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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Keane e meus pensamentos

"Alguns não conseguem se libertar dos seus próprios grilhões, mas conseguem libertar os amigos."


Nietzsche


 


"Quando nos apaixonamos


Apenas nos apaixonamos


por nós mesmos."


Keane


 


O recém lançado Cd do Keane, Perfect Symmetry, é, além de imperdível, um convite ao envolvimento. Para gostar de Keane é necessário atentar para o esquema musical, que muito me lembra o eletrônico oitentista que ouvia enquanto ainda era criança. A abertura, Spiralling, já deixa isto claro logo.


Como já disse, o Cd é imperdível. Mas Spiralling me fez ter um enorme devaneio. Isto devido à criatividade de sua letra. É que em certo momento ela, a música, nos diz Cold like some magnificent skyline, out of my reach but always in my eye line (Frio como alguns horizontes magníficos, fora do meu alcance mas sempre em minha vista, em tradução livre). Além de poética, pensei sobre a psicoterapia.


De fato, nossos horizontes são alheios ao nosso toque. Temos que observá-los, mas jamais poderemos tocá-los. Mas é que outras pessoas podem tocá-lo. Basta que se localizem no horizonte e nós lhe daremos o sinal para abaixar e... pronto! Nosso horizonte está ao alcance de outros.


O psicoterapeuta é, em tese, um destes que se propõe a tocar horizontes alheios. Sempre se lembre do que Nietzsche nos disse sobre libertar os outros e nós mesmos de seus ou nossos grilhões. Nem sempre podemos nos libertar. Talvez porque Keane tenha razão: não nos é possível a nós tocarmos nossos próprios horizontes.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Dave Matthews, Ben Harper, About us e esperança

Esta semana resolvi inaugurar uma categoria nova no blog. Já escrevi outras vezes sobre música, mas agora resolvi que terei um espaço para ela por aqui. É que este fim de semana assisti um show memorável da Dave Matthews Band, conhecida também por suas iniciais DMB.


Em sua turnê pelo Brasil neste 2008 já esteve em Manaus e em São Paulo e estará hoje, 30/09, no Rio de Janeiro. A julgar pelo show de São Paulo, será imperdível.


Aproveito para prestar uma homenagem a LeRoi, recentemente falecido e ex-saxofonista da banda, e para lembrar que os músicos da banda se apresentaram de preto.


Sobre a música, Dave e banda estiveram impecáveis com improvisos que são de seu costume e sem repetir set list. Os shows de Manaus e São Paulo variaram músicas e versões e o público do Rio pode esperar o mesmo. Torço para que a homenagem para o LeRoi dê certo lá. Ela está sendo organizada pela DMBrasil, um site brasileiro sobre a banda que acompanho há 7 anos, desde que ele existe.


O show foi feito em um festival de música que ainda compareceram, para citar alguns, o Ben Harper, Seu Jorge e Vanessa da Mata. O festival leva o nome de About us e foi, afora os imperdíveis shows, uma das coisas que me chamou a atenção. Já ouviu falar em evento ecologicamente sustentável?


Pois bem. Ingenuidade seria se eu acreditasse que os presentes quisessem limpar o planeta. Não queriam. Estavam todos ali para ver as bandas. Mas é que mesmo assim, pude presenciar cenas raras. Um evento com trinta e cinco mil presentes e pouquíssima sujeira no chão ao fim da festa. Quase não era possível achar uma bituca de cigarro. Organização do evento?


Sim e não. Claro que a preocupação deles com o bem estar do planeta foi determinante. Mas mais do que isto, idéias realmente simples fizeram a sujeira ser reduzida. Bituqueiras de cigarro eram gratuitamente distribuidas e feitas de materiais já reciclados. Grandes latas de lixo perto de locais imprescindíveis. E muita propaganda no telão. Em verdade, a propaganda no telão só me chamou a atenção pelo fato de que ninguém dava bola para ela. Há muito já me convenci de que se conscientização fosse suficiente, a humanidade já teria se salvado. Como assim?


Desconheço qualquer pessoa que não tenha vícios. Em absoluto. Não raro ouço que Sou viciado em pizza, I'm addicted to Simple Plan, Não consigo parar de mexer a perna, Fumar é meu vício, Não consigo parar de mentir, Não sei porque, mas café... não passo sem. E é este Não sei porque que vai me ajudar a responder a pergunta acima, Como assim, para o porque de a conscientização não salvar a humanidade.


