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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sobre a verdade

Quando ouvi esta frase eu assistia televisão em um lugar que dava para ouvir conversas vindas da rua. Daí comecei a ouvir tudo repetidamente três vezes. Eu ainda não tinha enlouquecido, porque minha mãe também estava ouvindo estas vozes. Até que do outro lado do portão ouvi Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta para mim. Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta pra mim. Aqui é o José Carlos.... Biagioti, tia. Abre a porta p'mim.


Vai saber o que me moveu no sentido de abrir a porta, porque já em primeiro alarme fui avisado que seria melhor não ir até lá, Vai que ele está com um pedaço de pau na mão, bêbado, e pega você de surpresa, este foi o sábio aviso de minha mãe. Mas é que a mãe, este lado oraculoso de nossas mães, mesmo tendo razão, sempre é ouvida depois que tudo acontece. O oráculo do Édipo rei foi a mesma coisa. Só fizeram algo depois que já era tarde. Por que eu seria diferente, me perguntei.


Com o que restou de sobriedade em mim, ouvi minha mãe quando me disse para dar a volta e ir pela porta dos fundos. Mal sabia eu que teria um encontro implacável com uma verdade que não sossegaria até que fosse dita de maneira completa, clara. Subi pela rampa de acesso que leva aos fundos e dei a volta na casa, indo para o portão, desta vez do outro lado dele. Vi de longe um alguém sentado e de costas. Estranho que a verdade se nos apresenta primeiro de costas e só aos poucos se nos mostra.


Quando se virou, não se apresentou logo, claro, o que mais esperar da verdade. Eu que tive que lhe fazer as perguntas. Você, está bem, quer água ou precisa de algo. Nada de respostas. Quando se dirigiu a mim disse Sou o José Carlos Biagioti, eu vim buscar meus documentos com a minha tia que mora nesta casa, e apontou para a minha casa. Claro que esta não era a verdade. Repetiu mais duas vezes para ver se eu acreditava. Resolvi acreditar.


Perguntei o nome de sua tia. Sem resposta. Em vez disto, ouvi três vezes Eu vim da guerra mundial do Brasil, em Ribeirão Preto, eu sou polícia. Guerra mundial do Brasil, aqui em Ribeirão, e quem mais esteve nesta guerra, perguntei, Só eu, matei todos os estrangeiros, Tinham estrangeiros em guerra aqui, eu quis saber, Alemães, ingleses, americanos, franceses, tinha até japonês, Nossa, e como você fez isto sozinho. Silêncio. A verdade não se revela assim tão fácil, às simples perguntas.


Mas interessante que as duas repetições além da frase original pararam. Acho que parou de tentar me convencer. Teria que revelar a verdade por outra via. E como não respondeu à última questão para não se revelar simplesmente quando lhe fosse requisitada, resolveu mudar a abordagem.


Todo mundo é inimigo, e eu sou tenente coronel, sou da polícia, a guerra mundial do Brasil acabou, foi lá em Ribeirão, e todo mundo é inimigo. Resolvi oferecer mais água. Ribeirão Preto, neste dia, estava marcando quarenta e dois graus celsius. De verdade. Ignorou.


Você é meu inimigo, eu mandei você me matar, E por que eu faria isto, Porque você é inimigo, Ora, mas você pode até se dizer meu inimigo, mas veja, não estou tentando lhe matar, quero lhe ajudar, estou oferecendo água. Reparei que o cigarro apagado em sua mão tremia muito e ele se esforçava por tragar em vão. Aquele homem devia ter uns 50 anos, aproximadamente. Semblante cansado, respiração difícil e bastante trêmulo. Mas não hesitava em andar em baixo de sol pleno. Era aproximadamente 15h. Simplesmente ia. E se encostava na parede enquanto estava sentado. Era assim que o tinha encontrado.


Ei, eu estou reconhecendo você, você é meu filho, disse ele, E como eu me chamo, retruquei, Não lembro, E qual a minha idade, Uns 20 anos, e você vai me levar para casa, minha tia está me esperando com meus documentos, Mas se sou seu filho, eu que moro na sua casa e não o contrário, Não, você vai me levar para casa e me oferecer um café à sua mesa, Já lhe ofereci água, mas se quer um café lhe trago, você pode esperar, perguntei, Eu não, você é meu inimigo.


Inimigo por quê, perguntei, Porque você estava na guerra mundial de Ribeirão Preto, a cidade que eu construí, E destruiu na guerra, perguntei. Silêncio. E você ia me matar, Acho que não, você não me é inimigo, ao contrário, estou lhe tratando como amigo. Sua expressão mudara e pela primeira vez me olhou nos olhos. Pediu com os olhos que eu lhe repetisse a última frase, como ele mesmo o fazia quando queria me convencer, no início de tudo. Desta vez eu teria que convencê-lo. E olhando em seus olhos disse novamente Para mim, você é amigo. Estendeu a mão e esboçou um aperto de mão. Dei-lhe a minha mão. Foi a única vez que o vi sorrir. Se levantou animado, querendo ir para casa. Pois vá, estarei aqui para quando quiser ajuda, Oras, me arrume um copo de água, Quer um fósforo, perguntei. Silêncio.


