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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Autocontrole

Notas do escritor:
Texto proibido para menores.
Não sou adepto ao suicídio.
Não sou adepto às críticas aos homossexuais.
Não sou adepto às políticas do medo.
Use o texto com responsabilidade literária.

Não me responsabilizo pelos seus atos! Não diga, frente aos juízes, que matou John Lennon por conta do meu texto ("O apanhador no campo de centeio") ou que imaginou que estava jogando GTA enquanto atropelava alguém.


Em parte inspirado em O homem de areia, de E.T.A. Hoffmann, 1815.


 


 


Hoje foi daqueles dias típicos. Pouca novidade quanto ao que pouco poderia acontecer no dia. Pouco porque em termos gerais as tarefas diárias me são mesmo poucas. Apenas trabalhar, organizar a casa para o dia seguinte e descansar. O trabalho, o de sempre. Nem vejo como poderia ser muito diferente de ontem o trabalho de digitação de contratos para uma empresa de eletrônicos. Pega o nome, digita, copia, cola, cola, cola, 8 vezes, o cnpj, copia, cola, cola, inscrição estadual, copia, cola, cônjuge, copia, cola, local e data, copia, cola, cola, imprime, 2 cópias, próximo contrato. Repita isto várias e várias vezes e no final do mês lhe depositarão cerca de oitocentos ou novecentos reais.


Você nem precisa conhecer seu chefe.


O meu nem tem cara.


O problema de sistematizar demais o trabalho é que depois que você acostuma, pode pensar em outras coisas enquanto trabalha. Sem novidades significa pensamentos. E eles, já que não têm novidades, são os mesmos de sempre.


Lembro-me daquela desgraçada que me largou há um ano atrás. Pudera, só porque não morávamos na mesma cidade. O que será que está fazendo hoje? Dando para outro, na certa. Cretina.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: delete um contrato importante.


Pelo menos a raiva diminui. Mas ainda não resolvi o problema, porque amanhã acontecerá de novo a mesma coisa. E lá se vai outro contrato importante. Ainda bem que nem conheço meu chefe, ou estaria encrencado.


Volto à digitação. Entre os contratos a serem digitados aparece a Jiowanna. Nome estranho? Ainda não viu nada. Pelo menos este é pronunciável e me lembra uma outra namorada, um pouco mais antiga. Esta sim pude amar, compartilhar todos os meus defeitos, ódios, medos e frustrações. Pena que me largou no altar. Não seria para menos, já que me pegou na cama com outra apenas dois dias antes. Ainda que tentou me perdoar, mas a pressão dos olhos atentos naquele que deveria ser o momento de felicidade de sua vida a fez desistir. Cheguei a duvidar que a amava, já que a traira. Ctrl+z. Errei um colar.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.


Mas ainda estou vivo e preciso imprimir mais um contrato. Clica, clica, 2, imprime, espera, grampeia, grampeia. Juntar de maneira permanente... isso me lembra... que... Nossa! Eu estou namorando e nem liguei pra ela ontem.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: invente uma boa desculpa.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: treine mentalmente antes de dizer.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: acredite nela. Na mentira, claro.

Alô, estou no trabalho, não, acho que não vou para a sua casa hoje, ontem não te liguei, acabou a bateria, eu sei que tenho cabeça oca, mas fazer o quê, também estou com saudade, amanhã a gente vai no cinema, beijo. Esta eu nem gosto tanto, mas ela é tão boa comigo que estou pensando em deixar como está por um tempo. Até ela vir e reclamar. Na terceira reclamação eu termino. É assim, temos que nos impor regras a nós mesmos para que possamos nos controlar. Mas nunca as sigo.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na mão: Terminar com ela.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na testa: Terminar com você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: compre um colete que proteja de balas e um capacete para mesmo fim.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva neles: Terminar com você.

Talvez eu não tenha mesmo seguido nenhuma regra minha até aqui. Só as inúteis.


Certa vez comprei um fone de ouvido só porque prometi que se estivesse por cinco reais eu compraria. Quanto custa? Cinco reais. Eu levo.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa que nunca mais prometerá nada.


Mas não funciona. Hoje cheguei em casa e prometi que nunca mais ia enloquecer. E quando dei por mim estava pelado na rua correndo e nem era na rua de casa. Na verdade, nem sei aonde era. Sei que acordei em casa, na minha cama. E não era sonho porque eu estava pelado, com os pés sujos e tinha até um chiclete nele.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa sempre o contrário daquilo que pensar.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometi não prometer, não poderia ter prometido não prometer, então ainda é possível prometer. Prometa o quanto quiser.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometer não enlouquecer, coloque um chinelo, ao menos.