Não sei porque sempre surge, reparem, para coisas que, mesmo que usemos a consciência, não conseguimos fazer diferente. Assim, o sujeito pode ter vários problemas sérios de estômago ou pulmão e ter sido alertado diversas vezes para parar de beber café ou fumar que ainda assim achará bons argumentos para manter-se na mesma situação anterior. Pois é, há muito Freud nos alertou de que não temos em nós mesmos o controle sobre nós. Uma maneira simples de vê-lo falar disto é ler as Cinco lições de psicanálise. Os exemplos que dou aqui são bastante simples comparados aos que ele dá nos textos, mostrando de maneira fácil que, em verdade, não nos governamos.


Não que as esperanças acabaram. E a About us me relembrou que não acabaram mesmo. Mas é que ainda teimamos que o simples conhecimento de algo nos tornará imunes a ele. Quer ver?


Frases recorrentes em minha vida de psicólogo, Você tem que se tratar, como vai conseguir tratar dos outros sendo louco, Você que sabe bem disto, não poderia agir assim, Como é que você, um psicólogo, pode pensar assim, Isto é repressão e você deveria saber disto. Para todas estas frases, duas coisas. Psicólogo não deixa de ser um humano. E o mais importante para este texto, também não sabemos porque fazemos certas coisas, justamente pelo fato de sermos humanos. Por isto, apenas saber não salva a humanidade.


Mas não temos controle sobre nós e a esperança por um mundo melhor não acabou, como ela se sustenta?


Pois é, como? Não sei. Posso arriscar que seja o amor, o trabalho, a cooperação, a arte... Esta tal esperança nos ocorre, também, fora dos limites de nossa vontade. E apesar de eu ter ouvido de todos que os vídeos sobre ecologia estavam uma chatice e todos xingarem a mocinha no palco quando falava de evento sustentável, foi um dos eventos mais limpos que já presenciei. A minha esperança veio daí. E de ver artistas de alta qualidade, como Dave Matthews Band e Ben Harper, tocando nossos corações com músicas da mais alta qualidade. E de ver trinta e cinco mil pessoas em favor de se divertir sem, pelo menos que eu tenha visto, nenhuma briga.


E a sua, vem de onde?

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Mudanças


Nós nunca mudamos de fato



 

Coldplay

 
Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo.

 

Lulu Santos / Nelson Motta

 

 

Afinal. Mudamos ou não?

Tudo muda ou não?

sábado, 26 de julho de 2008

Mundo Indie

É sempre tarefa difícil escrever sobre as tendências Indies por uma razão mais ou menos simples. É que quase qualquer coisa pode ser Indie.


Vamos ao termo. Indie é uma abreviação inglesa para Independent, que traduzido signfica Independente. O movimento Indie, ou os movimentos Indies, se expande por todo o ramo da arte e ganha em cada uma delas uma subdivisão, história, influências e tendências. E para ser Independente é preciso que não seja, por exemplo, como a Mariah Carey que tem a obrigação de vender X milhões de dólares por disco, gravar há cada Y espaço de tempo músicas que não são feitas por ela ou quando são têm que seguir um certo formato. Entremos, já que este virou o assunto, na música.


Formato é a palavra chave para a questão do que é ou não Independente. Os Independentes não se sentem, ou não deveriam se sentir, na obrigação de seguir este formato. Vantagem é que podem compôr às suas maneiras, com trechos experimentais, dissonâncias, alternância de volume ou qualquer coisa que perpasse o momento artístico de quem compõe. Desvantagem é que nem tudo é audível.


Já nas músicas, por assim dizer, Dependentes, isto se torna mais fácil de resolver. Poucas ousadias e muita repetição do mesmo são peças chave para a manutenção destes estilos. Assim, por mais que a Britney Spears se esforce ao máximo por ser diferente da Madonna sua música sempre terá o mesmo teor musical, os mesmos tipos de efeito, a mesma quantidade silábica, os mesmos apelos sexuais.


A única chance de as músicas, como aqui foram chamadas, Dependentes se modificarem é em função das tendências Independentes. Não que o movimento Indie seja livre de repetições, que não é, mas é o único lugar aonde existe possibilidade de experimentações virem à tona e causar qualquer modificação no estilo musical vigente. Quero dizer que tudo o que é Dependente outrora foi Independente. Isto me causa estranheza.


