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terça-feira, 22 de junho de 2010

Existem 3 coisas…

... que toda mulher quer: emagrecer, transar e um cartão de crédito sem limite. E experimente lhe negar qualquer dos três!


Dica prática: não experimente.



sábado, 19 de junho de 2010

José para uns, Saramago para outros

A notícia já é sabida. Aos ventos, repetida.


José Saramago morreu aos 87 anos neste 2010. Quando imaginei que havia lido muitas obras dele, seis no total, descobri que nem cheguei perto da metade do que ele publicou. Nem um quarto. Evitei fazer contas de qual fração eu li do que ele sequer publicou, mas escreveu.


Notório é seu estilo único de frases longas, vírgulas e letras maiúsculas para diálogos que foi por mim copiado em muitos textos. Vestibulares, concursos, redações particulares, em meu site e até mesmo em pequenos escritos de celular e recados em pedaços de papel. Meras cópias estilísticas daquilo que tive inveja de não ser criador.


Não tenho talento para escrever melhor do que já nos escreveu Drummond. Nem que o próprio Saramago ao escrever um seu "agora, josé". Fico aqui com a promessa de que muito ainda lhe homenagearei, direta e indiretamente.


Obrigado, José. Obrigado, Saramago.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Vamos...



Para Adriana
Com amor.

... celebrar!
Celebremos a sobrevivência por sobre as mazelas da vida. Comemoremos todos juntos as belas razões que ainda nos restam para sobrepujarmos as infelicidades.
Também comemoremos todas as infelicidades que nos tornam maiores, ao fim de tudo. Todas as que pudemos superar.
E mesmo quando não se superam, comemoremos que, apesar delas, continuamos vivos.

É que somente vivos podemos sentir e respirar e compartilhar e espalhar e ser e transpirar e emanar e receber e devolver aquilo que de mais sincero pode acontecer entre dois viventes: o amor.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Maluquices Apaixonantes



Entrei no bar e logo vi o sujeito com camiseta da seleção brasileira. Era dia de jogo de futebol e este cara estava ali do lado de fora. Jogava bola sozinho no meio da rua e passava a impressão de ser contratado pelo bar para atrair clientela. Nem pense em mostrar cartão vermelho para ele que ele xinga o juíz e apronta maior bafafá, alguém me sussurrou quando viu que eu olhava para ele fixamente. E na seqüência disse que Ele era um louco que cada vez que tinha jogo da seleção ele ia para um bar e fazia exatamente aquilo. Detalhe: nunca falava. Mas todos o compreendiam.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Peculiar é uma palavra engraçada...

..., mas ele era isto mesmo: peculiar. Tinha assim um jeito cambaleante e magro, além de alto e se vestia quase muito bem. O que não combinava era aquele cinto brega de caubói. O que se pode fazer, afinal? Ribeirãopretano, apesar de um povo bonito, se veste muito mal. Foi nesta cidade que ele cresceu.


segunda-feira, 30 de março de 2009

E se todos os dias...

Inspirado pelo filme
"Groundhog day"

 


... fossem 25 de dezembro? E se eu acordasse de novo naquele mesmo dia em que lhe conheci? Se eu lhe dissesse que vivo eternamente no dia 25, que faria?


Meu único lamento seria você não se lembrar do 25 anterior. Mas eu veria seus olhos se apaixonarem pelos meus com a mesma sinceridade de todos os outros dias. Não se apaixonaria de novo, mas sim pela primeira vez todos os dias. Eu me apaixonaria pela primeira vez continuamente, porque seria inútil eu usar a mesma paixão antiga e gasta contra a autenticidade da descoberta. Naquele dia você diria sempre que nunca deixou de me querer. Lembra?


Redescobriríamos o amor a cada dia pela primeira vez. Mesmo que a levasse a novos lugares. Fizesse coisas diferentes.


Todos os dias seriam o primeiro. E todos os outros se tornariam em 25.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Questão de Direito

Em homenagem ao sarau Eleituras.


 


Soubera de um certo sarau temático sobre Os sete pecados capitais. Comecei, então, a procurar por eles em vias de poder relatar a experiência. De início, a gula se fez clara pela falta de um "r" comido de Releituras. Pobre "r"... não bastasse a nova gramática, faltaram ao guloso escrúpulos em comê-lo.


Como ainda outros "rr" existem por aí, resolveram se vingar. Utilizaram-se de toda a ira que possa dispor a uma letra, ou grupo de letras, e organizaram um multirão. Atacaram o Rio de Janeiro. Pórrrta. Pôrrrteira. Pôrrrtão. Nas ruas foi um alvoroço. Porrra bródi, tu tinha qui vê a galiera puxando o érrre. Como não se controlaram, o invejoso "s" mostrou para o que veio. Exxtava na exxquina da exxcola exxperando o ônibuxx. Ira e inveja em um só parágrafo, na mais pura ganância ou avareza que um parágrafo pode ter.