Merda não é exatamente o palavrão que me vem em mente quando sinto que, depois de acordar, pisei no mesmo chiclete que achei que tinha sonhado.


Levantei de súbito e gritei feito louco. Subi pelas grades da janela fazendo questão de deixar o rastro de sujeira por ali. Corri até a porta gritando Vizinho do caralho, vou te matar e quando cheguei até a porta vi o vizinho. Pulei em seu pescoço e o vi ficar roxo. Não lembro bem que tonalidade era aquela, mas quando me tiraram da garganta dele ele estava era mais para lilás. Vai saber, sangue ruim é assim mesmo.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: carregue sempre uma arma para seus acessos de loucura.


Minha frustração foi não tê-lo matado. Virei-me e vi que o filho da puta que me segurava era um vizinho que morava com aquele que eu quase matara. SEU LOUCO, gritei. NÃO!!! VOCÊ É BICHA, VEADO, CORNO E AINDA MAL AMADO POR UM CARA QUE QUASE MATEI! Todos os vizinhos saíram na rua.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: para chamar a atenção, grite.


E dei-lhe um soco direto no queixo. O sujeito, sem jeito, tentou revidar, mas corri. Não de medo. Mas de ódio. Do quê? Não sei... acho que corri para descobrir. Voltei para dentro do quarto e todos entraram atrás de mim. Alguns ainda tinham esperança de me conter. Em vão. Eu corria mais e dava mais tapa na cara que todo mundo ali. Abri minhas gavetas cheias de fotos de namoradas antigas. Por que não as  joguei fora antes? Por quê? De novo, senti ódio de todas. TODAS, gritei.


Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: sempre jogue as fotos das ex-namoradas fora.


Me contaram que a polícia me conteve. Por sorte, dó ou medo, ninguém deu queixa dos acontecimentos.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: deixe que todos tenham medo de você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.

Alguém, provavelemente um amigo, me diz para me tratar. Diz que minha mãe não me ama. Diz que acha que é por isto que tenho problemas com minhas namoradas. Diz que acha que estou exagerando e que deveria me desfazer das fotos. Diz que falta de amor materno não é desculpa para nada.



Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate seu amigo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate sua mãe.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate suas namoradas.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Curinga, Todd, Amor, Ódio e Freud

Para os que ainda não puderam conferir o novo filme do Batman, o cavaleiro das trevas, não percam. Mas reparem. O Batman não é o ator principal do filme. Aliás, ele chega a apelar várias vezes para filmes do 007 em momentos absolutamente dispensáveis. 007 tem clima para um agente absurdamente irreal. Batman perdeu a graça usando este tipo de cena. Não porque são chatas. Não são. Mas é que ele só faz isto. Já o Curinga...


Desempenhou mesmo um papel difícil, o ator. E mostrou para o que veio. Pegou o espírito da coisa e foi a fundo no personagem. Resultado, um Curinga extremamente sincero para com o seu papel. Em ritmo enlouquecedor para quem assiste (agora se imagine interpretando o personagem), põe em ação tudo o que irá acontecer durante o filme. Quer ver maldade? Veja o novo filme do Curinga.


Maldade por maldade, me lembrei do Sweeney Todd várias vezes enquanto assistia o novo Batman. É que o Curinga e o Todd têm lá suas diferenças. Ambos abusando de maldade, claro. Mas o Todd tinha um, por assim dizer, motivo. O Curinga, aparentemente, não.


Todd volta depois de longo período recluso de sua cidade para se vingar daquele que matou sua família. Não estraguei nada do filme até aqui, para quem ainda não viu. Isto que contei são apenas os quinze primeiros minutos. Cenas teatrais, filme musical, mas nem um pouco cansativo. Muita crueldade e meticulosidade movem o barbeiro a cada novo treino para sua vingança maior. Não quero contar mais sobre o filme. Dizem que o ódio cega.


Mas também dizem que o amor cega. Ou é cego.


Então, como enxergar?


Outro dia, um grande amigo de longa data esteve me contando sobre as dificuldades de dirigir seu carro. É que ele é quase cego de um olho. Esteve me explicando que perde a noção de profundidade quando se enxerga somente com um olho. Um professor que tive na faculdade já me alertara, Se você acha que dois olhos apontando para o mesmo lugar e o dedo polegar não fazem diferença para a evolução, experimente fechar um olho, amarrar o dedão e pular para agarrar um galho de árvore. Mesmo assim, tentei. Dirigi com um olho só aberto durante alguns segundos. Me convenci logo que chegou a primeira curva e o primeiro carro. Faça isto somente a baixas velocidades, não quero ninguém me culpando por seus próprios acidentes.


