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terça-feira, 24 de junho de 2008

Acredito que consegui...

... um jeito melhor de explicar psicologia do que aquele outro artigo (Explicando psicologia), deixando o outro em um lugar mais literário ainda. É que hoje pude observar uma metáfora interessante a respeito da psicanálise que tomarei como exemplo. Mas deixando claro que não foi construída por mim, em essência.


Já se imaginou perdido em alto mar, sem rumo, sem bússola e sem ninguém além de você mesmo? Pois imagine. Agora imagine que o terapeuta é aquele que vai tentar encontrá-lo. Só que ele também está sem qualquer outro recurso além de uma bóia. Ainda não estão em atendimento. Assim, o analista pode apenas imaginar se algum dia sua bóia será útil para alguém. E o futuro analisando nem sequer sabe se será salvo. E também não sabemos se quer ser.


Reparando no parágrafo anterior, eu chamei o analisando de futuro analisando. Já ficando entendido que ele conseguirá ser atendido. Suas forças estão acabando e ele começa a gritar, se debater e fazer a maior quantidade de barulhos que consegue, já que é sua única alternativa. E, com sorte, acontece de o analista o enxergar. Iniciados os atendimentos, é uma longa jornada até que o analista consiga se aproximar do analisando com a bóia.


Os mais atentos já repararam em qual é o intuito do analista. Ajudar. No entanto, está enganado aquele que pensa que o analista tem tal capacidade. Porquê?


Oras, qualquer um que já tenha se afogado por curto período de tempo sabe que quase nada adianta jogar uma bóia a alguém em desespero e se debatendo. Sem contar que os movimentos do analisando quanto mais se intensificam e cansam o corpo o fazem afundar com maior facilidade. Aqui está um dos maiores problemas do analista. O instrumento e a vontade que possui de quase nada servirão para o desespero de quem se afoga. É o fim da psicologia?


Claro que não. Antes de jogar tudo pelos ares, ou melhor, antes de afundarmos sem ter o que fazer, é melhor tentar, de começo, jogar a bóia do que deixar se afogar. Se o analisando conseguir se apropriar dela, muito bem. Só que surge um outro problema. Como fica o analista nesta história? Sem a bóia? Ainda no mesmo exemplo, ele precisaria puxar a bóia com o sujeito e, como qualquer salva-vidas pode nos explicar melhor do que eu, o próprio salva-vidas é quem deverá subir na bóia, trocando de lugar com o sujeito, e a usar para nadar, já que é melhor nadador. Só então pode puxar o outro. Correto?


Em parte. Em análise temos um segundo problema a ser pensado. O caminho que o analista faria de volta até a praia nem sempre é o que o analisando gostaria de fazer! Já se perguntou o que estaria fazendo aquele sujeito ali na água? E se ele tiver fugido por qualquer motivo da mesma praia em que o analista o vai colocar de volta? Pois bem, a idéia não pode ser essa em uma análise, a de simplesmente devolver em terra o analisando. O negócio se complica, porque é necessário que o analista faça o caminho que o analisando quer. Como saber o caminho?! Não tenho espaço aqui, mas leia o meu outro texto (Padre, se deixe aprender a rezar missa) que pode ser útil.


Mas nem de longe este é o melhor exemplo. Como eu disse antes, você já se perguntou o que faz aquela pessoa no meio do mar? Minha amiga Thaís Machado, citando a banda Terminal Guadalupe, diz que a vontade de fugir é sempre medo de ficar. O site dela está nos links indicados (texto Congresso internacional do medo). E se o medo de estar em continente for grande demais e ela (a pessoa) resolve fugir, para onde vai? Para o oceano. Mas isto importa pouco para nós por agora. Vamos nos ater ao exemplo. Eu ia dizendo que o anterior não é o melhor exemplo.


Isto por que o mais provavel é que o analisando não pegue a bóia. Por qualquer razão. Mas se lembre que ele tem uma razão em especial: o medo de voltar. De qualquer maneira, mais uma vez a simples vontade de ajudar e o instrumento do analista não serviram. É o fim?


Ainda não. Agora imagine que não só o analista não pega a bóia como nada para mais longe, tamanho o medo, que neste caso se torna evidente. Agora é o fim?! Não! De novo, o salva-vidas tem lá suas maneiras de resolver. Entre elas, ele simplesmente dá um soco naquele que está se afogando e o deixa meio grogue. Assim pode puxá-lo para terra firme. De novo, o método do salva-vidas não nos interessa muito, pois seria questão de tempo até o analisando querer fugir de novo, uma vez que o medo ainda persiste. E para onde fugirá? Não seria melhor tratá-lo em terra?


Não é uma opção completamente segura, pois ele estaria ali por vontade do analista e não por vontade própria. E ainda, assim como fazem os prisioneiros que tanto clamam por liberdade, nem pestanejam em mentir para se verem livres. O que fazer se o método usado pelo salva-vidas não funciona?


O jeito mesmo parece ser ir tentando jogar a bóia e ir atrás do analisando, mesmo que ele fuja. O mais impaciente ainda diria Oras, quer se afogar, se afogue. E iria embora. Mas não fiz psicologia justamente para ajudar outros? Mesmo que a ajuda não me sirva bem como instrumento, não pretendo desistir apenas por ter quebrado a cara. Então, nadamos atrás dos pacientes o quanto podemos e vamos nós e nossas bóias atrás dele até conseguirmos, pacientemente, que ele se canse ou segure a bóia. Daí voltamos ao primeiro exemplo. É preciso esperar que retorne o fôlego e nos diga aonde ir. Não adianta vencer pelo cansaço e levá-lo aonde não quer ir. Teremos que, novamente, pedir auxílio ao texto Padre, se deixe aprender a rezar missa e sugerir apenas que esperemos as propostas de caminhos dadas pelo analisando. Uma técnica bastante diferente da do salva-vidas.