Já que citei a nova gramática, gostaria de lembrar que neste últimos tempos cometeram um dos maiores atos de luxúria já vistos em uma língua. É que misturaram em um só quarto todos os idiomas portugueses a fim de tirar um filhote em comum. Eu, que não sou dado a orgias com este fim e propósito, fiquei de fora, com modos antigos, a escrever tremas e acentos diferenciais puramente morais, mas necessários, no meu entendimento. Chamem de vaidade se quiserem.


Para a preguiça, pensei mesmo em dizer sobre a falta de vontade literária de nosso querido Brasil. Mas, talvez por preguiça, julguei não ser o caso para tanto. Preferi escrever algo mais leve. Sobre a preguiça aparente ao tratarmos determidados assuntos como corrupção, assassinato ou desigualdade social. Mesmo os pecados capitais, que de início eram oito, mudam ao longo dos anos. Impomo-nos regras morais em número de sete sendo que as maiores atrocidades da humanidade são perpassadas por questões para além dos pecados. Estas questões nunca mudaram.


Não é pecado capital matar. Nem roubar. Ou mentir. Não é direito humano sonhar, nem surtar, se distrair. Não é pecado a impunidade. Nem direito a criatividade.


Questão de justiça: o que é pecado e o que é direito?


Se eu fosse letras, se pudesse me dar ao luxo de escolher-me a mim para gritar algo para o mundo, escolheria a frase: O mundo está ao contrário!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Vanity cards, do Chuck Lorre

Chuck Lorre é o criador e produtor de duas recentes séries de televisão que passam nos canais fechados. O Two and a half men e o The Big Band theory (traduzidos livremente por Dois homens e meio e A teoria do Big Bang). O humor ácido e direto de Lorre tem feito sucesso no Brasil.


Uma curiosidade: ao final de cada episódio destas duas séries, Chuck coloca no ar um cartão que ele escreve após cada episódio. Vanity card não tem tradução precisa, mas a Wikipedia diz que é um logotipo de produção que promove uma marca. A palavra Vanity em si pode ser traduzida tanto como Orgulho excessivo (excessive pride) quanto como Vazio (emptiness). Talvez o nome Vanity não tenha sido em vão, e parece que as três definições fazem sentido. É um cartão que promove o Chuck Lorre, escrito com orgulho e sarcasticamente dito vazio, o que é característico no humor de Lorre. Para conferir cada cartão é preciso gravar o final dos episódios até depois de todos os nomes e créditos. Isto porque cada cartão aparece por menos de um segundo em uma tela de fundo branco. Para ler na televisão, pause o vídeo no fundo branco. A outra opção é entrar na página do autor e conferir todos os cartões já publicados (em inglês).


Até aqui, nenhuma novidade para os aficcionados nestas séries. O que talvez possa ser interessante é que existem alguns cartões que a CBS, produtora dos episódios nos Estados Unidos, censura. Sim, a censura também atua por lá e os brasileiros deviam mesmo saber que o "Free world" (mundo livre), como eles gostam de se intitular, é livre às custas de eficaz controle das liberdades. Inclusive atuando sobre a liberdade de outros países, de maneira direta e indireta. Lembre: esta não é uma discussão sobre quem é ou deveria ser livre, ou ainda sobre como deveríamos ser. É antes e tão somente um alerta para o fato de que a total liberdade pregada pela democracia estadunidense não é tão verdadeira quanto eles querem.


Lorre é um dos alvos. Como eu disse antes, alguns de seus Vanity cards foram censurados pela própria emissora e nunca puderam ir ao ar. Mas nós, claro, conhecemos as artimanhas. Ou passaremos a conhecer agora.


O cartão #171 foi o primeiro a ser banido do ar. Para que não passasse em branco, Lorre escreveu outro para que fosse ao ar. Pena estar em inglês, mas faço uma tradução livre: "Censurado, disponível para leitura se você souber onde procurar". O #217 é sobre censura e foi censurado. Chuck nos alerta, mais uma vez, que se soubermos onde procurar poderemos ler o conteúdo alvo da censura. Pois bem, aqui vai.


Para ler o conteúdo censurado basta adicinar a letra "c" ao final do link de cada cartão. Por exemplo, o link do cartão #171 é este:


http://www.chucklorre.com/index.php?p=171


Para acessar o conteúdo que não foi ao ar apenas adicione "c" ao final deste link e pronto:


http://www.chucklorre.com/index.php?p=171c


Quero aproveitar o tema Censura para comentar um cartão de Lorre que não foi censurado. O #155. É uma carta aberta à FCC (Comissão Federal de Comunicação, em inglês). Este órgão é o regulador de conteúdos e censuras nos Estados Unidos entre outras atribuições. Na carta, Lorre diz que determinar o que é vulgar baseado no "caso a caso" claramente confunde a todos. Então ele propõe uma solução para evitar desentendidos. Listado em duas colunas se vêem coisas Comumente boas e Comumente ruins. Nas boas: Celebrar os buracos humanos criados por Deus, Beijar consensualmente, Mostrar qualquer parte do corpo, Palavras que provoquem emoção ou fazem rir. Nas ruins: Celebrar buracos humanos criados por humanos, Atirar e explodir não consensualmente, Mostrar qualquer parte do corpo levando tiros, Palavras que provoquem violência. Depois disto, diz que esta seria uma maneira bastante saudável de pensar a menos que se queira criar uma cultura baseada no medo, com sede de sangue e feliz com guerras, entre outras coisas. "Mas parece não ser o caso", ele diz. Sarcasticamente, claro.


