desembocar em situações desastrosas. O padre pode, naquela situação, deixar a missa de lado e resolver a questão de outra maneira (talvez mais apropriada). Mas imagine que aquele padre começasse a rezar uma missa para o portador da arma. Pouco provavelmente sobreviveria, a menos que rezasse a missa correta. Como saber qual a missa correta? Agora, imagine um bebê quieto que sem motivo aparente muda de comportamento e começa a chorar desesperadamente sem parar. Como saber qual a missa correta? Imagine, desta vez, uma situação de análise em que o analista se depara com algo de inesperado em seu paciente e que ele próprio nunca havia se deparado com nada similar antes. Como saber qual a missa correta?
O fato é que não sabemos. Quem sabe qual a melhor missa é sempre o analisando, o bebê ou o portador da arma. Somos colocados frente aos nossos mais profundos sentimentos de impotência que são sempre difíceis de lidar. A maneira menos interessante de resolver estes impasses é recorrer ao velho provérbio e ignorar o outro. Parece que o melhor é deixar com que os três nos ensinem a rezar a missa, mesmo que eles nos tenham delegado o papel de padre. Caso se veja em situação de impotência e seja colocado em papel de padre, talvez o melhor a fazer seja pensar no título deste artigo.
P.S.: Texto dedicado às minhas irmãs. Ambas estão empenhadas na dura missão de ser mãe.
Acordo. Olho para a pasta de dentes e me lembro da propaganda com moças sorridentes. O espelho me diz o contrário. Alguém diz Bom dia. Muito embora eu só consiga responder ...Dia. O leite é o da propaganda com crianças brincando. O achocolatado é o de crianças super-heroínas. O carro é daquela propaganda em que tudo fica lindo quando se entra nele. Em locais de trabalho existem aquelas placas ensinando caminhos para a felicidade. O orkut me diz que serei extremamente bem-sucedido nos négocios hoje. As conversas levam sempre ao mesmo destino. Seja feliz!
Pior ainda quando sou forçado a dizer minha profissão. Quando digo que sou psicólogo ganho uma demonstração gratuita de moralismo e felicidade excessiva. Mesmo quando ganho o contrário, uma pessoa que reclama e se diz sofrer demais, o final é inevitavelmente o mesmo. O importante é ser feliz.
Aproveito que estou escrevendo um projeto do que espero se tornar um livro sobre o assunto para comentar o tema. No final, deixo uma palhinha dele. Mas é que a felicidade se tornou epidêmica. A luta cotidiana pelo pão nosso de cada dia acabou e deu lugar à felicidade nossa de cada dia. Há anos! E a culpa, muito embora possa ter ficado esta impressão pela maneira que comecei o texto, não é da televisão. Aproveito para desfazer o engano. Pasmem: a programação televisiva é mantida por outros seres humanos!!! O que esperar dela, além de ser veiculadora daquilo que é o próprio ser humano em dado momento histórico? Pois bem, não a culpe pela nossa incapacidade de ser feliz.
O que pode estar acontecendo, então? Não sei ao certo de onde isto veio nem para onde isto vai. Mas conheço um texto que pode ajudar. Calligaris escreveu em 28/01/2007, em seu texto "Você quer mesmo ser feliz?", que a felicidade não pode ser satisfeita. Difícil de entender? Nem tanto. Defina felicidade.
...
Aí está o ponto. Qualquer definição que se dê é baseada em uma imagem que não necessariamente condiz com a realidade. E mesmo quando se torna realidade, não é incomum que se ouça Não era bem aquilo que eu esperava. Mesmo que seja exatamente como o esperado, é momentâneo. Ainda com o Calligaris, a felicidade, pelo menos na modernidade, se sustenta pela inveja. Se sustenta pelos sonhos que foram realizados (por outros). Queremos jogar bola como o Pelé, ganhar dinheiro como o Silvio Santos, ter uma casa como a do Tom Cruise, as namoradas do Charlie em "Two and a half men" e ainda esperamos que isto caia do céu, o que nos tornaria deuses.
E então, o que fazer? Nada. Como nada? Então, de nada adiantou se falar a respeito? Espero que possa adiantar a partir de agora. O que quero dizer com Nada é que me parece impossível que paremos de pensar no futuro, idealizá-lo, construí-lo, fazer acontecer ou não acontecer. Também parece pouco proveitoso que culpemos nossas crenças no que será o futuro por todas as nossas desgraças. Isto porque o futuro, exatamente pela razão de ser ele o que sonhamos como um lugar melhor, faz com que modifiquemos o presente num sentido talvez melhor. De nada adianta deixarmos de ser invejosos.
Oras, se não adianta deixarmos de ser invejosos e não adianta nem tentar ser feliz porque felicidade é inalcançável, o que fazer?
Delicie-se para responder à sua maneira. Digo qual é a minha. Deixei este papo de felicidade de lado. James Barrie, quando escreveu Peter Pan, disse que a fada, por ser de tamanho pequeno, só tem capacidade para ter um sentimento por vez. Talvez ela seja mais sortuda que nós de conseguir isto, mas aprendi com as fadas (viu como é possível?) que a clareza sobre aquilo que se sente pode ser interessante. Não estou falando de ceder a impulsos, gritar com namorado quanto estiver com raiva, gargalhar em shopping lotado que nem criança porque ficou feliz, se derramar em lágrimas 24h por dia porque aquele safado te trocou por outra. Não que não possa acontecer, aliás recomendo todos estes atos pelo menos uma vez na vida. O que quero dizer é: ter claro o que se sente e deixar que aconteçam os sentimentos pode fazer parar para pensar sobre eles. E qualquer coisa que faça pensar também exercita a criatividade. Assim, você chora 24h na primeira vez. Mas na segunda, você chora 20h e escreve poemas 4h. Na terceira, você chora 18h, escreve 4h e até consegue dormir por 2h. Claro que nunca deixaremos de chorar. Mas também nunca deixaremos de nos alegrar com uma criança que nos diz um sorridente oi nas ruas em um péssimo dia chuvoso.
E a felicidade? Bom... ela virá. Mas com clareza: será bastante temporária. A tristeza também é parte da alma humana. O ódio, a inveja e o egoismo. Todos podem ser usados a favor, quando usados com criatividade. Isto é não obedecer ao ditado Seja feliz. Ainda com Calligaris, não tenha um feliz ano novo... tenha um ano interessante.
A palhinha do livro posto em outro artigo. Este já ficou demasiado grande. Quase triste?