Porque é precisamente o oposto o que esperamos vivenciar durante a vida. Esperamos que quando bebês sejamos dependentes e quando adultos sejamos independentes. Por que nos movimentos artísticos isto é trocado?


Chega aquela parte em que não posso responder com certeza, apenas por impressões. E também fica aberto para qualquer um que acompanhe estes movimentos que possa dar sua opinião. Mas de repente me ocorreu um texto do Fábio Herrmann, psicanalista brasileiro que morreu há não muitos anos, que diz, já com as minhas distorções, que tudo o que é independente quer voltar ao estado anterior em que ainda era dependente, em que ainda era uno. O texto se chama Pesquisando com o método psicanalítico. Relutâncias dos independentes de todas as áreas à parte, concordo com ele do ponto de vista da psicanálise.


Quero dizer que não é do ponto de vista consciente que queremos voltar a ser dependentes. Não queremos parar de trabalhar e voltar a morar na casa dos pais e ir diminuindo até voltarmos à infância. Ao contrário, queremos poder construir nossas próprias vidas e ter produções próprias e independentes. Mas, independentes de quê?


Certamente não é independente do, em nosso tempo, capital. Se vivêssemos em outras sociedades não seria indepentente, por exemplo, dos bens de consumo dividos por igual, ou do peixe pescado e trocado pela limpeza da oca. Seja como for, as sociedades se organizam sempre, e por isto são sociedades, em grupos de dependência que se forem desfeitos causam problemas sérios ao funcionamento das mesmas. Veja as greves como exemplo. Os correios, quando têm seus períodos de greve, causam maior rebuliço.


Me desculpem todos os que se dizem independentes. Não acredito mais em vocês.


Portanto a saída para que a sensação de independência seja criada é dividir e impessoalizar. Existe o independente financeiro, a música Indie, o escritor independente e os blogs, que têm seguido o mesmo exemplo. Mas se pararem de visitar meu blog, o mais provável é que ele acabe. Isto não é dependência? E para que criamos estes grupos ou sensações de independência?


Agora não consigo pensar em outra coisa que não seja para voltar à dependência. Simples. Ganhamos dinheiro, impessoal e independente, para gastar com nossos vícios, dependências, repetições. Os Indies musicais só existem porque pagamos as entradas dos shows, porque compramos seus discos. Por isto não me estranha que os grandes encabeçadores e financiadores dos movimentos independentes sejam os jovens.


Nunca vi alguém de mais de quarenta anos ouvir discos inteiros do Bloc Party, Interpol, Snow Patrol, Doves. Existem, mas sem dúvida são bandas ouvidas principalmente por jovens. Os jovens estão precisamente na fase de se despregarem de casa, na luta entre a dependência e a independência financeira e talvez por isto apostem tanto nos seus próprios artistas preferidos, independentes e da mesma idade e geração.


Novamente, não são todos os jovens que mantém esta preferência e nem todos os adultos ouvem só Dependentes. Mas é muito provável que quando os jovens crescerem, todas estas bandas que hoje são independentes e experimentais serão as que farão parte das músicas Dependentes. Com um pouco de sorte, as grandes gravadoras se enfraquecerão e selos Independentes ganharão destaque, mas ainda assim as rádios não tocarão os mesmos estilos musicais desta atualidade. Duvida? Então se pergunte o que aconteceu com as músicas eletronicizadas dos anos oitenta. Nossos pais cresceram e o que era independente tomou conta das FM e pouco se ouve Outlets tocando Josi's on vacation far away... I just wanna use your love tonight.


Portanto, ainda mantenho minha concordância com Herrmann. Mas acaba de me ocorrer, e disto me serve escrever, que em certa altura eu escrevi que o movimento Dependente só encontra possibilidade de se modificar em função do movimento Independente. Assim, por mais que o desejo Indie seja voltar a ser Dependente e isto acabe acontecendo de fato nas alternâncias entre as gerações, é esta uma maneira possível de se movimentar, criar, atualizar, desatualizar, mudar, fazer, desfazer. Enfim, se eu pudesse apostar que algo faz diferença, eu apostaria naquelas coisas que não esperávamos que fosse acontecer justamente por ser ela fora de controle, fora da dependência de nossa onipotência.