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domingo, 21 de dezembro de 2008

Menti pra você, mas foi sem querer

"Menti pra você
Mas foi sem querer
Me perdoe, amor
Mas não pude conter"


Pato Fu (composição: Rubinho Troll)



De um lado está o coro da maior parte da população que condena a mentira como se fosse um dos sete pecados capitais. Sendo assim, alguns se julgam capazes de avaliar a situação e verificam se seria possível perdoar ou não uma mentira. Na maior parte das vezes, o perdão se dá quando o culpado não sabia, ou alegava não saber, qual era o conteúdo verdadeiro da história que ele contava. Ainda dentro deste enredo, um discurso se mostra com certa força. O de que quem mente está, no fundo, mentindo para si mesmo.


Do outro lado, parece pairar mais um vício interpretativo entre os psicólogos que não se cansam de repetir que a mentira é a verdade daquela pessoa. Portanto, aquela história contada por alguém que mente faria parte do enredo fantástico que aquela pessoa é capaz de fazer.


Direto ao assunto: todos estes discursos parecem versar sobre a culpa.


De um lado, a mentira é condenatória e nitidamente confundida com criminalidade e falta de caráter. Neste caso, a culpa é de quem mente, claro. Ficou deste mesmo lado o discurso sobre Mentir para si mesmo porque ele parece ser capaz de promover o perdão da culpa. Soa como Já que mente, mente a si próprio e desta maneira sou capaz de perdoar.


A psicologia, que não vem (ou não deveria vir) de outro lugar que não as próprias pessoas, parece fazer força no sentido oposto a este. Para isto, libera de antemão as culpas do sujeito. Assim, a mentira é perdoada a priori porque a psicologia acredita que o sujeito não mentiu, mas disse sua própria verdade ou a verdade sobre si mesmo. Este pensamento é essencial para apazigüar a culpa de pacientes que chegam diariamente em clínicas de psicologia se queixando de que Não consigo parar de mentir.


No entanto, ele não é completo. Acredito que a mentira aconteça com todos e por todos. Por duas razões. Uma delas é que nem sempre podemos ter certeza de que o que falamos é verdade. Quer ver? Na idade média dizia-se que o sol girava em torno da Terra. Em tempos modernos esta idéia é absurda. Do ponto de vista da realidade, pode-se dizer que mentiram. No entanto, é possível dizer que não foram sinceros em defender o que acreditavam?


A segunda razão chama mais a atenção. É que na mentira também existe prazer. Não é incomum ouvir pessoas dizerem que preferem não saber da traição do marido ou da esposa a sofrer com a verdade. Existem multidões de pessoas que votam no "rouba mas faz". Também não é incomum ouvir que Uma mentirinha só não faz mal, ainda mais se usada para o bem. Por quê?


Não sei bem, mas constantemente reparo nas mentiras. E como elas são freqüentes. Aproveito a época natalina para dar um bom exemplo. Você acredita em Papai Noel?


Para as crianças a resposta deve ser sempre Sim. Outras mentiras aparecem também para as crianças de maneira demasiado freqüente quanto à sexualidade. Cegonha? Sementinha? O que os pais estavam fazendo no quarto, mesmo?


Não condeno a mágica do natal e do Papai Noel. Aliás, sou fã de histórias mentirosas que os adultos chamam de ficção. Mas não soa estranho que os pais reclamem que suas crianças mentem sendo que eles os criaram sob mentiras? Mais uma vez, não condeno a mágica do Papai Noel ou do Peter Pan ou da fada Sininho. Só que acho que os adultos poderiam lidar de forma diferente com as mentiras infantis e fazer delas algo mágico, tal qual fazem com o Papai Noel.


Será que, com isto, a idéia não deveria ser a mesma que fizeram os homens da idade média sem o saber: tornar uma mentira autêntica por meio da sinceridade?


Não fiz a mesma via de pensamento que fez o Calligaris, até porque não acho que os americanos sejam tão comprometidos com a verdade quanto quer o autor. Mas posso dizer que concordo com o título e o último parágrafo de seu texto No ano novo, prometo parecer sincero e autêntico.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Em terra de cego, quem tem olho...

... sofre. E não é pouco. Depois de assistir Ensaio sobre a cegueira, de Meirelles, ouvi alguns comentários importantes que não poderiam me escapar aos ouvidos.


