Mostrando postagens com marcador Bebê. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bebê. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Padre, se deixe aprender a rezar missa

Qualquer um que já tenha se incumbido por pelo menos alguns dias da árdua tarefa de cuidar de um bebê em seus primeiros estágios de vida sabe o quão desgastante isto pode ser. É um ser que não fala com nossos sinais verbais, não consegue se locomover, mal conhece a própria mão e pé, não tem movimentos coordenados, é pequeno e tantas outras características próprias de sua idade. O que torna esta tarefa tão complicada?


Winnicott destaca um motivo, um bom motivo, para a tarefa ser difícil. O ódio. Em seu texto O ódio na contratransferência, recomendado para mães, pais e analistas, ele propõe que a mãe sente ódio de seu bebê. Mas estamos tão acostumados a pensar que as mães amam seus bebês, o que pode estar errado neste texto? Talvez no texto dele não tenha nada de errado, mas sim na nossa concepção de amor. Sobre amor, deixo para dedicar outros artigos. Por agora vou falar sobre uma possível inferência que se pode fazer deste texto e que pode se tornar outro motivo para que a tarefa seja complicada. Estou falando do sentimento de impotência na relação com um bebê.


Oras, em observação superficial se poderia argumentar que nos sentimos tão impotentes quanto o bebê frente suas dores e frente a situações que ainda não sabe lidar. O choro dele é sentido por nós com dor e nos coloca frente a pergunta O que fazer?. Parece que bebê e cuidador acabam se sentindo de maneira similar. No entanto, por agora não consigo provas suficientes para demonstrar se isto ocorre, como e porquê. Portanto gostaria de inclinar a conversa para o sentimento de impotência do cuidador. E mais, gostaria de pensar sobre a possibilidade de relacionar este sentimento à uma situação de análise.


Ensinar padre a rezar missa é um provérbio que aparece nas nossas falas quando alguém que acreditamos ser leigo em determinado assunto dá sua opinião sobre o mesmo assunto. Não é intenção discutir se os preceitos e lógicas usadas pelo leigos são corretos ou não, mas sim observar alguns sentidos presentes na frase e observar sua relação com o sentimento de impotência.


A frase supõe que o padre, por ser seu ofício, sabe melhor do que qualquer não-padre, portanto leigo neste assunto, como realizar seu ofício. Por ser este o sentido da frase, também existe visível proteção sobre o sentimento de impotência quanto à execução de seu trabalho. Como assim? Simples. O leigo, esteja certo ou errado em sua premissa, é ignorado pois o portador das técnicas e conhecimento é o padre. Supondo que o leigo esteja certo em um argumento e este provérbio seja usado, o padre, que supõe saber rezar a missa, pode contradizer o primeiro dizendo que é ele quem sabe rezar a missa e fim de discussão.


Agora, imagine uma missa em que um dos fiéis se levanta com uma arma na mão e ameaça o padre de morte. Como rezar a missa nestas circunstâncias usando as mesmas técnicas anteriores? Aparentemente impossível, não? Então, como poderia o padre saber rezar a missa sendo a missa diferente a cada dia, impondo novas situações e problemas que não se tinha pensado anteriormente?


Como este padre vai sair desta situação eu não sei. Mas o certo é que quando se julga que se sabe, ainda não foi experimentado algo novo, diferente. Supondo que cada contato com outro ser humano seja diferente do anterior (pelo menos fisicamente há que se assumir que são diferentes), como podemos imaginar saber como será o próximo contato? Só podemos imaginar saber para tapar a pequena falha de não sabermos.


O mesmo me parece operar com os bebês quanto ao sentimento de impotência. E supor que sabemos rezar a missa do bebê a todo o momento usando as mesmas técnicas anteriores pode desembocar em situações desastrosas. O padre pode, naquela situação, deixar a missa de lado e resolver a questão de outra maneira (talvez mais apropriada). Mas imagine que aquele padre começasse a rezar uma missa para o portador da arma. Pouco provavelmente sobreviveria, a menos que rezasse a missa correta. Como saber qual a missa correta? Agora, imagine um bebê quieto que sem motivo aparente muda de comportamento e começa a chorar desesperadamente sem parar. Como saber qual a missa correta? Imagine, desta vez, uma situação de análise em que o analista se depara com algo de inesperado em seu paciente e que ele próprio nunca havia se deparado com nada similar antes. Como saber qual a missa correta?


O fato é que não sabemos. Quem sabe qual a melhor missa é sempre o analisando, o bebê ou o portador da arma. Somos colocados frente aos nossos mais profundos sentimentos de impotência que são sempre difíceis de lidar. A maneira menos interessante de resolver estes impasses é recorrer ao velho provérbio e ignorar o outro. Parece que o melhor é deixar com que os três nos ensinem a rezar a missa, mesmo que eles nos tenham delegado o papel de padre. Caso se veja em situação de impotência e seja colocado em papel de padre, talvez o melhor a fazer seja pensar no título deste artigo.


 


P.S.: Texto dedicado às minhas irmãs. Ambas estão empenhadas na dura missão de ser mãe.