Em um certo sentido, não teria ele razão?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Autocontrole

Notas do escritor:
Texto proibido para menores.
Não sou adepto ao suicídio.
Não sou adepto às críticas aos homossexuais.
Não sou adepto às políticas do medo.
Use o texto com responsabilidade literária.

Não me responsabilizo pelos seus atos! Não diga, frente aos juízes, que matou John Lennon por conta do meu texto ("O apanhador no campo de centeio") ou que imaginou que estava jogando GTA enquanto atropelava alguém.


Em parte inspirado em O homem de areia, de E.T.A. Hoffmann, 1815.


 


 


Hoje foi daqueles dias típicos. Pouca novidade quanto ao que pouco poderia acontecer no dia. Pouco porque em termos gerais as tarefas diárias me são mesmo poucas. Apenas trabalhar, organizar a casa para o dia seguinte e descansar. O trabalho, o de sempre. Nem vejo como poderia ser muito diferente de ontem o trabalho de digitação de contratos para uma empresa de eletrônicos. Pega o nome, digita, copia, cola, cola, cola, 8 vezes, o cnpj, copia, cola, cola, inscrição estadual, copia, cola, cônjuge, copia, cola, local e data, copia, cola, cola, imprime, 2 cópias, próximo contrato. Repita isto várias e várias vezes e no final do mês lhe depositarão cerca de oitocentos ou novecentos reais.


Você nem precisa conhecer seu chefe.


O meu nem tem cara.


O problema de sistematizar demais o trabalho é que depois que você acostuma, pode pensar em outras coisas enquanto trabalha. Sem novidades significa pensamentos. E eles, já que não têm novidades, são os mesmos de sempre.


Lembro-me daquela desgraçada que me largou há um ano atrás. Pudera, só porque não morávamos na mesma cidade. O que será que está fazendo hoje? Dando para outro, na certa. Cretina.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: delete um contrato importante.


Pelo menos a raiva diminui. Mas ainda não resolvi o problema, porque amanhã acontecerá de novo a mesma coisa. E lá se vai outro contrato importante. Ainda bem que nem conheço meu chefe, ou estaria encrencado.


Volto à digitação. Entre os contratos a serem digitados aparece a Jiowanna. Nome estranho? Ainda não viu nada. Pelo menos este é pronunciável e me lembra uma outra namorada, um pouco mais antiga. Esta sim pude amar, compartilhar todos os meus defeitos, ódios, medos e frustrações. Pena que me largou no altar. Não seria para menos, já que me pegou na cama com outra apenas dois dias antes. Ainda que tentou me perdoar, mas a pressão dos olhos atentos naquele que deveria ser o momento de felicidade de sua vida a fez desistir. Cheguei a duvidar que a amava, já que a traira. Ctrl+z. Errei um colar.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.


Mas ainda estou vivo e preciso imprimir mais um contrato. Clica, clica, 2, imprime, espera, grampeia, grampeia. Juntar de maneira permanente... isso me lembra... que... Nossa! Eu estou namorando e nem liguei pra ela ontem.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: invente uma boa desculpa.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: treine mentalmente antes de dizer.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: acredite nela. Na mentira, claro.

Alô, estou no trabalho, não, acho que não vou para a sua casa hoje, ontem não te liguei, acabou a bateria, eu sei que tenho cabeça oca, mas fazer o quê, também estou com saudade, amanhã a gente vai no cinema, beijo. Esta eu nem gosto tanto, mas ela é tão boa comigo que estou pensando em deixar como está por um tempo. Até ela vir e reclamar. Na terceira reclamação eu termino. É assim, temos que nos impor regras a nós mesmos para que possamos nos controlar. Mas nunca as sigo.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na mão: Terminar com ela.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na testa: Terminar com você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: compre um colete que proteja de balas e um capacete para mesmo fim.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva neles: Terminar com você.

Talvez eu não tenha mesmo seguido nenhuma regra minha até aqui. Só as inúteis.


Certa vez comprei um fone de ouvido só porque prometi que se estivesse por cinco reais eu compraria. Quanto custa? Cinco reais. Eu levo.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa que nunca mais prometerá nada.


Mas não funciona. Hoje cheguei em casa e prometi que nunca mais ia enloquecer. E quando dei por mim estava pelado na rua correndo e nem era na rua de casa. Na verdade, nem sei aonde era. Sei que acordei em casa, na minha cama. E não era sonho porque eu estava pelado, com os pés sujos e tinha até um chiclete nele.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa sempre o contrário daquilo que pensar.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometi não prometer, não poderia ter prometido não prometer, então ainda é possível prometer. Prometa o quanto quiser.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometer não enlouquecer, coloque um chinelo, ao menos.

