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domingo, 8 de junho de 2008

Felicidade foi-se embora

Acordo. Olho para a pasta de dentes e me lembro da propaganda com moças sorridentes. O espelho me diz o contrário. Alguém diz Bom dia. Muito embora eu só consiga responder ...Dia. O leite é o da propaganda com crianças brincando. O achocolatado é o de crianças super-heroínas. O carro é daquela propaganda em que tudo fica lindo quando se entra nele. Em locais de trabalho existem aquelas placas ensinando caminhos para a felicidade. O orkut me diz que serei extremamente bem-sucedido nos négocios hoje. As conversas levam sempre ao mesmo destino. Seja feliz!


Pior ainda quando sou forçado a dizer minha profissão. Quando digo que sou psicólogo ganho uma demonstração gratuita de moralismo e felicidade excessiva. Mesmo quando ganho o contrário, uma pessoa que reclama e se diz sofrer demais, o final é inevitavelmente o mesmo. O importante é ser feliz.


Aproveito que estou escrevendo um projeto do que espero se tornar um livro sobre o assunto para comentar o tema. No final, deixo uma palhinha dele. Mas é que a felicidade se tornou epidêmica. A luta cotidiana pelo pão nosso de cada dia acabou e deu lugar à felicidade nossa de cada dia. Há anos! E a culpa, muito embora possa ter ficado esta impressão pela maneira que comecei o texto, não é da televisão. Aproveito para desfazer o engano. Pasmem: a programação televisiva é mantida por outros seres humanos!!! O que esperar dela, além de ser veiculadora daquilo que é o próprio ser humano em dado momento histórico? Pois bem, não a culpe pela nossa incapacidade de ser feliz.


O que pode estar acontecendo, então? Não sei ao certo de onde isto veio nem para onde isto vai. Mas conheço um texto que pode ajudar. Calligaris escreveu em 28/01/2007, em seu texto "Você quer mesmo ser feliz?", que a felicidade não pode ser satisfeita. Difícil de entender? Nem tanto. Defina felicidade.


...


Aí está o ponto. Qualquer definição que se dê é baseada em uma imagem que não necessariamente condiz com a realidade. E mesmo quando se torna realidade, não é incomum que se ouça Não era bem aquilo que eu esperava. Mesmo que seja exatamente como o esperado, é momentâneo. Ainda com o Calligaris, a felicidade, pelo menos na modernidade, se sustenta pela inveja. Se sustenta pelos sonhos que foram realizados (por outros). Queremos jogar bola como o Pelé, ganhar dinheiro como o Silvio Santos, ter uma casa como a do Tom Cruise, as namoradas do Charlie em "Two and a half men" e ainda esperamos que isto caia do céu, o que nos tornaria deuses.


E então, o que fazer? Nada. Como nada? Então, de nada adiantou se falar a respeito? Espero que possa adiantar a partir de agora. O que quero dizer com Nada é que me parece impossível que paremos de pensar no futuro, idealizá-lo, construí-lo, fazer acontecer ou não acontecer. Também parece pouco proveitoso que culpemos nossas crenças no que será o futuro por todas as nossas desgraças. Isto porque o futuro, exatamente pela razão de ser ele o que sonhamos como um lugar melhor, faz com que modifiquemos o presente num sentido talvez melhor. De nada adianta deixarmos de ser invejosos.


Oras, se não adianta deixarmos de ser invejosos e não adianta nem tentar ser feliz porque felicidade é inalcançável, o que fazer?


Delicie-se para responder à sua maneira. Digo qual é a minha. Deixei este papo de felicidade de lado. James Barrie, quando escreveu Peter Pan, disse que a fada, por ser de tamanho pequeno, só tem capacidade para ter um sentimento por vez. Talvez ela seja mais sortuda que nós de conseguir isto, mas aprendi com as fadas (viu como é possível?) que a clareza sobre aquilo que se sente pode ser interessante. Não estou falando de ceder a impulsos, gritar com namorado quanto estiver com raiva, gargalhar em shopping lotado que nem criança porque ficou feliz, se derramar em lágrimas 24h por dia porque aquele safado te trocou por outra. Não que não possa acontecer, aliás recomendo todos estes atos pelo menos uma vez na vida. O que quero dizer é: ter claro o que se sente e deixar que aconteçam os sentimentos pode fazer parar para pensar sobre eles. E qualquer coisa que faça pensar também exercita a criatividade. Assim, você chora 24h na primeira vez. Mas na segunda, você chora 20h e escreve poemas 4h. Na terceira, você chora 18h, escreve 4h e até consegue dormir por 2h. Claro que nunca deixaremos de chorar. Mas também nunca deixaremos de nos alegrar com uma criança que nos diz um sorridente oi nas ruas em um péssimo dia chuvoso.


E a felicidade? Bom... ela virá. Mas com clareza: será bastante temporária. A tristeza também é parte da alma humana. O ódio, a inveja e o egoismo. Todos podem ser usados a favor, quando usados com criatividade. Isto é não obedecer ao ditado Seja feliz. Ainda com Calligaris, não tenha um feliz ano novo... tenha um ano interessante.


A palhinha do livro posto em outro artigo. Este já ficou demasiado grande. Quase triste?