Entre as críticas estão que É só um filme com um monte de cegos, Não acontece nada ou É só isso, outro pergunta. É. É só isso. É somente a história de como seria a humanidade se ficássemos cegos. Nenhum espanto mesmo. No fundo, conhecemos bem o nosso lado animalesco, bem caracterizado pelo filme. E também não me parece espantoso que já vivamos em sociedade similar. Concordo com o outro, é só isso. Só um filme sobre um monte de cegos.


Os comentários mais otimistas, que tentam compreender por outro ângulo o filme, diziam Puxa, eles se organizavam em sociedades como a nossa, Fica clara a relação de poder entre os homens, Estou cego. Mesmo nestes comentários, ainda é só isto... uma história óbvia sobre nós mesmos. Isto é uma crítica negativa?


Não. O filme é excelente e muito fiel ao livro. Fiquei com a sensação de estar relendo enquanto assistia. E arrepiei de ver São Paulo vazia, com lixo para todos os lados e pessoas se comportando como animais (e um animal se comportando como pessoa). Parece que fui o único que me surpreendi com a história entre meus amigos, mas eles têm razão. É só uma história sobre nós mesmos, contada e assistida de ângulos diferentes. E por isto ele é tão bom.


Em outra oportunidade, falei sobre a complexa maldade do Curinga. E um outro comentário foi sobre a complexidade sobre o bem e o mal em torno da personagem que enxerga, que tem olho. Aqui está a única coisa que preciso discordar, que se esperava dela que fosse uma heroína, uma pessoa certa, a única com possibilidade de manter em si leis morais.


Como eu disse no começo, em terra de cegos quem tem olho sofre. Não pretendo contar o filme, mas posso tentar explicar com algumas cenas. O ditado popular, Em terra de cego quem tem olho é rei, tem um defeito. Como saber se aquele que diz que enxerga, enxerga? Com efeito, o surgimento de alguém que diz que vê em meio a outros cegos, se não fosse desastroso por conta de causarem a destruição daquele dotado de visão (conforme Platão acreditava e Saramago também em A caverna), seria desastroso por conta de, a partir disto, todos poderem simplesmente dizer que enxergam. Aliás, freqüentemente ouço pessoas repetirem a pergunta Será que ele não enxerga isto que é tão claro para mim. Esta é uma das frases que parte do pressuposto que nós mesmos enxergamos. E certamente faríamos o mesmo caso fôssemos cegos. Como quando na cena do outro que disse estar diante de um negro por reconhecer seu tom de voz. Escuso dizer que o lado mais bestialmente excludente do ser humano esteve presente nesta fala. Mas ela também nos diz que ele sim enxergava, ele sim saberia distinguir o bom do ruim pelo tom de voz, quase enxergando sua cor. Quantas vezes fazemos isto por dia?


A decisão de não contar a quase ninguém sobre sua lucidez, por assim dizer, torna a única personagem que enxerga uma heroína sem igual na literatura. É aqui que entram os críticos que dizem que ela era uma heroína que ia contra princípios éticos. Que fazia também o mal. E também aqui que eu rebato a crítica e pergunto Qual ética? Qual mal? Naquela terra de cegos? Duvido que não faríamos o mesmo.


Freud, em Mal estar na civilização, nos lembra que não é possível a nós nos colocarmos em lugar de outrem, pois isto implicaria levar conosco toda a nossa experiência e subjetividade para tal lugar. O que implica em enxergar conforme si mesmo, e não conforme outrem. Acredito que tenhamos, neste caso, exemplo nítido de tal fenômeno. É que levamos a nossa moral, nossa ética para o corpo daquela que enxergava em meio a cegos. Só que nos esquecemos que no filme somente ela enxerga. Por isto, esperamos que ela aja como nós e soa mal, soa antiético que ela faça o que faz durante o filme. Por exemplo, correr de cegos esfomeados com sacos de comida em mãos.


No entanto, todo aquele que percebe algo de diferente, algo de novo, algo que somente ele diz estar enxergando também se queixa de sua situação de impotência. Não é raro, logo depois daquelas frases típicas de Será que ele não vê o que está fazendo, ouvirmos Mas ele é assim, não temos o que fazer. E sofremos frente a nossa impotência de querer fazer algo, mas não poder fazer. Os estadunidenses se enganam. Querer não é poder.


