... um jeito melhor de explicar psicologia do que aquele outro artigo (Explicando psicologia), deixando o outro em um lugar mais literário ainda. É que hoje pude observar uma metáfora interessante a respeito da psicanálise que tomarei como exemplo. Mas deixando claro que não foi construída por mim, em essência.
Já se imaginou perdido em alto mar, sem rumo, sem bússola e sem ninguém além de você mesmo? Pois imagine. Agora imagine que o terapeuta é aquele que vai tentar encontrá-lo. Só que ele também está sem qualquer outro recurso além de uma bóia. Ainda não estão em atendimento. Assim, o analista pode apenas imaginar se algum dia sua bóia será útil para alguém. E o futuro analisando nem sequer sabe se será salvo. E também não sabemos se quer ser.
Reparando no parágrafo anterior, eu chamei o analisando de futuro analisando. Já ficando entendido que ele conseguirá ser atendido. Suas forças estão acabando e ele começa a gritar, se debater e fazer a maior quantidade de barulhos que consegue, já que é sua única alternativa. E, com sorte, acontece de o analista o enxergar. Iniciados os atendimentos, é uma longa jornada até que o analista consiga se aproximar do analisando com a bóia.
Os mais atentos já repararam em qual é o intuito do analista. Ajudar. No entanto, está enganado aquele que pensa que o analista tem tal capacidade. Porquê?
Oras, qualquer um que já tenha se afogado por curto período de tempo sabe que quase nada adianta jogar uma bóia a alguém em desespero e se debatendo. Sem contar que os movimentos do analisando quanto mais se intensificam e cansam o corpo o fazem afundar com maior facilidade. Aqui está um dos maiores problemas do analista. O instrumento e a vontade que possui de quase nada servirão para o desespero de quem se afoga. É o fim da psicologia?
Claro que não. Antes de jogar tudo pelos ares, ou melhor, antes de afundarmos sem ter o que fazer, é melhor tentar, de começo, jogar a bóia do que deixar se afogar. Se o analisando conseguir se apropriar dela, muito bem. Só que surge um outro problema. Como fica o analista nesta história? Sem a bóia? Ainda no mesmo exemplo, ele precisaria puxar a bóia com o sujeito e, como qualquer salva-vidas pode nos explicar melhor do que eu, o próprio salva-vidas é quem deverá subir na bóia, trocando de lugar com o sujeito, e a usar para nadar, já que é melhor nadador. Só então pode puxar o outro. Correto?
Em parte. Em análise temos um segundo problema a ser pensado. O caminho que o analista faria de volta até a praia nem sempre é o que o analisando gostaria de fazer! Já se perguntou o que estaria fazendo aquele sujeito ali na água? E se ele tiver fugido por qualquer motivo da mesma praia em que o analista o vai colocar de volta? Pois bem, a idéia não pode ser essa em uma análise, a de simplesmente devolver em terra o analisando. O negócio se complica, porque é necessário que o analista faça o caminho que o analisando quer. Como saber o caminho?! Não tenho espaço aqui, mas leia o meu outro texto (Padre, se deixe aprender a rezar missa) que pode ser útil.
Mas nem de longe este é o melhor exemplo. Como eu disse antes, você já se perguntou o que faz aquela pessoa no meio do mar? Minha amiga Thaís Machado, citando a banda Terminal Guadalupe, diz que a vontade de fugir é sempre medo de ficar. O site dela está nos links indicados (texto Congresso internacional do medo). E se o medo de estar em continente for grande demais e ela (a pessoa) resolve fugir, para onde vai? Para o oceano. Mas isto importa pouco para nós por agora. Vamos nos ater ao exemplo. Eu ia dizendo que o anterior não é o melhor exemplo.
Isto por que o mais provavel é que o analisando não pegue a bóia. Por qualquer razão. Mas se lembre que ele tem uma razão em especial: o medo de voltar. De qualquer maneira, mais uma vez a simples vontade de ajudar e o instrumento do analista não serviram. É o fim?
Ainda não. Agora imagine que não só o analista não pega a bóia como nada para mais longe, tamanho o medo, que neste caso se torna evidente. Agora é o fim?! Não! De novo, o salva-vidas tem lá suas maneiras de resolver. Entre elas, ele simplesmente dá um soco naquele que está se afogando e o deixa meio grogue. Assim pode puxá-lo para terra firme. De novo, o método do salva-vidas não nos interessa muito, pois seria questão de tempo até o analisando querer fugir de novo, uma vez que o medo ainda persiste. E para onde fugirá? Não seria melhor tratá-lo em terra?
Não é uma opção completamente segura, pois ele estaria ali por vontade do analista e não por vontade própria. E ainda, assim como fazem os prisioneiros que tanto clamam por liberdade, nem pestanejam em mentir para se verem livres. O que fazer se o método usado pelo salva-vidas não funciona?
O jeito mesmo parece ser ir tentando jogar a bóia e ir atrás do analisando, mesmo que ele fuja. O mais impaciente ainda diria Oras, quer se afogar, se afogue. E iria embora. Mas não fiz psicologia justamente para ajudar outros? Mesmo que a ajuda não me sirva bem como instrumento, não pretendo desistir apenas por ter quebrado a cara. Então, nadamos atrás dos pacientes o quanto podemos e vamos nós e nossas bóias atrás dele até conseguirmos, pacientemente, que ele se canse ou segure a bóia. Daí voltamos ao primeiro exemplo. É preciso esperar que retorne o fôlego e nos diga aonde ir. Não adianta vencer pelo cansaço e levá-lo aonde não quer ir. Teremos que, novamente, pedir auxílio ao texto Padre, se deixe aprender a rezar missa e sugerir apenas que esperemos as propostas de caminhos dadas pelo analisando. Uma técnica bastante diferente da do salva-vidas.
A bóia, no fim das contas, importa menos para o analisando do que para o analista. Este último sim usará a bóia. Por isto, quanto mais conhecer a respeito dela, melhor poderá se apoiar sobre ela. Saber sobre as próprias braçadas também parece importante. O auto conhecimento e a vontade de ajudar, entre outras coisas, movem o analista para o mar. No entanto, nenhuma das duas coisas parece muito útil ao analisando, que parece precisar mais de vontade de aventurar em si mesmo e vencer seus medos do que dos instrumentos do analista.
Se dermos todas estas sortes, a análise acontecerá. Trabalho difícil, não?