Voltei com uma garrafa de dois litro de água e uma caneca. Só que o encontrei dormindo. Ainda na ânsia de cumprir minha palavra, resolvi que ia buscar uma garrafa menor e deixar a água ali, para quando acordasse. Aproveitei e peguei uma caixa de fósforo. Quando voltei, ele  estava sentado já acordado. Não se lembrou de seu filho até que eu lhe dissesse que era seu amigo, não inimigo. Então, de repente, quase sem sentido, ele me disse a verdade! Na cara! Aquelas palavras não poderiam ser mais sábias. Fiquei sem jeito. Andei meio de lado. Ressabiado, sorri e só pude dizer Oras, pode ser. Tomou água com toda a certeza de que era a melhor parte do seu dia. Lembrei do relógio marcando quarenta e dois graus. Terminou sua água, não quis ficar com a garrafa, pegou a caixa de fósforo e fumou o que restava do cigarro apagado em sua mão. Ainda me disse que matou muitos inimigos e que vinha da guerra mundial do Brasil. Falou algo sobre voltar de avião para a casa do próprio pai. Sem mais nem menos, se levantou e foi embora.


Fiquei pasmo. A verdade me fora revelada, sem custo, sem dor. Tudo o que precisei fazer foi dizer que era sua amiga. E não se engane com aparências, a verdade se revela por entre as mentiras que contamos. Em verdade, nenhuma mentira é mentira, ao contrário, é verdade pedindo gentilmente por ser revelada. Mas aquela verdade... minha mãe me avisou para não ir lá, eu iria levar uma paulada. O que ele me disse foi... Você é louco, pois está conversando comigo. Louco.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Olha só...

... é assim, tem essa menina, ela é minha ex-namorada e tal, só que de uns tempos para cá ela voltou a falar comigo, e não sei o porquê, você, como psicólogo, pode fazer uma análise e dizer, Não, Como não, você é psicólogo, deveria saber, Mas não sei, Mas olha, ela ficou sabendo provavelmente que eu comentei dela para umas pessoas que provavelmente ela conhece, ela é de cidade pequena onde todo mundo conhece todo mundo, sabe como é, e recentemente conheci duas meninas de lá e falei que tinha uma ex-namorada de lá e disse o nome, e elas provavelmente a conheciam porque é cidade pequena, daí eu sei que ela sabe que eu falei dela, e ela veio falar comigo por internet para dizer desculpas daquela vez que namoramos, Hum, E aí que eu não sei o que ela queria, o que será, Eu acho que ela queria pedir desculpas, Mas isto eu já falei, Eu sei, Então faça uma análise dela e diga o porquê de ela querer pedir desculpas, Não dá, Como não dá, você não estudou para isto, Eu acho que você está fazendo confusão, ela não disse que queria pedir desculpas, Disse, Então é isto, ela queria pedir desculpas, Só isso, Só isso, Mas o que mais, Mais nada, o que você queria que eu dissesse, O porquê de ela querer pedir desculpas, Você tá paquerando sua ex, Talvez, Ah, então é isso, Mais ou menos, eu até acho que seria interessante poder reencontrar e conversar, Então pronto, vai lá e paquera, Mas será que é isto o que ela quer, Como eu vou saber, Ué, você estudou para isto, Vou lá buscar minha bola de cristal, Mas isso não é psicologia, Nem o que você está me pedindo para fazer, nunca vi a moça, Mas, Mas nada, paquera ela e pronto, não é o que você quer, É.


 


 


Agradeço ao Saramago, o primeiro autor que li assiduamente, por ter inventado este estilo que, depois que acostumei, nunca mais consegui largar completamente. Mesmo que este seja oficialmente meu primeiro rascunho neste estilo, minha maneira de pensar e de ler os outros livros que não dele mudaram muito.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O que você esperava?


Quando nos conhecemos, ela estava namorando um outro rapaz. Aos poucos nos apaixonamos. Começamos a ficar porque eles estavam brigando muito. Só terminaram umas duas semanas depois que ficamos a primeira vez. Hoje terminamos nosso namoro. Ela estava ficando com outro rapaz.



 
Por que você nunca prestou atenção em mim! É por isto que quero terminar. ... Mas o que você diz não condiz com o os seus atos! ... Não tenho mais motivos para confiar em você. Adeus! ... Estes anos todos você poderia olhar para mim e reconhecer o que sou. ... Como você não consegue? Teria que conseguir!

 
Noooossa! Que menina linda! Olha o tanto de homem que tem em volta dela!!! Vou lá falar com ela.

...

Por que você sempre sai e fica um monte de homem em volta de você? Precisa parar com isto! ... Claro que a culpa é sua! Olha como você se veste, e o jeito que fala com eles!

 
Não dá. Não... Hoje não.  ... Ah! Porque é complicado. Não... Deixa pra mais pra frente.

...

Melhor não. ... Claro que quero, mas é que hoje não pode. Preciso ir, beijo.

...

Mas desta vez quase deu. Prometo que da próxima vai dar. ... Não é por causa do meu ex. ... Sei não. ... Você está livre na quarta? ... Ah, é. Você trabalha.

...

Como não? Não vá me dizer que não! Justo agora que eu me esforcei tanto. O que aconteceu?

 
Sempre gostei de namorar. Já tive namoros de dias, meses e anos. Mas agora resolvi ser galinha! Não agüento mais essa vidinha certinha.

...

Ai! Por que eu fiz isto? Perdi o amor da minha vida! Tudo culpa desta promessa de não namorar. Maldita culpa! Quando vou me livrar dela?

 

O que esperamos do mundo?