Por sorte, Drummond nos lembra que a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Nossa heroína sente dor. Mas por fim escolhe não sofrer. Digam-me... o que de antiético ou imoral existe em matar aquele que se dispõe em matá-lo de antemão, apenas por seu tom de voz? A lei brasileira reconhece este ato como, pelo menos, plausível de não ser entendido como crime. O que de imoral existe em querer comer após dias de fome e sendo tratado de maneira excludente por esta mesma sociedade que agora está cega? Discutir ética é sempre demasiado complexo. Mas discutir ética em terra (quase) sem ela é insano. O Curinga sim, revelou tal complexidade de maneira que o bem e mal são colocados a prova em todos os momentos. Mas a nossa heroína. Ela agiu como lhe obrigou a sobrevivência do corpo. E enxergar teve um preço caro. Teria que suportar que a sobrevivência transcende à razão. Teria que suportar ver a própria onipotência destruída frente ao caos.


Suportou como pôde, acredito eu. E isto não tem implicações éticas em terra sem ética. Calligaris aposta em mais uma coisa. Em caos, quando temos que recomeçar do zero, as mulheres, via de regra, se saem melhor.


 


P.S. em 02/11: http://caderno.josesaramago.org/2008/10/28/fernando-meirelles-cª/


"(...) foi a apresentação deste Ensaio sobre a cegueira em imagens e sons."


José Saramago

sábado, 2 de agosto de 2008

Temos o direito de reclamar?

O artigo anterior contou algumas situações que fazem pensar O que, afinal, esperamos dos eventos da vida. Mesmo que eles não devessem ser surpreendentes por serem apenas a repetição do que sempre ocorreu, parece que estamos fadados a, pelo menos em boa parte das coisas, esperar que o mundo seja como ele não é. E nos queixamos muito disto.


Mas o mundo nos escapa ao controle. E o Leo Wroblewski, autor de um blog que acompanho e que já tem o link logo ao lado, propôs uma pergunta interessante nos comentários do artigo anterior. E se fizéssemos por merecer, fôssemos quem poderíamos supor merecedores de algo, mas não conseguíssemos alcançar o tal merecido... poderíamos reclamar? Teríamos este direito?


Em termos econômicos fica mais fácil. Se eu pago por algo que não recebo a lei garante que é possível recorrer para a devolução do que foi pago ou a exigência do objeto adquirido, seja ele material ou imaterial. Mesmo que as dificuldades para o recebimento variem em cada caso, o que acontece de mais importante para nós neste texto é que a lei garante este direito. Portanto, fica entendido que por uma negociação social, ou pelo menos uma negociação entre os votantes pela existência da lei, podemos reclamar o merecido do ponto de vista econômico. Mas é claro que não é deste merecido que estou falando.


É daquele outro merecido que também podemos encontrar com freqüência nas queixas como Eu sempre fui fiel e ele sempre foi um galinha. Ou Eu fiz desta e daquela maneira e ele me deixou. Ou Eu sou tão bom para ela, mas ela não se importa comigo. Ou Eu fiz este prato de comida com tanto gosto, vontade e dedicação e nem sequer um elogio eu recebo. Ou Sempre ajudei as pessoas, mas quando precisei ninguém me ajudou.


Pois é. Reclamamos disto diariamente. Claro que todas estas frases guardam um bom bocado daquela pergunta título do meu artigo anterior, O que você esperava?, mas existe algo mais nelas. Existe a noção de que estamos certos em nosso ponto de vista, por isto reclamamos. Mas eu nunca vi lei, que em última instância é o que regula o certo e o errado, que diz que se você for uma boa moça deverá se casar com um bom moço ou o moço deverá deixar de ser mau moço. Ou que diz que somos obrigados a elogiar o autor, por assim dizer, da obra de arte que ficou a nossa janta. Além de não ser possível regulamentar este tipo de situação por sua grande freqüência e baixa acessibilidade dos meios de controle, acredito que estas leis não existam por ainda mais um motivo. É impossível regulamentar o que desejamos. Explico.


Assim como o que acontece no mundo foge ao nosso controle, o que acontece com as nossas vontades também foge. Além disto, aproveito para relembrar mais uma vez do Calligaris. Em seu texto Liberdade para o quê?, colocado no fim deste artigo, ele diz que relacionamentos amoros têm mais a ver com encontro do que com escolha. Ainda não expliquei nada. Mas semeei o que quero dizer. Passo a explicar.