Merda não é exatamente o palavrão que me vem em mente quando sinto que, depois de acordar, pisei no mesmo chiclete que achei que tinha sonhado.


Levantei de súbito e gritei feito louco. Subi pelas grades da janela fazendo questão de deixar o rastro de sujeira por ali. Corri até a porta gritando Vizinho do caralho, vou te matar e quando cheguei até a porta vi o vizinho. Pulei em seu pescoço e o vi ficar roxo. Não lembro bem que tonalidade era aquela, mas quando me tiraram da garganta dele ele estava era mais para lilás. Vai saber, sangue ruim é assim mesmo.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: carregue sempre uma arma para seus acessos de loucura.


Minha frustração foi não tê-lo matado. Virei-me e vi que o filho da puta que me segurava era um vizinho que morava com aquele que eu quase matara. SEU LOUCO, gritei. NÃO!!! VOCÊ É BICHA, VEADO, CORNO E AINDA MAL AMADO POR UM CARA QUE QUASE MATEI! Todos os vizinhos saíram na rua.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: para chamar a atenção, grite.


E dei-lhe um soco direto no queixo. O sujeito, sem jeito, tentou revidar, mas corri. Não de medo. Mas de ódio. Do quê? Não sei... acho que corri para descobrir. Voltei para dentro do quarto e todos entraram atrás de mim. Alguns ainda tinham esperança de me conter. Em vão. Eu corria mais e dava mais tapa na cara que todo mundo ali. Abri minhas gavetas cheias de fotos de namoradas antigas. Por que não as  joguei fora antes? Por quê? De novo, senti ódio de todas. TODAS, gritei.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: sempre jogue as fotos das ex-namoradas fora.


Me contaram que a polícia me conteve. Por sorte, dó ou medo, ninguém deu queixa dos acontecimentos.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: deixe que todos tenham medo de você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.

Alguém, provavelemente um amigo, me diz para me tratar. Diz que minha mãe não me ama. Diz que acha que é por isto que tenho problemas com minhas namoradas. Diz que acha que estou exagerando e que deveria me desfazer das fotos. Diz que falta de amor materno não é desculpa para nada.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate seu amigo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate sua mãe.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate suas namoradas.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Crônica

Um comentário breve antes de iniciar esta crônica. Os estilos romântico e erótico fazem parte dos meus preferidos. Por motivos óbvios, meus textos eróticos não serão postados aqui. Mas tenho um romântico que fiquei com vontade de publicar depois de relê-lo. Espero que aproveitem a ridicularidade do romantismo tanto quanto eu, que sou adepto do poeta que diz que Todas as cartas de amor são ridículas. O poeta é o Fernando Pessoa.


 


maria.


(...) meu anseio que era grande demais para ser contido. (...) Tentei te encontrar nas nuvens, nas estradas, tentei te encontrar na minha cama, no meu quarto, sozinho. (...) Percebi que estava sonhando com você. (...) Eu preciso ter você de verdade. (...)


Por Thaís


 



Maria.
Por Marq

Decidi não dormir por hoje. Não só por hoje, aliás. Não vou mais dormir se não for ao seu lado. É que se eu dormir, sei que vou sonhar com você. E quando eu perceber que é sonho e me virar para o lado e não encontrar você dormindo, vou me entristecer. Se hoje eu dormir, se esta carta não for terminada por conta do peso das minhas pálpebras, vou acordar chorando.


Mal tínhamos combinado de dormir naquela hora. E nem tinha espaço para os dois. Dormimos juntos em um colchão de solteiro no chão e foi, de longe, uma das melhores coisas que já fizemos. Lembraremos do dia em que a única coisa que nos manteve juntos ali foi a intensa vontade de não deixar o outro ir embora para sempre. Por isto, nesta noite, sonhei com você. Não lembro do sonho com detalhes, mas acordei sorrindo. E com você ao meu lado.


Não é aprazível partir. Mas matar a saudade que nunca morre vai ser mágico. Sabe, é essa a saudade que tenho. Essa que não importa se estou ao seu lado mas eu ainda sinto. Digo que a mato, mas apenas a escondo. É a saudade do que ainda não se foi. Saudade do seu abraço, mesmo com você ao meu lado.


Se amanhã eu estiver de olheira, sabe que não dormi. Se estiver com lenço, sabe que acordei chorando. Mas se eu simplesmente estiver, seja como for, triste ou feliz, com ou sem sorriso, bonito ou feio... se eu estiver e apenas estiver... seja aonde for, mesmo ao seu lado, estarei com saudade.


Mas não vou conter meus anseios. Vou encontrar você nas nuvens, estrada, cama e quarto. Me encontro com você até sozinho, quando só é possível lembrar do seu cheiro e voz, pele e olho. Lembrar acordado ou dormindo. Percebi que sonhei com você. De novo.