Voltando ao assunto, se o ódio cega e o amor também, mas nem por isto deixamos de enxergar certas coisas apenas porque estamos em estado de ódio ou amor, estes sentimentos devem cegar um olho só. O Todd não deixou de ver o alvo de sua vingança. E o Curinga... bom... eu diria que não deixou de enxergar o alvo de seu amor. Estranho?


Certa vez, Calligaris nos sugeriu que a melhor maneira de amarmos ou sermos amados é quando o parceiro se torna um enigma. E o Batman acha o Curinga um verdadeiro enigma. Que esta seja a última vez que falo do Batman. É que sua autonomia no filme é tão pequena que quem alerta o herói que seu vilão é um enigma é o seu mordomo. E mesmo o Curinga acha o Batman um enigma, já que quer descobrir a verdadeira identidade de seu rival mascarado. E estranhamente, um nunca mata o outro. Isto me lembra inúmeras músicas estilo Entre tapas e beijos.


Todd é cruel. Mas é uma pena. Se eu pudesse reescrever aquele final, eu certamente tiraria o clima de Moral da história que ele contém e substituiria por algo realmente cruel. Porém o filme não perde seu brilho. Todd esteve cego do olho do amor, que o ódio lhe cegou. Não esteve ausente de realidade, só a enxergou por um ângulo sem profundidade.


Curinga, por outro lado, impecavelmente louco, tem o olho do ódio cego. E só ama seu rival. Jeito esquisito de amar, é verdade, mas talvez a loucura dele esteja no fato de amar estranho e não em matar. Matar é quase conseqüência. Outro dia, e digo isto mais uma vez, falo sobre o amor. Se ele fosse simples, não existiriam poetas. E nem seriam contraditórios. Voltando ao Curinga, ele se mostra lúcido demais em duas passagens. Uma, diz ao herói Não quero matá-lo, só desmascará-lo. Entre tapas e beijos me vem em mente. Outra, A loucura é que nem a gravidade, basta dar um empurrãozinho.


Entre um e outro estamos nós, espero. Ora nos cegando de um olho, ora de outro. Jamais estamos sãos e sabemos disto, pois reconhecemos abertamente que o ódio cega. E o amor também.


Como enxergar? Não negando nem um nem outro. E nem que tanto um quanto outro podem ser construtivos e destruitivos. Problema é que para enxergar com os sentimentos não existe nem fórmula nem órgão corpóreo específico. Todd deu o jeito que conseguiu (ou pôde) dar. Curinga também.


 


P.S.: Freud nos alertou várias vezes que em nossa normalidade somos loucos. É que nunca tinha citado ele assim, abertamente. Fiquei com vontade de creditar algo àquele que intitula este site. Leiam a Conferência XX de suas Obras Completas.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sobre a verdade

Quando ouvi esta frase eu assistia televisão em um lugar que dava para ouvir conversas vindas da rua. Daí comecei a ouvir tudo repetidamente três vezes. Eu ainda não tinha enlouquecido, porque minha mãe também estava ouvindo estas vozes. Até que do outro lado do portão ouvi Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta para mim. Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta pra mim. Aqui é o José Carlos.... Biagioti, tia. Abre a porta p'mim.


Vai saber o que me moveu no sentido de abrir a porta, porque já em primeiro alarme fui avisado que seria melhor não ir até lá, Vai que ele está com um pedaço de pau na mão, bêbado, e pega você de surpresa, este foi o sábio aviso de minha mãe. Mas é que a mãe, este lado oraculoso de nossas mães, mesmo tendo razão, sempre é ouvida depois que tudo acontece. O oráculo do Édipo rei foi a mesma coisa. Só fizeram algo depois que já era tarde. Por que eu seria diferente, me perguntei.


Com o que restou de sobriedade em mim, ouvi minha mãe quando me disse para dar a volta e ir pela porta dos fundos. Mal sabia eu que teria um encontro implacável com uma verdade que não sossegaria até que fosse dita de maneira completa, clara. Subi pela rampa de acesso que leva aos fundos e dei a volta na casa, indo para o portão, desta vez do outro lado dele. Vi de longe um alguém sentado e de costas. Estranho que a verdade se nos apresenta primeiro de costas e só aos poucos se nos mostra.


Quando se virou, não se apresentou logo, claro, o que mais esperar da verdade. Eu que tive que lhe fazer as perguntas. Você, está bem, quer água ou precisa de algo. Nada de respostas. Quando se dirigiu a mim disse Sou o José Carlos Biagioti, eu vim buscar meus documentos com a minha tia que mora nesta casa, e apontou para a minha casa. Claro que esta não era a verdade. Repetiu mais duas vezes para ver se eu acreditava. Resolvi acreditar.