Relacionamento amoroso envolve desejo. Não só o desejo sexual ou desejo de ter vontade, mas outros tipos de desejo. Que nem desejo de chocolate, que se fosse só vontade daríamos o mesmo nome. E também por isto é que não é só questão de escolha, mas encontro. O chocolate B não serve quando desejamos o A. E só podemos desejar A porque encontramos nele algo de especial. Assim, adoramos ver nosso parceiro dormindo simplesmente porque é linda a posição que ele fica, ou amamos ver o outro bocejar porque ele fica com aquela carinha tão lindinha. Acho que Drummond é muito melhor do que eu. Agradeço à Raíssa por este oportuno artigo.


http://quiproquos.blogspot.com/2008/06/namorados.html


E por que gostamos disto? Por que temos estes desejos, não só o físico e o sexual? São perguntas que sempre que alguém se aventura a responder acaba sendo reconhecido como poeta enquanto é um verdadeiro cientista do desejo. Mas é fácil reconhecer que estes desejos vêm de onde não sabemos e apontam para coisas que tampouco sabemos porque tomaram tal direção. Mesmo os poetas concordam com isto. Assim, fica explicado que também nossas vontades fogem ao nosso controle. Regulamentar que boa moça devesse casar apenas com bom moço mata qualquer possibilidade de a moça desejar, buscar ou encontrar o moço que ela quiser ou não quiser, já que é fora de controle, seja ele bom ou mau.


E parece ser este um dos fundamentos de nossa reclamação. Além de expor algo que desejávamos e que se produz a cada vez que falamos, voltando a citar Calligaris no texto Amores silenciosos que está abaixo, ela, a reclamação, ainda mostra o descontentamento que temos frente à nossa ausência de controle sobre a realidade. Tanto a interna quanto à externa.


Coitados destes nossos pensamentos que se julgam sabedores morais das regras universais e que tentam controlar o mundo à sua maneira. Não fazem mais do que aquilo que são capazes, que é pensar. E neste caso, como não controlaram nada, pensam reclamações. Reclamam porque não têm outra opção. Reclamam porque é melhor para eles do que admitirem que o mundo não quis ser como eles queriam fosse. Portanto eles foram, os pensamentos, incapazes de mudar o mundo. Só posso dizer que reclamar fora dos limites da economia não é uma questão de direito, por isto não é regulamentado pela lei.


Quando fazemos por merecer e não temos o merecido, ou dito de outra forma Quando nos julgamos certos  merecedores e o mundo não quer o mesmo que nós... temos o direito de reclamar?


Oras, temos a falta de opção de reclamar. A reclamação, sendo resultado da frustração de nossos desejos mais íntimos, só pode guardar a mesma característica de ser extraordinariamente fora de nosso controle.


 


 


P.S.: Links


Leo Wroblewski http://leowroblewski.wordpress.com/


Raíssa* http://quiproquos.blogspot.com/


Liberdade para o quê? http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=1464


Amores Silenciosos http://contardocalligaris.blogspot.com/2008/06/amores-silenciosos.html

sábado, 28 de junho de 2008

Sobre a amizade

O artigo desta quinta, 26/06/2008, do Calligaris para a Folha de São Paulo foi uma das coisas mais bonitas que eu já li. Mesmo que eu ainda o esteja digerindo e embora eu ainda não tenha certeza se concordo plenamente com o ponto de vista dele, pelo menos foi algo que me deixou pensando muito. Certamente ele tem razão e acredito que eu não tenha concordado precisamente por estar passando por um momento que o artigo descreve tão bem e que me é estranho, até então. O link posto assim que achar o texto online. Resolvi escrever sobre uma amiga que aos poucos foi se tornando uma grande amiga e que reservo muita consideração.


O artigo lido me trouxe muitas memórias importantes sobre mim. Entre elas, me fez pensar em outros textos do mesmo autor. Um em especial fala sobre internet (não me lembro a data de publicação nem o título) e diz que ela, a internet, possibilita que compartilhemos fantasias que antes seriam impossíveis de ser compartilhadas.


Fato. Esta é uma amiga que conheci virutalmente por conta de uma viagem que fiz. Depois, começamos a conversar por compartilhar um gosto musical similar. Aos poucos, construímos outros tipos de relação, ainda virtualmente. Até nos conhecermos pessoalmente. E passamos a compartilhar conversas sobre momentos importantes que aconteceram conosco quando ainda nem nos conhecíamos e quase ao mesmo tempo.