Preciso ter você de verdade.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

E se...

nem tivéssemos nos cumprimentado?
Se nem mesmo tivéssemos nos olhado?
Se tivéssemos mantido pose de educado?
Teríamos nos conhecido?

Como dois estranhos saberiam
que é hora de dizer Olá?
Se antes nem se conheciam,
mas de agora, durará.

domingo, 2 de novembro de 2008

Sofia


Durante muito tempo, Hilde tentara fazer a mesma coisa. Mas piscar os dois olhos ao mesmo tempo para sua própria imagem refletida era tão difícil quanto querer correr da própria sombra. Por fim acabou ganhando de presente o espelho, herança da bisavó. Durante toda a sua infância ela tentou várias vezes realizar este feito impossível. (p. 311)



 




- A primeira coisa que eu vi foi que você não estava.


- Não é estranho que a primeira coisa que você viu neste local tenha sido justamente algo que não estava aqui?


(...)


- Quando você está apaixonada e esperando o telefonema de seu namorado, pode ser que você "ouça" a noite inteira que ele não telefona para você. O fato de ele não telefonar é exatamente o que você registra o tempo todo. Se você vai buscar seu namorado numa estação ferroviária e está numa plataforma tão cheia de gente que não consegue encontrá-lo, pode estar certa de que você não enxerga todas estas pessoas. Elas incomodam, mas são irrelevantes para você. Você pode achá-las antipáticas, eu mesmo repugnantes. Elas tomam tanto espaço... Mas a única coisa que você registra é que ele não está ali. (p. 489)



 




Se que o cérebro humano fosse tão simples ao ponto de podermos entendê-lo, nós seríamos tão idiotas que não conseguiríamos entendê-lo. (p. 355)



 




- Preste atenção. Um mal-entendido muito comum é o de achar que o espírito é "mais etéreo" do que o vapor. Na verdade, o que ocorre é o contrário: o espírito é mais sólido do que o gelo. (p. 526)



 




- Um de nós vai ter de nadar até o barco.


- Vamos nós dois, papai. (p. 547)



 


O mundo de Sofia.


Jostein Gaarder.

Devaneio

Qualquer previsão já soa mais apaziguante do que o nada, mesmo que no fim a previsão não tenha sido a melhor coisa.


 


Não se esqueça de se perguntar: prefiro a previsão ou o nada? Ambos são sofridos.

domingo, 12 de outubro de 2008

Liga, liga, liga...

... estou esperando. O celular está na mão. Liga, vai!


E se eu ligasse? Não! De novo não. Da última vez você ligou vinte e duas vezes!


Ei, quem é você? Você, oras! Como assim? Nós dois somos a mesma pessoa! Estamos na mesma consciência. E você veio me atrapalhar?


Como? Eu sou você! Mas eu estou esperando ela ligar. Eu também, mas tenho uma dica para você não ficar tão nervoso. E se você arrumasse algo para fazer?


Nossa, tenho que ler um livro. É a única opção. Bom... melhor que ligar vinte e duas vezes novamente. E daí ela vai me achar um chato. Nós dois, né.


Nós cinco! Ah! Não me importa quantos tenham dentro desta cabeça, parece que todos querem a mesma coisa... que este telefone toque logo.


É isso aí! Toca! Se não tocar nós vamos invadir, tomar conta! Destruir tudo. Revolução! Revolução! Toca!


Ei... ouviu isto? O que? O silêncio! Droga!!! Fiquei com expectativas. Eu também... mas é que o silêncio... ele não cessa.


E agora?! O que vamos fazer? Não sei. Continua lendo.


Não existe na humanindade... qualquer resquício... como a civilização se ocupa de... a evolução de seu pensamento. Que é isto? Xiiiiu... estou tentando ler. Ah! Desisto de ler. Só dá para entender estes fragmentos aí e toda vez tenho que recomeçar.


Quer saber? Liga logo e pronto!


O que você achou que fosse acontecer? Ela não atendeu de novo, claro! É para você aprender a se controlar. Mas ela bem que podia ligar, né?


---


Triiiim... Triiiiim...


Não é ela. Tenho certeza. Deve ser alguém que ligou para um número errado.


Alô! Não, não. Não é daqui, não. Não. Tchau.


Viu!!! Mas que saco, podia ser ela.


Mas não era.


Será que algum dia vai ser?


 


P.S.: Quem nunca passou por isto?!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Mudanças


Nós nunca mudamos de fato



 

Coldplay

 
Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo.

 

Lulu Santos / Nelson Motta

 

 

Afinal. Mudamos ou não?

Tudo muda ou não?

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sobre a verdade

Quando ouvi esta frase eu assistia televisão em um lugar que dava para ouvir conversas vindas da rua. Daí comecei a ouvir tudo repetidamente três vezes. Eu ainda não tinha enlouquecido, porque minha mãe também estava ouvindo estas vozes. Até que do outro lado do portão ouvi Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta para mim. Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta pra mim. Aqui é o José Carlos.... Biagioti, tia. Abre a porta p'mim.


