sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Em terra de cego, quem tem olho...

... sofre. E não é pouco. Depois de assistir Ensaio sobre a cegueira, de Meirelles, ouvi alguns comentários importantes que não poderiam me escapar aos ouvidos.


Entre as críticas estão que É só um filme com um monte de cegos, Não acontece nada ou É só isso, outro pergunta. É. É só isso. É somente a história de como seria a humanidade se ficássemos cegos. Nenhum espanto mesmo. No fundo, conhecemos bem o nosso lado animalesco, bem caracterizado pelo filme. E também não me parece espantoso que já vivamos em sociedade similar. Concordo com o outro, é só isso. Só um filme sobre um monte de cegos.


Os comentários mais otimistas, que tentam compreender por outro ângulo o filme, diziam Puxa, eles se organizavam em sociedades como a nossa, Fica clara a relação de poder entre os homens, Estou cego. Mesmo nestes comentários, ainda é só isto... uma história óbvia sobre nós mesmos. Isto é uma crítica negativa?


Não. O filme é excelente e muito fiel ao livro. Fiquei com a sensação de estar relendo enquanto assistia. E arrepiei de ver São Paulo vazia, com lixo para todos os lados e pessoas se comportando como animais (e um animal se comportando como pessoa). Parece que fui o único que me surpreendi com a história entre meus amigos, mas eles têm razão. É só uma história sobre nós mesmos, contada e assistida de ângulos diferentes. E por isto ele é tão bom.


Em outra oportunidade, falei sobre a complexa maldade do Curinga. E um outro comentário foi sobre a complexidade sobre o bem e o mal em torno da personagem que enxerga, que tem olho. Aqui está a única coisa que preciso discordar, que se esperava dela que fosse uma heroína, uma pessoa certa, a única com possibilidade de manter em si leis morais.


Como eu disse no começo, em terra de cegos quem tem olho sofre. Não pretendo contar o filme, mas posso tentar explicar com algumas cenas. O ditado popular, Em terra de cego quem tem olho é rei, tem um defeito. Como saber se aquele que diz que enxerga, enxerga? Com efeito, o surgimento de alguém que diz que vê em meio a outros cegos, se não fosse desastroso por conta de causarem a destruição daquele dotado de visão (conforme Platão acreditava e Saramago também em A caverna), seria desastroso por conta de, a partir disto, todos poderem simplesmente dizer que enxergam. Aliás, freqüentemente ouço pessoas repetirem a pergunta Será que ele não enxerga isto que é tão claro para mim. Esta é uma das frases que parte do pressuposto que nós mesmos enxergamos. E certamente faríamos o mesmo caso fôssemos cegos. Como quando na cena do outro que disse estar diante de um negro por reconhecer seu tom de voz. Escuso dizer que o lado mais bestialmente excludente do ser humano esteve presente nesta fala. Mas ela também nos diz que ele sim enxergava, ele sim saberia distinguir o bom do ruim pelo tom de voz, quase enxergando sua cor. Quantas vezes fazemos isto por dia?


A decisão de não contar a quase ninguém sobre sua lucidez, por assim dizer, torna a única personagem que enxerga uma heroína sem igual na literatura. É aqui que entram os críticos que dizem que ela era uma heroína que ia contra princípios éticos. Que fazia também o mal. E também aqui que eu rebato a crítica e pergunto Qual ética? Qual mal? Naquela terra de cegos? Duvido que não faríamos o mesmo.


Freud, em Mal estar na civilização, nos lembra que não é possível a nós nos colocarmos em lugar de outrem, pois isto implicaria levar conosco toda a nossa experiência e subjetividade para tal lugar. O que implica em enxergar conforme si mesmo, e não conforme outrem. Acredito que tenhamos, neste caso, exemplo nítido de tal fenômeno. É que levamos a nossa moral, nossa ética para o corpo daquela que enxergava em meio a cegos. Só que nos esquecemos que no filme somente ela enxerga. Por isto, esperamos que ela aja como nós e soa mal, soa antiético que ela faça o que faz durante o filme. Por exemplo, correr de cegos esfomeados com sacos de comida em mãos.


No entanto, todo aquele que percebe algo de diferente, algo de novo, algo que somente ele diz estar enxergando também se queixa de sua situação de impotência. Não é raro, logo depois daquelas frases típicas de Será que ele não vê o que está fazendo, ouvirmos Mas ele é assim, não temos o que fazer. E sofremos frente a nossa impotência de querer fazer algo, mas não poder fazer. Os estadunidenses se enganam. Querer não é poder.


Por sorte, Drummond nos lembra que a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Nossa heroína sente dor. Mas por fim escolhe não sofrer. Digam-me... o que de antiético ou imoral existe em matar aquele que se dispõe em matá-lo de antemão, apenas por seu tom de voz? A lei brasileira reconhece este ato como, pelo menos, plausível de não ser entendido como crime. O que de imoral existe em querer comer após dias de fome e sendo tratado de maneira excludente por esta mesma sociedade que agora está cega? Discutir ética é sempre demasiado complexo. Mas discutir ética em terra (quase) sem ela é insano. O Curinga sim, revelou tal complexidade de maneira que o bem e mal são colocados a prova em todos os momentos. Mas a nossa heroína. Ela agiu como lhe obrigou a sobrevivência do corpo. E enxergar teve um preço caro. Teria que suportar que a sobrevivência transcende à razão. Teria que suportar ver a própria onipotência destruída frente ao caos.


