sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Maluquices Apaixonantes



Entrei no bar e logo vi o sujeito com camiseta da seleção brasileira. Era dia de jogo de futebol e este cara estava ali do lado de fora. Jogava bola sozinho no meio da rua e passava a impressão de ser contratado pelo bar para atrair clientela. Nem pense em mostrar cartão vermelho para ele que ele xinga o juíz e apronta maior bafafá, alguém me sussurrou quando viu que eu olhava para ele fixamente. E na seqüência disse que Ele era um louco que cada vez que tinha jogo da seleção ele ia para um bar e fazia exatamente aquilo. Detalhe: nunca falava. Mas todos o compreendiam.



Minas Gerais é mesmo um estado de se apaixonar por ele. As coisas mais maravilhosamente apaixonantes do mundo acontecem naquele pedacinho de terra que toda a Terra morre de inveja. Este rapaz aí em cima joga um bolão, mesmo sem a bola e sem outros jogadores, mas a cidade o trata com uma certa ambigüidade de compaixão e esquisitice. Ora dão água, ora dão risada, mas o fato é que se você já foi para Minas, já se apaixonou pelas histórias de lá.

Já ouviu falar do casal pobre que virou rico? Tá, tá, isso tem em todo o lugar. Mas ele, engraxate de profissão e até mesmo certo gosto e orgulho em ver seu trabalho bem elaborado, conseguiu uma chance com um tal que tinha codinome Voltaire. Este último não era aquele iluminista de outrora, mas as circunstâncias mostrarão como o Voltaire mineiro iluminou a vida do engraxate. O cara estava, como ele mesmo quis acreditar, na pior. A mulher engravidou e com o salário de engraxate não ia ter jeito. Mas, como ele quis logo em seguida acreditar, não estava na pior. Filho é filho, lindo de nascença e agraciado pelo meu estado mineiro, vou arrumar um emprego de oportunidades melhores. E Voltaire foi o iluminado, iluminista, que acreditou nele. Deu o emprego. E deram, ambos os quatro, Voltaire, Pai, Mãe e Filha, que mais tarde se soube ser menina, a volta por cima. Meus caros (e raros) leitores. Se vocês ouvissem a história como eu ouvi teriam sentido seus olhos pesarem ao mesmo tempo que os meus.

Entre os mais abastados também existem histórias. Alguns contam que nos meandros de um casamento que se dizia findado, mas ainda persistindo oficiosamente, ficou decidido que botariam fim ao relacionamento de fato e definitivo. Foram ao advogado e levantaram aquele sem número de propriedades. Irrelevante, como se poderá ver. Aquele advogado que era responsável por este divórcio era também responsável por outros. E estavam os dois ainda esposos na sala de espera. Chegou um rapaz, também para se divorciar. E é que o primeiro contou para o recém chegado como se sentia. Sabe quando o gado está no matadouro, na fila do matadouro, e sabe que vai morrer, mas a fila só anda para frente e não tem mais o que se fazer, então, este sou eu. A mulher se segura para não rir. Precisa mesmo segurar, porque rir seria o flagrante de si mesma. Seria o flagrante de que ela se apaixonou outrora por um sujeito excentríssimo e que seu ódio, agora desesperadamente inútil, não mais agüentava permanecer traído pelo fato de que ela acabara de se apaixonar novamente. Nem uma palavra o ainda esposo trocou com a ainda esposa. Entraram na sala do advogado. O papel estava pronto. Amigável, dizia o advogado, Sem problemas. Ela se segurou na cadeira, respirou fundo e até se contorceu. Era somente aquele instante e quando a tinta estivesse ali, naquela linha que abaixo continha o nome dele, estaria acabado. Precisaram ir ao extremo, chegaram ao limite mais profundo do teste de suas próprias convicções e disputas pela razão. E aconteceu que a linha, sedenta, não ganhou o gole de tinta que lhe seria de direito caso a paixão não existisse. Ele soltou a caneta, cruzou os braços e falou, Não, não sou a vaca e nem sou obrigado a assinar, quero ver quem vai me obrigar, não assino, não assino, Mas foram vocês que quiseram, separação amigável, dizia o advogado, Mas eu não sou obrigado a assinar nada, que bobeira, e que se for para terminar mesmo que eu seja obrigado a isto, porque a assinar eu não o sou. Cabeças duras os destes ainda hoje perdurantes esposos. Ele, ainda excentríssimo, apaixonado, e ela ainda apaixonada, apaixonada. E eu, mais uma vez, chorei.

Nos bares, soube de um sujeito meio diferente que ouve rock que foi ao mais badalado sertanejo com a namorada. Só porque ela gostava. E lá, ouviu com calma a tudo o que ela se lamentava depois de um dia cheio de preocupações. Mas lá neste bar, um amigo encontrou outro que era de outro estado. Brindaram o melhor motivo do mundo: encontrarem-se na melhor terra e compartilharem as melhores histórias. Num outro restaurante a mulher chega até a mesa para servir os clientes. E um deles pede suco de morango. Suco, suco, com água, ela pegunta, Sim, suco, suco, com água. Olhava ele para o cardápio até ela dizer Você já tomou o suco de morango daqui, Não, e olhou para ela atentamente pela estranheza da pergunta incomum, É que o suco daqui é aguado, o de morango tem que ser com leite, É só colocar mais fruta, ora, É que tem medida, É só mudar a medida, Mas não dá e o chefe pediu para avisar que era assim. Os paulistas se contorcem de falta de paciência com tal situação, mas é que em Minas não tem como tratar fatos deste porte sem amor. Porque apesar de a razão nos mostrar que certas coisas parecem óbvias demais, a emoção que se desloca por baixo dos sentidos da pele faz com que tenhamos a mesma ternura com que somos tratados pela atendente que nos diz, carinhosamente, que seu chefe assim o quis. E nenhum tipo de conflito se cria. Apenas pedimos outro suco. E aqueles que querem morango com leite podem ficar, desta forma, sossegados de o terem a tempo e a hora. E, ao fim, já quando nem mais se pensa sobre o assunto, ela pede desculpas por aquele suco que já nem fazia mais diferença.

Pão de queijo! Família... Fim de semana. E as risadas não cessavam. Alguns começaram a falar sobre o movimento helicoidal envolvido na construção da peça que compõe o cabeçote de um rolamento. Mas é que o resultado senoidal dos gráficos não poderiam resultar em desacordo entre a teoria de Darwin e Einstein, porquanto não fosse entendida sob o ponto de vista de Voltaire. E é somente a partir desta última perspectiva é que a realidade da antiga tribo Tchangulli se tornou obtusa. E riam. E o Voltaire voltou para a cena. Em outra história. Outro momento. Não chorei enquanto me divertia com as maluquíssimas histórias construídas na mais pura livre associação em mesa de grande família.

Mas é certo que chorei ao ir embora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário