Não sei se é possível avaliar esta nova lei de trânsito apelidada de Lei Seca. Por um lado, pode ser uma maneira de reduzir acidentes. Por outro, é exageradamente severa. Mas não é sobre isto que me interessa discutir.
Desde que a lei foi estreada, por assim dizer, as conversas de bar não conseguem mais passar sem conter pelo menos leve referência sobre o assunto. Não importa há quanto tempo você conhece aquele seu amigo ou ficou sem vê-lo, cedo ou tarde alguém pergunta E a Lei Seca?
Ainda mais interessante é reparar que não importa quantas vezes o assunto já foi repetido. Ele será repetido novamente. Nem que seja em tom de alerta Cuidado com a nova lei. Ou em tom de resguardo Nossa, não posso beber hoje... Essa lei... Por que tamanho furor?
Claro que as respostas serão as mais individuais possíveis. Um pode alegar que é para não discutirmos coisas mais sérias, como corrupção ou o que de fato é crime. Outros podem dizer que é mais um daqueles papos como Será que vai chover, só porque não temos mais assunto. Ou ainda podem dizer que é para negar assuntos mais sérios ou aproximativos entre os envolvidos na conversa. Podem alegar que é para descarregar a raiva da lei. Servir de lição de moral para o próximo. Realizar uma verdadeira discução política. Enfim, podem ainda ter mais N sentidos.
Concordo com todas as respostas. Digo mais, é possível que todas essas funções estejam presentes em nossa fala quando repetimos sobre a lei. Mas o fato é que nenhuma destas respostas satisfaz a pergunta anterior por serem, em si, respostas incompletas. Mais do que isto, nem mesmo acredito que ela tenha uma resposta que possa ser completa.
Até que me ocorreu que vivemos de furor em furor. Já discutimos acidentes aéreos, crimes importantes, o filme Matrix, corrupção, mudança de moeda... e agora esta nova lei. Falem bem, falem mal, mas sempre falando deles.
Por isto, gostaria de expor que de fato continuo não sabendo o porquê do furor pela nova lei, tendo em vista que conheço defensores e opositores. Mas observando que vivemos transitando os interesses públicos e burburinhos, não acredito que eles sejam de todo ruim. Primeiro por conta da repetição. E como já disse no meu texto sobre repetição, ela contém o lado bom. E segundo porque graças a estes assuntos comuns ainda podemos nos comunicar a partir da nossa relação com o outro. Explico.
Esta semana eu estava discutindo uma outra lei, a do rodízio de placas em São Paulo, com uma pessoa deveras estimada por mim. Até que percebi que um de nós defendia ferrenhamente o cumprimento da regra e outro fazia de tudo para convencer o primeiro do contrário. O mais interessante disto foi que, via de regra, aquele que queria seguir a lei tem o discurso menos rígido e o segundo tem, em geral, o discurso mais rígido.
Além dos motivos particulares de cada um para inverter seu papel para consigo mesmo, também estávamos, em última instância, dizendo um para o outro Não concordo com você. E esta é a posição que em boa parte das nossas conversas, entre eu e tal pessoa, tem sido tomada. Será, então, que a discussão da regra era mesmo o mais fundamental?
Acredito que não. Talvez o mais importante fique por conta da maneira como é conversada, da disposição que temos em conversar, do conteúdo da conversa e porque ele é dito assim, entre outras coisas mais que compõem nossas conversas diárias.
Por isto, discutir os prós e contras da nova lei não tem sido divertido, nem tampouco seguí-la. Mas podemos agradecer a esta lei e a tudo aquilo que tem causado furor por ser mais uma maneira de nos comunicarmos.
E alguém me diz Acho que não tem problema de fazermos desta maneira porque ... e eu agradeço que o assunto existe, mas preciso dizer... Não concordo.
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