Afora as tragédias que a internet pode trazer (será que é mesmo ela quem traz?), também tem lá suas vantagens. Mas voltemos a esta amiga novamente. Acredite se quiser, isto tudo me fez lembrar outro texto do mesmo autor. Este sim sei aonde consigo o link. Posto-o ao lado (Um (discutível) conselho para casais). É certo que não somos um casal, não no sentido de namorados. O mais importante é que pude me tornar amigo dela a ponto de, concordando com Calligaris, amar com o projeto de ser transformado pelo que ela espera de mim. Em verdade, me transfomei mesmo.


Espero que todos, algum dia, encontrem alguém assim. Que não seja necessário se subjulgar ao outro, mas que seja capaz de compartilhar bandas, gostos que antes não era possível gostar... passar a tolerar O segredo (livro), horóscopo, bebidas e até outros amigos. Cada uma destas coisas ela esperou que eu gostasse, que eu aproveitasse ou que eu fosse daquela maneira. Pude aproveitar muitas delas.


Com sorte, percebi que tenho alguns outros amigos como ela.


Agora estou ouvindo Stereophonics. Gracias, mi amiga!

domingo, 8 de junho de 2008

Cumprindo o prometido

No artigo anterior citei o Calligaris. Abaixo, deixo o link para o texto que me baseei para escrever o artigo. Deixo o link também na sessão Indico, logo ao lado. Atenção... Nos links laterais coloquei o Mateus Caliari, que é um amigo poeta, mas não é quem citei. Citei o texto que leva o título "Você quer mesmo ser feliz?" com este nome na barra lateral. Não deixe de visitar ambos.


http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=1172


E, cumprindo a promessa da palhinha do livro que estou escrevendo, posto-a abaixo.


 "


Vamos à história. Acordei embasbacado com o tanto de coisas felizes que nos rodeiam. O que importa é ser feliz. Vai, lute por ele... a felicidade é o que importa. Você deve fazer suas escolhas conforme o que é melhor para você. Amo muito tudo isso. Tudo de bom. Se você está feliz, eu também estou. Sorte de hoje: você terá paz e harmonia na sua vida amorosa. É. Esta última frase é do Orkut.


Resolvi que é por esta tal felicidade que vou começar. E talvez este livro seja sobre felicidade. Estranho? Eu sei que o primeiro capítulo não se parece com a felicidade, mas a idéia é esta. Quero escrever sobre felicidade supondo um mundo precisamente oposto ao nosso. Quero escrever sobre felicidade imaginando um mundo em que só se fale de tristeza, se venda tristeza e se compre tristeza. Imagine um mundo em que cada vez que você ouvir felicidade eles dizem tristeza. Cada vez que ler em outdoors sinta-se bem, leia sinta-se mal. Toda vez que encontrar amo, leia odeio. Sempre que pensar legal, pense chato em seu lugar. Mas não só isto. Neste mesmo mundo, sempre que pensar tristeza troque por desgraçadamente triste. Ódio troque por o mais profundo e miserável desejo de que tudo explodisse em suas próprias mãos.  Imagino o quão difícil vai ser criar um mundo assim em que ainda existam seres vivos. Em que as bombas nucleares e de hidrogênio não sejam jogadas ao mesmo tempo em lados opostos do mundo para vê-lo rachar. Não faço idéia se seria melhor jogar em lados opostos, mas que seria divertido compartilhar a desgraça com mais gente, neste mundo, seria. Divertido não, horrível! Mas como disse antes, vou escrever a mentira para ver o que de verdade existe nela.


"

Felicidade foi-se embora

Acordo. Olho para a pasta de dentes e me lembro da propaganda com moças sorridentes. O espelho me diz o contrário. Alguém diz Bom dia. Muito embora eu só consiga responder ...Dia. O leite é o da propaganda com crianças brincando. O achocolatado é o de crianças super-heroínas. O carro é daquela propaganda em que tudo fica lindo quando se entra nele. Em locais de trabalho existem aquelas placas ensinando caminhos para a felicidade. O orkut me diz que serei extremamente bem-sucedido nos négocios hoje. As conversas levam sempre ao mesmo destino. Seja feliz!


Pior ainda quando sou forçado a dizer minha profissão. Quando digo que sou psicólogo ganho uma demonstração gratuita de moralismo e felicidade excessiva. Mesmo quando ganho o contrário, uma pessoa que reclama e se diz sofrer demais, o final é inevitavelmente o mesmo. O importante é ser feliz.


