... sofre. E não é pouco. Depois de assistir Ensaio sobre a cegueira, de Meirelles, ouvi alguns comentários importantes que não poderiam me escapar aos ouvidos.
Entre as críticas estão que É só um filme com um monte de cegos, Não acontece nada ou É só isso, outro pergunta. É. É só isso. É somente a história de como seria a humanidade se ficássemos cegos. Nenhum espanto mesmo. No fundo, conhecemos bem o nosso lado animalesco, bem caracterizado pelo filme. E também não me parece espantoso que já vivamos em sociedade similar. Concordo com o outro, é só isso. Só um filme sobre um monte de cegos.
Os comentários mais otimistas, que tentam compreender por outro ângulo o filme, diziam Puxa, eles se organizavam em sociedades como a nossa, Fica clara a relação de poder entre os homens, Estou cego. Mesmo nestes comentários, ainda é só isto... uma história óbvia sobre nós mesmos. Isto é uma crítica negativa?
Não. O filme é excelente e muito fiel ao livro. Fiquei com a sensação de estar relendo enquanto assistia. E arrepiei de ver São Paulo vazia, com lixo para todos os lados e pessoas se comportando como animais (e um animal se comportando como pessoa). Parece que fui o único que me surpreendi com a história entre meus amigos, mas eles têm razão. É só uma história sobre nós mesmos, contada e assistida de ângulos diferentes. E por isto ele é tão bom.
Em outra oportunidade, falei sobre a complexa maldade do Curinga. E um outro comentário foi sobre a complexidade sobre o bem e o mal em torno da personagem que enxerga, que tem olho. Aqui está a única coisa que preciso discordar, que se esperava dela que fosse uma heroína, uma pessoa certa, a única com possibilidade de manter em si leis morais.
Como eu disse no começo, em terra de cegos quem tem olho sofre. Não pretendo contar o filme, mas posso tentar explicar com algumas cenas. O ditado popular, Em terra de cego quem tem olho é rei, tem um defeito. Como saber se aquele que diz que enxerga, enxerga? Com efeito, o surgimento de alguém que diz que vê em meio a outros cegos, se não fosse desastroso por conta de causarem a destruição daquele dotado de visão (conforme Platão acreditava e Saramago também em A caverna), seria desastroso por conta de, a partir disto, todos poderem simplesmente dizer que enxergam. Aliás, freqüentemente ouço pessoas repetirem a pergunta Será que ele não enxerga isto que é tão claro para mim. Esta é uma das frases que parte do pressuposto que nós mesmos enxergamos. E certamente faríamos o mesmo caso fôssemos cegos. Como quando na cena do outro que disse estar diante de um negro por reconhecer seu tom de voz. Escuso dizer que o lado mais bestialmente excludente do ser humano esteve presente nesta fala. Mas ela também nos diz que ele sim enxergava, ele sim saberia distinguir o bom do ruim pelo tom de voz, quase enxergando sua cor. Quantas vezes fazemos isto por dia?
A decisão de não contar a quase ninguém sobre sua lucidez, por assim dizer, torna a única personagem que enxerga uma heroína sem igual na literatura. É aqui que entram os críticos que dizem que ela era uma heroína que ia contra princípios éticos. Que fazia também o mal. E também aqui que eu rebato a crítica e pergunto Qual ética? Qual mal? Naquela terra de cegos? Duvido que não faríamos o mesmo.
Freud, em Mal estar na civilização, nos lembra que não é possível a nós nos colocarmos em lugar de outrem, pois isto implicaria levar conosco toda a nossa experiência e subjetividade para tal lugar. O que implica em enxergar conforme si mesmo, e não conforme outrem. Acredito que tenhamos, neste caso, exemplo nítido de tal fenômeno. É que levamos a nossa moral, nossa ética para o corpo daquela que enxergava em meio a cegos. Só que nos esquecemos que no filme somente ela enxerga. Por isto, esperamos que ela aja como nós e soa mal, soa antiético que ela faça o que faz durante o filme. Por exemplo, correr de cegos esfomeados com sacos de comida em mãos.
No entanto, todo aquele que percebe algo de diferente, algo de novo, algo que somente ele diz estar enxergando também se queixa de sua situação de impotência. Não é raro, logo depois daquelas frases típicas de Será que ele não vê o que está fazendo, ouvirmos Mas ele é assim, não temos o que fazer. E sofremos frente a nossa impotência de querer fazer algo, mas não poder fazer. Os estadunidenses se enganam. Querer não é poder.
Por sorte, Drummond nos lembra que a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Nossa heroína sente dor. Mas por fim escolhe não sofrer. Digam-me... o que de antiético ou imoral existe em matar aquele que se dispõe em matá-lo de antemão, apenas por seu tom de voz? A lei brasileira reconhece este ato como, pelo menos, plausível de não ser entendido como crime. O que de imoral existe em querer comer após dias de fome e sendo tratado de maneira excludente por esta mesma sociedade que agora está cega? Discutir ética é sempre demasiado complexo. Mas discutir ética em terra (quase) sem ela é insano. O Curinga sim, revelou tal complexidade de maneira que o bem e mal são colocados a prova em todos os momentos. Mas a nossa heroína. Ela agiu como lhe obrigou a sobrevivência do corpo. E enxergar teve um preço caro. Teria que suportar que a sobrevivência transcende à razão. Teria que suportar ver a própria onipotência destruída frente ao caos.
Suportou como pôde, acredito eu. E isto não tem implicações éticas em terra sem ética. Calligaris aposta em mais uma coisa. Em caos, quando temos que recomeçar do zero, as mulheres, via de regra, se saem melhor.
P.S. em 02/11: http://caderno.josesaramago.org/2008/10/28/fernando-meirelles-cª/
"(...) foi a apresentação deste Ensaio sobre a cegueira em imagens e sons."
José Saramago