Tenho notado a freqüência com que se associa inteligência com capacidade de apertar botões. Um aqui outro acolá repetem frases como Meu filho é muito mais inteligente do que eu, já sabe mexer no controle remoto da televisão e tem apenas 3 anos. Outros dizem que os filhos já sabem, aos 5, usar o computador. Freqüentemente também, os pais se perguntam o que este menino, ou menina, fica fazendo até tão tarde na internet que eles não têm domínio algum.
Não vivi a esta outra época, mas também com grande freqüência ouço que as revistas em quadrinhos, quando de seus surgimentos, teriam o mesmo poder destruidor da humanidade que tem hoje a inter-rede. A geração anterior a esta, que prega que a internet destruirá o mundo, leu quadrinhos. Muitos quadrinhos. E seus pais se perguntavam e ficavam em dúvida se eles, os quadrinhos, não destruiriam seus filhos e, por conseguinte, o mundo.
Claro que não me isento de ser participante ativo deste que já é meio de comunicação importante entre pessoas de todas as idades ao redor do mundo. Mas é que me soa antiqüado dizer que a internet é ou será responsável pela desgraça da humanidade. Digo isto porque tenho notado o quão importante têm sido as visitas neste blog de pessoas buscando ajuda para si ou conhecidos. No entanto, isto tem me preocupado. Porque pouco tenho escrito aqui que acredito que possa ser uma luz no fim do túnel. Ou que possa indicar caminhos. Ou que algo de novo possa ser enxergado. Por enquanto, ainda não é o que pretendo escrever. Explico.
Outro dia, em conversa de bar, alguém que tive pouca oportunidade de conhecer melhor me pergunta minhas características pessoais. Dei-lhe então toda a minha sinceridade em responder tanto coisas que são socialmente reconhecidas como boas quanto como ruins. E nem me atentei ao fato de tê-lo feito. Mas acontece que os olhos, do outro lado da mesa, se esbugalharam e ouvi Nossa, você deve sofrer um bocado. Resposta simples em forma de pergunta, E você não.
Ora, apesar de meu cansaço em ter que discutir este tipo de assunto e finalizar com uma pergunta que simplesmente evita delongas, não sei se não tive, por outro lado, certa razão. É que não conheço ser humano que não sofra.
De fato, o assunto não pôde prosseguir. Mas em verdade, percebi nitidamente que algo de desconforto e ao mesmo tempo conforto ocorrera do outro lado da mesa. Reconhecer que eu sofro e que este outro também sofre foi ao mesmo tempo espantoso e confortante. Não consigo provar, em linhas de blog, as sensações que pude observar, mas que ouve certo relaxamento após o clima de tensão, isto houve. Por que? Respondo agora, explico depois. Acredito, veja que é apenas uma suposição, que isto fez esta pessoa reconhecer que, apesar de sofrermos ambos, podemos nos recuperar do mesmo sofrimento.
Winnicott me vem em mente. E aproveito o seu curto, mas certeiro A função materna primária com excelente tradução (2000) no livro Da pediatria à psicanálise. É que ele descreve de maneira que poucos conseguiram fazer o que acontece com a mãe logo após o nascimento de seu bebê. Aliás, este autor fora durante sua vida exímio observador da relação de mães com seus filhos. E, com provas simples, ele conta como a mãe faz seu percurso a partir da anormalidade de volta para a normalidade logo após o nascimento do filho. Estranho?
Faço um pedido. Quando observar um recém nascido, não apenas observe aquele corpo em si, mas note com que facilidade a mãe atribui àquele bebê sensações que supõe pertencer a ele, sem saber se em verdade é isto que ocorre. Assim, ela diz que ele tem fome. Ou fez cocô. Ou xixi. Ou está com dor de barriga. Mas ela não sente o mesmo que ele. Quero dizer que, em certo grau, ela sente em seu lugar, como se fosse dele a vontade de que ele fosse alimentado. Mas é pouco provavel que um bebê saiba, nos primeiros dias, diferenciar uma dor qualquer de uma dor no estômago sendo que ainda nem reconhece sua mão como parte do seu corpo. Só que a prova mais convincente de que a mãe não está normal é que o cocô do bebê não lhe cheira mal. Pare do lado do bebê recém nascido e peça para trocar-lhe as fraldas. Mesmo que seja rápido, não nos passa a nós, que não somos mães naquele momento, despercebido o fato de que aquele produto tem um cheiro. Para a mãe passa.
Mas, no texto, o que me chama a atenção é que, depois de certa discução teórica, ele consegue afirmar que o bebê vai se constituindo a partir de se recuperar das próprias reações que tem ao ambiente. Cunfuso. Dito de outra forma, o bebê passa a adquirir segurança quando percebe que, mesmo que o estômago lhe doa e que isto pareça o fim de sua própria existência, ele pode se recuperar após algo acontecer. Ele reage às dores e, com sorte, algo lhe tranqüiliza. Isto o faz reconhecer que seus momentos mais frágeis e de sensação de desintegração de si mesmo são recuperáveis. Claro, isto tem ainda outros desdobramentos.
Só que é este pensamento que me importa agora. Para todos estes que procuram este blog atrás de respostas, que nunca lhes dei, posso dizer que pouco provavelmente lhes darei agora. Mas que, por outro lado, se ainda lhes resta esta capacidade de acreditar que é possível se recuperar da sensação inevitável de estar se despedaçando, esta mesma capacidade pode movê-lo a criar novas possibilidades de existência. E quero crer que buscar ajuda na inter-rede é uma das manifestações de que esta capacidade ainda existe. Este texto é, portanto, dedicado a todo aquele que sofre.
Neste sentido, nossa querida internet, bem como o ombro amigo, podem exercer funções bastante divergentes daquela intenção destruidora. Não só isto, a internet também vem cooperar com o que antes só era possível viver enquanto sensação de pura solidão. É que a internet abre a possibilidade de sempre encontrarmos alguém que, mesmo a meio globo de distância, pensa como nós. Sempre.
Ah! Durante a faculdade de psicologia, pelo menos nos anos que cursei, tive que condicionar um rato a apertar uma espécie de botão para tomar água. Com facilidade de pouco mais de uma hora de prática, o rato, que tinha pouco mais de um mês de vida, pôde apertar o botão para saciar a sede. Em menos de três meses depois disto, pôde fazer longas cadeias de rituais até chegar a apertar a barrinha. Aliás, sobre a inteligência de nossos bebês, tenho uma séria pergunta que me faço quando ouço algo relacionado. Por que acreditamos que inteligência é a capacidade de apertar botões e não delegamos tamanha importância a esta mesma capacidade em ratos?
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