Aproveito que estou escrevendo um projeto do que espero se tornar um livro sobre o assunto para comentar o tema. No final, deixo uma palhinha dele. Mas é que a felicidade se tornou epidêmica. A luta cotidiana pelo pão nosso de cada dia acabou e deu lugar à felicidade nossa de cada dia. Há anos! E a culpa, muito embora possa ter ficado esta impressão pela maneira que comecei o texto, não é da televisão. Aproveito para desfazer o engano. Pasmem: a programação televisiva é mantida por outros seres humanos!!! O que esperar dela, além de ser veiculadora daquilo que é o próprio ser humano em dado momento histórico? Pois bem, não a culpe pela nossa incapacidade de ser feliz.


O que pode estar acontecendo, então? Não sei ao certo de onde isto veio nem para onde isto vai. Mas conheço um texto que pode ajudar. Calligaris escreveu em 28/01/2007, em seu texto "Você quer mesmo ser feliz?", que a felicidade não pode ser satisfeita. Difícil de entender? Nem tanto. Defina felicidade.


...


Aí está o ponto. Qualquer definição que se dê é baseada em uma imagem que não necessariamente condiz com a realidade. E mesmo quando se torna realidade, não é incomum que se ouça Não era bem aquilo que eu esperava. Mesmo que seja exatamente como o esperado, é momentâneo. Ainda com o Calligaris, a felicidade, pelo menos na modernidade, se sustenta pela inveja. Se sustenta pelos sonhos que foram realizados (por outros). Queremos jogar bola como o Pelé, ganhar dinheiro como o Silvio Santos, ter uma casa como a do Tom Cruise, as namoradas do Charlie em "Two and a half men" e ainda esperamos que isto caia do céu, o que nos tornaria deuses.


E então, o que fazer? Nada. Como nada? Então, de nada adiantou se falar a respeito? Espero que possa adiantar a partir de agora. O que quero dizer com Nada é que me parece impossível que paremos de pensar no futuro, idealizá-lo, construí-lo, fazer acontecer ou não acontecer. Também parece pouco proveitoso que culpemos nossas crenças no que será o futuro por todas as nossas desgraças. Isto porque o futuro, exatamente pela razão de ser ele o que sonhamos como um lugar melhor, faz com que modifiquemos o presente num sentido talvez melhor. De nada adianta deixarmos de ser invejosos.


Oras, se não adianta deixarmos de ser invejosos e não adianta nem tentar ser feliz porque felicidade é inalcançável, o que fazer?


Delicie-se para responder à sua maneira. Digo qual é a minha. Deixei este papo de felicidade de lado. James Barrie, quando escreveu Peter Pan, disse que a fada, por ser de tamanho pequeno, só tem capacidade para ter um sentimento por vez. Talvez ela seja mais sortuda que nós de conseguir isto, mas aprendi com as fadas (viu como é possível?) que a clareza sobre aquilo que se sente pode ser interessante. Não estou falando de ceder a impulsos, gritar com namorado quanto estiver com raiva, gargalhar em shopping lotado que nem criança porque ficou feliz, se derramar em lágrimas 24h por dia porque aquele safado te trocou por outra. Não que não possa acontecer, aliás recomendo todos estes atos pelo menos uma vez na vida. O que quero dizer é: ter claro o que se sente e deixar que aconteçam os sentimentos pode fazer parar para pensar sobre eles. E qualquer coisa que faça pensar também exercita a criatividade. Assim, você chora 24h na primeira vez. Mas na segunda, você chora 20h e escreve poemas 4h. Na terceira, você chora 18h, escreve 4h e até consegue dormir por 2h. Claro que nunca deixaremos de chorar. Mas também nunca deixaremos de nos alegrar com uma criança que nos diz um sorridente oi nas ruas em um péssimo dia chuvoso.


E a felicidade? Bom... ela virá. Mas com clareza: será bastante temporária. A tristeza também é parte da alma humana. O ódio, a inveja e o egoismo. Todos podem ser usados a favor, quando usados com criatividade. Isto é não obedecer ao ditado Seja feliz. Ainda com Calligaris, não tenha um feliz ano novo... tenha um ano interessante.


A palhinha do livro posto em outro artigo. Este já ficou demasiado grande. Quase triste?