Vai saber o que me moveu no sentido de abrir a porta, porque já em primeiro alarme fui avisado que seria melhor não ir até lá, Vai que ele está com um pedaço de pau na mão, bêbado, e pega você de surpresa, este foi o sábio aviso de minha mãe. Mas é que a mãe, este lado oraculoso de nossas mães, mesmo tendo razão, sempre é ouvida depois que tudo acontece. O oráculo do Édipo rei foi a mesma coisa. Só fizeram algo depois que já era tarde. Por que eu seria diferente, me perguntei.


Com o que restou de sobriedade em mim, ouvi minha mãe quando me disse para dar a volta e ir pela porta dos fundos. Mal sabia eu que teria um encontro implacável com uma verdade que não sossegaria até que fosse dita de maneira completa, clara. Subi pela rampa de acesso que leva aos fundos e dei a volta na casa, indo para o portão, desta vez do outro lado dele. Vi de longe um alguém sentado e de costas. Estranho que a verdade se nos apresenta primeiro de costas e só aos poucos se nos mostra.


Quando se virou, não se apresentou logo, claro, o que mais esperar da verdade. Eu que tive que lhe fazer as perguntas. Você, está bem, quer água ou precisa de algo. Nada de respostas. Quando se dirigiu a mim disse Sou o José Carlos Biagioti, eu vim buscar meus documentos com a minha tia que mora nesta casa, e apontou para a minha casa. Claro que esta não era a verdade. Repetiu mais duas vezes para ver se eu acreditava. Resolvi acreditar.


Perguntei o nome de sua tia. Sem resposta. Em vez disto, ouvi três vezes Eu vim da guerra mundial do Brasil, em Ribeirão Preto, eu sou polícia. Guerra mundial do Brasil, aqui em Ribeirão, e quem mais esteve nesta guerra, perguntei, Só eu, matei todos os estrangeiros, Tinham estrangeiros em guerra aqui, eu quis saber, Alemães, ingleses, americanos, franceses, tinha até japonês, Nossa, e como você fez isto sozinho. Silêncio. A verdade não se revela assim tão fácil, às simples perguntas.


Mas interessante que as duas repetições além da frase original pararam. Acho que parou de tentar me convencer. Teria que revelar a verdade por outra via. E como não respondeu à última questão para não se revelar simplesmente quando lhe fosse requisitada, resolveu mudar a abordagem.


Todo mundo é inimigo, e eu sou tenente coronel, sou da polícia, a guerra mundial do Brasil acabou, foi lá em Ribeirão, e todo mundo é inimigo. Resolvi oferecer mais água. Ribeirão Preto, neste dia, estava marcando quarenta e dois graus celsius. De verdade. Ignorou.


Você é meu inimigo, eu mandei você me matar, E por que eu faria isto, Porque você é inimigo, Ora, mas você pode até se dizer meu inimigo, mas veja, não estou tentando lhe matar, quero lhe ajudar, estou oferecendo água. Reparei que o cigarro apagado em sua mão tremia muito e ele se esforçava por tragar em vão. Aquele homem devia ter uns 50 anos, aproximadamente. Semblante cansado, respiração difícil e bastante trêmulo. Mas não hesitava em andar em baixo de sol pleno. Era aproximadamente 15h. Simplesmente ia. E se encostava na parede enquanto estava sentado. Era assim que o tinha encontrado.


Ei, eu estou reconhecendo você, você é meu filho, disse ele, E como eu me chamo, retruquei, Não lembro, E qual a minha idade, Uns 20 anos, e você vai me levar para casa, minha tia está me esperando com meus documentos, Mas se sou seu filho, eu que moro na sua casa e não o contrário, Não, você vai me levar para casa e me oferecer um café à sua mesa, Já lhe ofereci água, mas se quer um café lhe trago, você pode esperar, perguntei, Eu não, você é meu inimigo.


Inimigo por quê, perguntei, Porque você estava na guerra mundial de Ribeirão Preto, a cidade que eu construí, E destruiu na guerra, perguntei. Silêncio. E você ia me matar, Acho que não, você não me é inimigo, ao contrário, estou lhe tratando como amigo. Sua expressão mudara e pela primeira vez me olhou nos olhos. Pediu com os olhos que eu lhe repetisse a última frase, como ele mesmo o fazia quando queria me convencer, no início de tudo. Desta vez eu teria que convencê-lo. E olhando em seus olhos disse novamente Para mim, você é amigo. Estendeu a mão e esboçou um aperto de mão. Dei-lhe a minha mão. Foi a única vez que o vi sorrir. Se levantou animado, querendo ir para casa. Pois vá, estarei aqui para quando quiser ajuda, Oras, me arrume um copo de água, Quer um fósforo, perguntei. Silêncio.


