"(...) Não são as idéias, nem a visão, nem as ferramentas que realmente interessam na psicanálise. Se, no final de um tratamento, você perguntar ao paciente qual foi o processo da análise, do que ele se lembra? Nunca das idéias e sempre do relacionamento com o terapeuta. Eles raramente se lembram de uma conclusão importante do terapeuta, mas se lembram com carinho da relação. E me arrisco a dizer que isso serve para você também. (...)"
Em: A cura de Schopenhauer (p. 66)
Irvin D. Yalom
A National Geographic apresentou dia 10/11/08 um programa intitulado Mente bilhante, mais especificamente o episódio Gênio nato. Neste episódio, contaram a história de um menino, Marc Yu, que com sete anos já tocava piano com perfeição.
O programa foi organizado de maneira interessante e instigante, mas existia algo além da história que não foi contado pelo programa. Nem deveria ser, mas não pude passar sem reparar. É que o programa se organiza em torno de uma visão específica de ciência. E qual a importância disto?
Simples. Quando organizamos um programa televisivo em torno de um estilo de ciência também eliminamos, por conseguinte, todos os outros estilos de ciência que coexistem com o primeiro. Não creio que os programas televisivos devessem contemplar todos os tipos de visões científicas sobre cada tema. Se isto acontecesse, os programas ficariam enjoativos, repetitivos e sem conteúdo. Mas é importante que tenhamos conhecimento de que a NG é adepta a uma certa noção ciência e que podemos ter contato com outros tipos dela.
E é sobre uma outra modalidade de ciência, que não esteve inclusa no programa, que eu gostaria de falar. Em certo momento do documentário, eles mostram uma pesquisa realizada com uma quantidade grande de crianças com o intuito de verificar se a estimulação precoce ajudaria o desenvolvimento do intelecto. Resultado: até os 12 meses de idade existe pouca diferença no desenvolvimento das crianças, mas a partir dos 15 meses, com a criança sendo estimulada desde o sexto mês, aproximadamente, já é possível notar diferença significativa na aprendizagem da linguagem, matemática, QI e sociabilidade. E ainda, depois de crescerem elas foram comparadas a outros indivíduos não estimulados e obtiveram melhores resultados quanto aos empregos e desempenhos pessoais. Até aqui, apenas constatação de fatos.
As diferentes ciências convergem ou divergem a partir daqui. As explicações, motivos, maneiras de entender, maneiras de intervir é que determinam como cada ciência difere uma da outra. A primeira coisa que é preciso saber sobre este tipo de ciência descrita pelo programa é que ela trabalha com normalidade. Isto significa que tem que haver um número grande de sujeitos que serão testados e as arestas, por assim dizer, serão desconsideradas em prol do grupo. Assim, pouco importa que entre as crianças testadas pudesse haver uma ou duas que não chegaram nem perto do sucesso profissional, já que as outras chegaram e respondem pelo grupo todo. Quero dizer: nem todos são contemplados e, portanto, explicados. Segunda coisa a se pensar é que a explicação para o desenvolvimento das crianças se deu pela observação de seus cérebros. Sou materialista. Toda a transformação ocorrida passou, sim, pelo cérebro. Mas só?
Claro que não. Mas é que esta ciência exclusivamente materilista se esquece de aspectos importantes da pesquisa. Literalmente, se esquece, pois considera pouco (ou nada) o papel do contato humano na experiência. Como assim?
O experimento começou precocemente nas crianças. Algumas delas tiveram contato com os pesquisadores antes das seis semanas de idade. E permaneceram em contato com eles até pelo menos os primeiros anos de vida. Retornaram a vê-los na vida adolescente e adulta. Não teriam sido estas pessoas de extrema importância para a vida destas crianças? Não estariam os pesquisadores investindo os "sujeitos da pesquisa" de amor e afeto e ao mesmo tempo sendo investidos desta maneira? E ainda, não estariam eles investindo os mesmos "sujeitos" de expectativas sobre seus intelectos?
Este outro tipo de ciência não é novidade. Mas sem dúvida traria, se não tivesse sido deixada de lado, contribuições diferentes para a pesquisa. Não são contribuições opostas, mas complementares. Como por exemplo, propor que um dos objetivos seja verificar se os sujeitos tendem a não desapontar os pesquisadores. Ou que os sujeitos se achem sortudos de serem, depois de adultos, mais inteligentes simplesmente porque fizeram parte de um grupo que foi amado e esperado para ser inteligente. E ainda, como explicar aqueles que fugiram a norma?
As descobertas poderiam, estas sim, impressionar pelo incomensurável grau de sentimentos envolvidos nos sujeitos de uma pesquisa que até então tem sido desprezado pela ciência contemporânea dominante. A propósito, um romance que sem dúvida foi construído após muita experiência clínica neste estilo diferenciado de ciência é A cura de Schopenhauer. Vale a pena conferir o alto teor literário (e científico) de Yalom neste romance que emociona.
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