A bóia, no fim das contas, importa menos para o analisando do que para o analista. Este último sim usará a bóia. Por isto, quanto mais conhecer a respeito dela, melhor poderá se apoiar sobre ela. Saber sobre as próprias braçadas também parece importante. O auto conhecimento e a vontade de ajudar, entre outras coisas, movem o analista para o mar. No entanto, nenhuma das duas coisas parece muito útil ao analisando, que parece precisar mais de vontade de aventurar em si mesmo e vencer seus medos do que dos instrumentos do analista.


Se dermos todas estas sortes, a análise acontecerá. Trabalho difícil, não?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Padre, se deixe aprender a rezar missa

Qualquer um que já tenha se incumbido por pelo menos alguns dias da árdua tarefa de cuidar de um bebê em seus primeiros estágios de vida sabe o quão desgastante isto pode ser. É um ser que não fala com nossos sinais verbais, não consegue se locomover, mal conhece a própria mão e pé, não tem movimentos coordenados, é pequeno e tantas outras características próprias de sua idade. O que torna esta tarefa tão complicada?


Winnicott destaca um motivo, um bom motivo, para a tarefa ser difícil. O ódio. Em seu texto O ódio na contratransferência, recomendado para mães, pais e analistas, ele propõe que a mãe sente ódio de seu bebê. Mas estamos tão acostumados a pensar que as mães amam seus bebês, o que pode estar errado neste texto? Talvez no texto dele não tenha nada de errado, mas sim na nossa concepção de amor. Sobre amor, deixo para dedicar outros artigos. Por agora vou falar sobre uma possível inferência que se pode fazer deste texto e que pode se tornar outro motivo para que a tarefa seja complicada. Estou falando do sentimento de impotência na relação com um bebê.


Oras, em observação superficial se poderia argumentar que nos sentimos tão impotentes quanto o bebê frente suas dores e frente a situações que ainda não sabe lidar. O choro dele é sentido por nós com dor e nos coloca frente a pergunta O que fazer?. Parece que bebê e cuidador acabam se sentindo de maneira similar. No entanto, por agora não consigo provas suficientes para demonstrar se isto ocorre, como e porquê. Portanto gostaria de inclinar a conversa para o sentimento de impotência do cuidador. E mais, gostaria de pensar sobre a possibilidade de relacionar este sentimento à uma situação de análise.


Ensinar padre a rezar missa é um provérbio que aparece nas nossas falas quando alguém que acreditamos ser leigo em determinado assunto dá sua opinião sobre o mesmo assunto. Não é intenção discutir se os preceitos e lógicas usadas pelo leigos são corretos ou não, mas sim observar alguns sentidos presentes na frase e observar sua relação com o sentimento de impotência.


A frase supõe que o padre, por ser seu ofício, sabe melhor do que qualquer não-padre, portanto leigo neste assunto, como realizar seu ofício. Por ser este o sentido da frase, também existe visível proteção sobre o sentimento de impotência quanto à execução de seu trabalho. Como assim? Simples. O leigo, esteja certo ou errado em sua premissa, é ignorado pois o portador das técnicas e conhecimento é o padre. Supondo que o leigo esteja certo em um argumento e este provérbio seja usado, o padre, que supõe saber rezar a missa, pode contradizer o primeiro dizendo que é ele quem sabe rezar a missa e fim de discussão.


Agora, imagine uma missa em que um dos fiéis se levanta com uma arma na mão e ameaça o padre de morte. Como rezar a missa nestas circunstâncias usando as mesmas técnicas anteriores? Aparentemente impossível, não? Então, como poderia o padre saber rezar a missa sendo a missa diferente a cada dia, impondo novas situações e problemas que não se tinha pensado anteriormente?


Como este padre vai sair desta situação eu não sei. Mas o certo é que quando se julga que se sabe, ainda não foi experimentado algo novo, diferente. Supondo que cada contato com outro ser humano seja diferente do anterior (pelo menos fisicamente há que se assumir que são diferentes), como podemos imaginar saber como será o próximo contato? Só podemos imaginar saber para tapar a pequena falha de não sabermos.


O mesmo me parece operar com os bebês quanto ao sentimento de impotência. E supor que sabemos rezar a missa do bebê a todo o momento usando as mesmas técnicas anteriores pode desembocar em situações desastrosas. O padre pode, naquela situação, deixar a missa de lado e resolver a questão de outra maneira (talvez mais apropriada). Mas imagine que aquele padre começasse a rezar uma missa para o portador da arma. Pouco provavelmente sobreviveria, a menos que rezasse a missa correta. Como saber qual a missa correta? Agora, imagine um bebê quieto que sem motivo aparente muda de comportamento e começa a chorar desesperadamente sem parar. Como saber qual a missa correta? Imagine, desta vez, uma situação de análise em que o analista se depara com algo de inesperado em seu paciente e que ele próprio nunca havia se deparado com nada similar antes. Como saber qual a missa correta?


O fato é que não sabemos. Quem sabe qual a melhor missa é sempre o analisando, o bebê ou o portador da arma. Somos colocados frente aos nossos mais profundos sentimentos de impotência que são sempre difíceis de lidar. A maneira menos interessante de resolver estes impasses é recorrer ao velho provérbio e ignorar o outro. Parece que o melhor é deixar com que os três nos ensinem a rezar a missa, mesmo que eles nos tenham delegado o papel de padre. Caso se veja em situação de impotência e seja colocado em papel de padre, talvez o melhor a fazer seja pensar no título deste artigo.


 


P.S.: Texto dedicado às minhas irmãs. Ambas estão empenhadas na dura missão de ser mãe.