Voltei com uma garrafa de dois litro de água e uma caneca. Só que o encontrei dormindo. Ainda na ânsia de cumprir minha palavra, resolvi que ia buscar uma garrafa menor e deixar a água ali, para quando acordasse. Aproveitei e peguei uma caixa de fósforo. Quando voltei, ele  estava sentado já acordado. Não se lembrou de seu filho até que eu lhe dissesse que era seu amigo, não inimigo. Então, de repente, quase sem sentido, ele me disse a verdade! Na cara! Aquelas palavras não poderiam ser mais sábias. Fiquei sem jeito. Andei meio de lado. Ressabiado, sorri e só pude dizer Oras, pode ser. Tomou água com toda a certeza de que era a melhor parte do seu dia. Lembrei do relógio marcando quarenta e dois graus. Terminou sua água, não quis ficar com a garrafa, pegou a caixa de fósforo e fumou o que restava do cigarro apagado em sua mão. Ainda me disse que matou muitos inimigos e que vinha da guerra mundial do Brasil. Falou algo sobre voltar de avião para a casa do próprio pai. Sem mais nem menos, se levantou e foi embora.


Fiquei pasmo. A verdade me fora revelada, sem custo, sem dor. Tudo o que precisei fazer foi dizer que era sua amiga. E não se engane com aparências, a verdade se revela por entre as mentiras que contamos. Em verdade, nenhuma mentira é mentira, ao contrário, é verdade pedindo gentilmente por ser revelada. Mas aquela verdade... minha mãe me avisou para não ir lá, eu iria levar uma paulada. O que ele me disse foi... Você é louco, pois está conversando comigo. Louco.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Brasil...

... está em vias de se tornar Primeiro Mundo. E resolveu começar pelos desastres naturais. Já temos terremotos, tornados, leves geadas, mas que têm se intensificado aos poucos. Ou pelo menos ganhado visibilidade aos poucos.


E agora estamos em época de eleição. Relutei muito em escrever sobre este tema. E para ser sincero, o tema dos terremotos e a discução de Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo me interessam muito mais do que este. Mas, já que iniciei o assunto, gostaria de fazer um pedido encarecido aos políticos.


Odeio comício. Odeio propaganda política, ainda mais as de trinta segundos. Odeio papeletinhos. Odeio adesivos de carros. Pensando nisto, eu gostaria de propor aos nossos queridos vereadores que, em vez disto que fazem, que se comprometessem de uma vez por semana estar em um ambiente público para discutir política por pelo menos 1h. E que fizessem isto desde a campanha política até o fim de seu mandato.


Pedir muito? Não sei. O psicólogo recebe de seus pacientes para ter um horário de atenção a eles. O médico e boa parte dos profissionais de saúde também. O engenheiro tem que dispor de parte de seu horário em função daqueles que lhe pedem para construir suas casas. O advogado pára seu dia para receber um cliente, que paga os honorários. Só que nós pagamos boa parte dos nossos salários para pessoas que nem sequer sabemos se têm mal hálito, mas que são lindas no nosso novo televisor de plasma com recepção de sinal digital. Claro, esta televisão a gente só vê nos supermercados, porque ainda é muito caro comprar uma. Ou o dinheiro está mal distribuído?


Por isto, eu aviso desde já que meu voto fica dedicado ao primeiro candidato que em minha cidade se comprometer em ter uma aparição pública semanal de hoje até o fim do seu mandato, em prol de conversar com quem lhe pagará o salário sobre aquilo que será seu ofício. A política. Nem que o candidato seja ruim, já merece um voto por ser inaugural. E se isto acontecer e puder virar moda entre os políticos, aí volto a analisar o que eles têm a me dizer.


Senhores políticos, se passarem por aqui e já estiverem fazendo o que propus acima, por favor postem um comentário me informando como entrar em contato. De preferência um email, tendo em vista que acredito que muitos políticos irão postar seus nomes aqui e o email facilita a comunicação com várias pessoas.


Claro, a última frase foi irônica.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A Casa das Rosas...

... me deu um sorriso e me fez um convite tentador. Sinceramente, o sorriso era mais tentador do que o convite, mas como o convite me valia outro sorriso resolvi aceitar. Eu estava nas Clínicas quando entrei no metrô. Junto comigo alguém lia Os pensadores.


Entre Clínicas e Consolação os tais pensadores não ajudaram muito. Só fizeram me confundir com seus sistemas de pensamento baseados em vivências que mais lhe serviram às suas épocas. Eu ainda estava entre as Clínicas e a Consolação e por isto os pensamentos eram de queixa. Eu me queixava de tudo. Eu me queixava de mim mesmo. Tive que enfrentar que, em verdade, os pensadores não pensavam por mim. Teria que pensar sozinho. Teria que sentir sozinho.


Acabei me arrumando quando larguei os tais pensadores na Consolação. Não na deles, na minha. Mas é que de fato Os pensadores não seguiram viagem até o Museu de Arte. Tive que, com meus próprios pensamentos e sentimentos mais profundos, encontrar o lugar na arte que, passado o momento de Consolação, me recepcionou muito bem. Não no Museu, mas na Casa das Rosas.


