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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Curinga, Todd, Amor, Ódio e Freud

Para os que ainda não puderam conferir o novo filme do Batman, o cavaleiro das trevas, não percam. Mas reparem. O Batman não é o ator principal do filme. Aliás, ele chega a apelar várias vezes para filmes do 007 em momentos absolutamente dispensáveis. 007 tem clima para um agente absurdamente irreal. Batman perdeu a graça usando este tipo de cena. Não porque são chatas. Não são. Mas é que ele só faz isto. Já o Curinga...


Desempenhou mesmo um papel difícil, o ator. E mostrou para o que veio. Pegou o espírito da coisa e foi a fundo no personagem. Resultado, um Curinga extremamente sincero para com o seu papel. Em ritmo enlouquecedor para quem assiste (agora se imagine interpretando o personagem), põe em ação tudo o que irá acontecer durante o filme. Quer ver maldade? Veja o novo filme do Curinga.


Maldade por maldade, me lembrei do Sweeney Todd várias vezes enquanto assistia o novo Batman. É que o Curinga e o Todd têm lá suas diferenças. Ambos abusando de maldade, claro. Mas o Todd tinha um, por assim dizer, motivo. O Curinga, aparentemente, não.


Todd volta depois de longo período recluso de sua cidade para se vingar daquele que matou sua família. Não estraguei nada do filme até aqui, para quem ainda não viu. Isto que contei são apenas os quinze primeiros minutos. Cenas teatrais, filme musical, mas nem um pouco cansativo. Muita crueldade e meticulosidade movem o barbeiro a cada novo treino para sua vingança maior. Não quero contar mais sobre o filme. Dizem que o ódio cega.


Mas também dizem que o amor cega. Ou é cego.


Então, como enxergar?


Outro dia, um grande amigo de longa data esteve me contando sobre as dificuldades de dirigir seu carro. É que ele é quase cego de um olho. Esteve me explicando que perde a noção de profundidade quando se enxerga somente com um olho. Um professor que tive na faculdade já me alertara, Se você acha que dois olhos apontando para o mesmo lugar e o dedo polegar não fazem diferença para a evolução, experimente fechar um olho, amarrar o dedão e pular para agarrar um galho de árvore. Mesmo assim, tentei. Dirigi com um olho só aberto durante alguns segundos. Me convenci logo que chegou a primeira curva e o primeiro carro. Faça isto somente a baixas velocidades, não quero ninguém me culpando por seus próprios acidentes.


Voltando ao assunto, se o ódio cega e o amor também, mas nem por isto deixamos de enxergar certas coisas apenas porque estamos em estado de ódio ou amor, estes sentimentos devem cegar um olho só. O Todd não deixou de ver o alvo de sua vingança. E o Curinga... bom... eu diria que não deixou de enxergar o alvo de seu amor. Estranho?


Certa vez, Calligaris nos sugeriu que a melhor maneira de amarmos ou sermos amados é quando o parceiro se torna um enigma. E o Batman acha o Curinga um verdadeiro enigma. Que esta seja a última vez que falo do Batman. É que sua autonomia no filme é tão pequena que quem alerta o herói que seu vilão é um enigma é o seu mordomo. E mesmo o Curinga acha o Batman um enigma, já que quer descobrir a verdadeira identidade de seu rival mascarado. E estranhamente, um nunca mata o outro. Isto me lembra inúmeras músicas estilo Entre tapas e beijos.


Todd é cruel. Mas é uma pena. Se eu pudesse reescrever aquele final, eu certamente tiraria o clima de Moral da história que ele contém e substituiria por algo realmente cruel. Porém o filme não perde seu brilho. Todd esteve cego do olho do amor, que o ódio lhe cegou. Não esteve ausente de realidade, só a enxergou por um ângulo sem profundidade.


Curinga, por outro lado, impecavelmente louco, tem o olho do ódio cego. E só ama seu rival. Jeito esquisito de amar, é verdade, mas talvez a loucura dele esteja no fato de amar estranho e não em matar. Matar é quase conseqüência. Outro dia, e digo isto mais uma vez, falo sobre o amor. Se ele fosse simples, não existiriam poetas. E nem seriam contraditórios. Voltando ao Curinga, ele se mostra lúcido demais em duas passagens. Uma, diz ao herói Não quero matá-lo, só desmascará-lo. Entre tapas e beijos me vem em mente. Outra, A loucura é que nem a gravidade, basta dar um empurrãozinho.


Entre um e outro estamos nós, espero. Ora nos cegando de um olho, ora de outro. Jamais estamos sãos e sabemos disto, pois reconhecemos abertamente que o ódio cega. E o amor também.


Como enxergar? Não negando nem um nem outro. E nem que tanto um quanto outro podem ser construtivos e destruitivos. Problema é que para enxergar com os sentimentos não existe nem fórmula nem órgão corpóreo específico. Todd deu o jeito que conseguiu (ou pôde) dar. Curinga também.


 


P.S.: Freud nos alertou várias vezes que em nossa normalidade somos loucos. É que nunca tinha citado ele assim, abertamente. Fiquei com vontade de creditar algo àquele que intitula este site. Leiam a Conferência XX de suas Obras Completas.