Perguntei o nome de sua tia. Sem resposta. Em vez disto, ouvi três vezes Eu vim da guerra mundial do Brasil, em Ribeirão Preto, eu sou polícia. Guerra mundial do Brasil, aqui em Ribeirão, e quem mais esteve nesta guerra, perguntei, Só eu, matei todos os estrangeiros, Tinham estrangeiros em guerra aqui, eu quis saber, Alemães, ingleses, americanos, franceses, tinha até japonês, Nossa, e como você fez isto sozinho. Silêncio. A verdade não se revela assim tão fácil, às simples perguntas.


Mas interessante que as duas repetições além da frase original pararam. Acho que parou de tentar me convencer. Teria que revelar a verdade por outra via. E como não respondeu à última questão para não se revelar simplesmente quando lhe fosse requisitada, resolveu mudar a abordagem.


Todo mundo é inimigo, e eu sou tenente coronel, sou da polícia, a guerra mundial do Brasil acabou, foi lá em Ribeirão, e todo mundo é inimigo. Resolvi oferecer mais água. Ribeirão Preto, neste dia, estava marcando quarenta e dois graus celsius. De verdade. Ignorou.


Você é meu inimigo, eu mandei você me matar, E por que eu faria isto, Porque você é inimigo, Ora, mas você pode até se dizer meu inimigo, mas veja, não estou tentando lhe matar, quero lhe ajudar, estou oferecendo água. Reparei que o cigarro apagado em sua mão tremia muito e ele se esforçava por tragar em vão. Aquele homem devia ter uns 50 anos, aproximadamente. Semblante cansado, respiração difícil e bastante trêmulo. Mas não hesitava em andar em baixo de sol pleno. Era aproximadamente 15h. Simplesmente ia. E se encostava na parede enquanto estava sentado. Era assim que o tinha encontrado.


Ei, eu estou reconhecendo você, você é meu filho, disse ele, E como eu me chamo, retruquei, Não lembro, E qual a minha idade, Uns 20 anos, e você vai me levar para casa, minha tia está me esperando com meus documentos, Mas se sou seu filho, eu que moro na sua casa e não o contrário, Não, você vai me levar para casa e me oferecer um café à sua mesa, Já lhe ofereci água, mas se quer um café lhe trago, você pode esperar, perguntei, Eu não, você é meu inimigo.


Inimigo por quê, perguntei, Porque você estava na guerra mundial de Ribeirão Preto, a cidade que eu construí, E destruiu na guerra, perguntei. Silêncio. E você ia me matar, Acho que não, você não me é inimigo, ao contrário, estou lhe tratando como amigo. Sua expressão mudara e pela primeira vez me olhou nos olhos. Pediu com os olhos que eu lhe repetisse a última frase, como ele mesmo o fazia quando queria me convencer, no início de tudo. Desta vez eu teria que convencê-lo. E olhando em seus olhos disse novamente Para mim, você é amigo. Estendeu a mão e esboçou um aperto de mão. Dei-lhe a minha mão. Foi a única vez que o vi sorrir. Se levantou animado, querendo ir para casa. Pois vá, estarei aqui para quando quiser ajuda, Oras, me arrume um copo de água, Quer um fósforo, perguntei. Silêncio.


Voltei com uma garrafa de dois litro de água e uma caneca. Só que o encontrei dormindo. Ainda na ânsia de cumprir minha palavra, resolvi que ia buscar uma garrafa menor e deixar a água ali, para quando acordasse. Aproveitei e peguei uma caixa de fósforo. Quando voltei, ele  estava sentado já acordado. Não se lembrou de seu filho até que eu lhe dissesse que era seu amigo, não inimigo. Então, de repente, quase sem sentido, ele me disse a verdade! Na cara! Aquelas palavras não poderiam ser mais sábias. Fiquei sem jeito. Andei meio de lado. Ressabiado, sorri e só pude dizer Oras, pode ser. Tomou água com toda a certeza de que era a melhor parte do seu dia. Lembrei do relógio marcando quarenta e dois graus. Terminou sua água, não quis ficar com a garrafa, pegou a caixa de fósforo e fumou o que restava do cigarro apagado em sua mão. Ainda me disse que matou muitos inimigos e que vinha da guerra mundial do Brasil. Falou algo sobre voltar de avião para a casa do próprio pai. Sem mais nem menos, se levantou e foi embora.


Fiquei pasmo. A verdade me fora revelada, sem custo, sem dor. Tudo o que precisei fazer foi dizer que era sua amiga. E não se engane com aparências, a verdade se revela por entre as mentiras que contamos. Em verdade, nenhuma mentira é mentira, ao contrário, é verdade pedindo gentilmente por ser revelada. Mas aquela verdade... minha mãe me avisou para não ir lá, eu iria levar uma paulada. O que ele me disse foi... Você é louco, pois está conversando comigo. Louco.