Mais uma vez, ela sorriu para mim. A arte apresentada era obra prima. Duvida? Procure pela Chama Poética na casa das rosas. Fui recebido com tamanha sinceridade que a Casa das Rosas seria até mesmo capaz de me dizer, sem qualquer vestígio de medo ou temor, quando eu deveria simplesmente me retirar. Sem argumentar ou tentar retornar... apenas me retirar. Se me valesse mais Arte ou mais Sorrisos eu até me retiraria sem argüir.


Mas não era esta a minha vontade. Nem a da Casa.


 


http://ciclodaschamas.blogspot.com/

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sonhos

"Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede."


Eduardo Galeano


Faz algum tempo que ensaio escrever sobre os sonhos. E penso que chegou um momento propício para isto. Esta semana tive a oportunidade de contemplar um sarau do mais alto nível que aconteceu em Ribeirão Preto e contou com a presença de ilustres artistas. Em pouco tempo, me fizeram me sentir em casa e despertaram em mim algo que em verdade diz mais respeito ao quase oposto do despertar. Algo que se compara ao mágico. Este algo que prezo ter o direito não declarado pela ONU de tê-lo comigo todas as noites.


Aliás, o texto acima pode ser encontrado neste endereço, que também posto ao lado. http://www.dhnet.org.br/desejos/sonhos/dsonhar.htm


No entanto, não é sobre os meus sonhos que quero falar. Há algum tempo tenho contato com uma pessoa que sonha. Muito. E claro, eu a contemplo. Muito. Não estou dizendo sobre os sonhos despertos, estes que mais se parecem com sonhos morais do que com a concretude do desejo. Quero falar sobre este último. Antes, permita-me explicar as frases anteriores.


Há muito, bem antes de me inclinar sobre os estudos de tal fenômeno, ouço pessoas dizendo que sonham em ser engenheiros ou advogados, ou sonham em estudar, ou sonham em ser feliz. Claro que todos estes sonhos têm grande potencial de construtibilidade, se me permitem a invenção desta palavra caso não exista. No entanto, todos eles me parecem conter algo de comum quando se trata dO que é socialmente aceito.


Acredito que minha opinião sobre o sonho de ser feliz já foi dada em outro texto (Felicidade foi-se embora) e, por isto, parece ser o jeito mais fácil de explicar o que quero dizer. Os planos de felicidade que construímos socialmente não nos têm deixado opção diferente do Seja feliz. Neste sentido, estes sonhos sempre me soam alegorias da vontade de ser socialmente aceito e não de ser feliz. Isto porque escondem algo do desejo que fora outrora desejado mas não pode mais transparecer em prol de ser visto e aceito por terceiros.


Me desculpe Galeano, mas a continuação do seu texto também segue esta linha de raciocínio. Mas acredito que só foi possível a ele, Galeano, escrever algo de tão verdadeiro como a frase supracitada porque ele sonha durante as noites. E, claro, não me esqueço de repetir que todos os sonhos dele no texto citado têm grande potencial de construtibilidade, esta palavrinha que usei há pouco. Mas é que hoje não estou tão interessado nestes sonhos.


Quero reavivar às pessoas sobre a existência dos sonhos comuns. Estes que temos durante a noite. Alguns dizem não os terem e até acredito que seja mesmo possível. Mas não consigo conter o pesar que sinto por todo aquele que por qualquer motivo tem uma das janelas do desejo fechada. Por sorte, não é a única janela. Mas também não vou me prolongar por este assunto por agora.


Como ia dizendo, tenho tido contato com esta pessoa que sonha muito. Noto sempre o quão importante é cada sonho que ela tem. E que a cada sonho ela reluta em dizer que tudo aquilo que acaba ficando óbvio por si só Não é óbvio, nem sequer existe, nem fez parte do sonho. Claro que faz. Mas é tão custoso admitir que temos algo que não sabemos em nós. Assim, é difícil admitir que aquele sonho foi por ciúme E inveja simultâneas de tal pessoa. Ou que é preciso morrer para recomeçar (em sentido simbólico, claro). Ou que desejávamos mesmo sentir ódio de fulano e que no sonho foi inevitável matá-lo.


Por outro lado, sabemos que temos algo desconhecido em nós. Afinal, é fácil reconhecer que não escolhemos os conteúdos dos nossos sonhos. Portanto, eles só podem acontecer por motivos desconhecidos por nós mesmos. Mesmo assim, é custoso.


Reconheço e respeito as dificuldades de admitir que algo foge em nós mesmos do nosso controle. Mas é que hoje... hoje acordei poeta. E por isto acordei apostando que os sonhos farão o trabalho de nos mostrar que não nos governamos nem a nós mesmos.


E com sorte, poderemos encará-los com a mesma coragem e medo que tem feito esta pessoa que admiro.