"Menti pra você
Mas foi sem querer
Me perdoe, amor
Mas não pude conter"
Pato Fu (composição: Rubinho Troll)
De um lado está o coro da maior parte da população que condena a mentira como se fosse um dos sete pecados capitais. Sendo assim, alguns se julgam capazes de avaliar a situação e verificam se seria possível perdoar ou não uma mentira. Na maior parte das vezes, o perdão se dá quando o culpado não sabia, ou alegava não saber, qual era o conteúdo verdadeiro da história que ele contava. Ainda dentro deste enredo, um discurso se mostra com certa força. O de que quem mente está, no fundo, mentindo para si mesmo.
Do outro lado, parece pairar mais um vício interpretativo entre os psicólogos que não se cansam de repetir que a mentira é a verdade daquela pessoa. Portanto, aquela história contada por alguém que mente faria parte do enredo fantástico que aquela pessoa é capaz de fazer.
Direto ao assunto: todos estes discursos parecem versar sobre a culpa.
De um lado, a mentira é condenatória e nitidamente confundida com criminalidade e falta de caráter. Neste caso, a culpa é de quem mente, claro. Ficou deste mesmo lado o discurso sobre Mentir para si mesmo porque ele parece ser capaz de promover o perdão da culpa. Soa como Já que mente, mente a si próprio e desta maneira sou capaz de perdoar.
A psicologia, que não vem (ou não deveria vir) de outro lugar que não as próprias pessoas, parece fazer força no sentido oposto a este. Para isto, libera de antemão as culpas do sujeito. Assim, a mentira é perdoada a priori porque a psicologia acredita que o sujeito não mentiu, mas disse sua própria verdade ou a verdade sobre si mesmo. Este pensamento é essencial para apazigüar a culpa de pacientes que chegam diariamente em clínicas de psicologia se queixando de que Não consigo parar de mentir.
No entanto, ele não é completo. Acredito que a mentira aconteça com todos e por todos. Por duas razões. Uma delas é que nem sempre podemos ter certeza de que o que falamos é verdade. Quer ver? Na idade média dizia-se que o sol girava em torno da Terra. Em tempos modernos esta idéia é absurda. Do ponto de vista da realidade, pode-se dizer que mentiram. No entanto, é possível dizer que não foram sinceros em defender o que acreditavam?
A segunda razão chama mais a atenção. É que na mentira também existe prazer. Não é incomum ouvir pessoas dizerem que preferem não saber da traição do marido ou da esposa a sofrer com a verdade. Existem multidões de pessoas que votam no "rouba mas faz". Também não é incomum ouvir que Uma mentirinha só não faz mal, ainda mais se usada para o bem. Por quê?
Não sei bem, mas constantemente reparo nas mentiras. E como elas são freqüentes. Aproveito a época natalina para dar um bom exemplo. Você acredita em Papai Noel?
Para as crianças a resposta deve ser sempre Sim. Outras mentiras aparecem também para as crianças de maneira demasiado freqüente quanto à sexualidade. Cegonha? Sementinha? O que os pais estavam fazendo no quarto, mesmo?
Não condeno a mágica do natal e do Papai Noel. Aliás, sou fã de histórias mentirosas que os adultos chamam de ficção. Mas não soa estranho que os pais reclamem que suas crianças mentem sendo que eles os criaram sob mentiras? Mais uma vez, não condeno a mágica do Papai Noel ou do Peter Pan ou da fada Sininho. Só que acho que os adultos poderiam lidar de forma diferente com as mentiras infantis e fazer delas algo mágico, tal qual fazem com o Papai Noel.
Será que, com isto, a idéia não deveria ser a mesma que fizeram os homens da idade média sem o saber: tornar uma mentira autêntica por meio da sinceridade?
Não fiz a mesma via de pensamento que fez o Calligaris, até porque não acho que os americanos sejam tão comprometidos com a verdade quanto quer o autor. Mas posso dizer que concordo com o título e o último parágrafo de seu texto No ano novo, prometo parecer sincero e autêntico.