Suportou como pôde, acredito eu. E isto não tem implicações éticas em terra sem ética. Calligaris aposta em mais uma coisa. Em caos, quando temos que recomeçar do zero, as mulheres, via de regra, se saem melhor.


 


P.S. em 02/11: http://caderno.josesaramago.org/2008/10/28/fernando-meirelles-cª/


"(...) foi a apresentação deste Ensaio sobre a cegueira em imagens e sons."


José Saramago

domingo, 12 de outubro de 2008

Liga, liga, liga...

... estou esperando. O celular está na mão. Liga, vai!


E se eu ligasse? Não! De novo não. Da última vez você ligou vinte e duas vezes!


Ei, quem é você? Você, oras! Como assim? Nós dois somos a mesma pessoa! Estamos na mesma consciência. E você veio me atrapalhar?


Como? Eu sou você! Mas eu estou esperando ela ligar. Eu também, mas tenho uma dica para você não ficar tão nervoso. E se você arrumasse algo para fazer?


Nossa, tenho que ler um livro. É a única opção. Bom... melhor que ligar vinte e duas vezes novamente. E daí ela vai me achar um chato. Nós dois, né.


Nós cinco! Ah! Não me importa quantos tenham dentro desta cabeça, parece que todos querem a mesma coisa... que este telefone toque logo.


É isso aí! Toca! Se não tocar nós vamos invadir, tomar conta! Destruir tudo. Revolução! Revolução! Toca!


Ei... ouviu isto? O que? O silêncio! Droga!!! Fiquei com expectativas. Eu também... mas é que o silêncio... ele não cessa.


E agora?! O que vamos fazer? Não sei. Continua lendo.


Não existe na humanindade... qualquer resquício... como a civilização se ocupa de... a evolução de seu pensamento. Que é isto? Xiiiiu... estou tentando ler. Ah! Desisto de ler. Só dá para entender estes fragmentos aí e toda vez tenho que recomeçar.


Quer saber? Liga logo e pronto!


O que você achou que fosse acontecer? Ela não atendeu de novo, claro! É para você aprender a se controlar. Mas ela bem que podia ligar, né?


---


Triiiim... Triiiiim...


Não é ela. Tenho certeza. Deve ser alguém que ligou para um número errado.


Alô! Não, não. Não é daqui, não. Não. Tchau.


Viu!!! Mas que saco, podia ser ela.


Mas não era.


Será que algum dia vai ser?


 


P.S.: Quem nunca passou por isto?!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Dave Matthews, Ben Harper, About us e esperança

Esta semana resolvi inaugurar uma categoria nova no blog. Já escrevi outras vezes sobre música, mas agora resolvi que terei um espaço para ela por aqui. É que este fim de semana assisti um show memorável da Dave Matthews Band, conhecida também por suas iniciais DMB.


Em sua turnê pelo Brasil neste 2008 já esteve em Manaus e em São Paulo e estará hoje, 30/09, no Rio de Janeiro. A julgar pelo show de São Paulo, será imperdível.


Aproveito para prestar uma homenagem a LeRoi, recentemente falecido e ex-saxofonista da banda, e para lembrar que os músicos da banda se apresentaram de preto.


Sobre a música, Dave e banda estiveram impecáveis com improvisos que são de seu costume e sem repetir set list. Os shows de Manaus e São Paulo variaram músicas e versões e o público do Rio pode esperar o mesmo. Torço para que a homenagem para o LeRoi dê certo lá. Ela está sendo organizada pela DMBrasil, um site brasileiro sobre a banda que acompanho há 7 anos, desde que ele existe.


O show foi feito em um festival de música que ainda compareceram, para citar alguns, o Ben Harper, Seu Jorge e Vanessa da Mata. O festival leva o nome de About us e foi, afora os imperdíveis shows, uma das coisas que me chamou a atenção. Já ouviu falar em evento ecologicamente sustentável?


Pois bem. Ingenuidade seria se eu acreditasse que os presentes quisessem limpar o planeta. Não queriam. Estavam todos ali para ver as bandas. Mas é que mesmo assim, pude presenciar cenas raras. Um evento com trinta e cinco mil presentes e pouquíssima sujeira no chão ao fim da festa. Quase não era possível achar uma bituca de cigarro. Organização do evento?


Sim e não. Claro que a preocupação deles com o bem estar do planeta foi determinante. Mas mais do que isto, idéias realmente simples fizeram a sujeira ser reduzida. Bituqueiras de cigarro eram gratuitamente distribuidas e feitas de materiais já reciclados. Grandes latas de lixo perto de locais imprescindíveis. E muita propaganda no telão. Em verdade, a propaganda no telão só me chamou a atenção pelo fato de que ninguém dava bola para ela. Há muito já me convenci de que se conscientização fosse suficiente, a humanidade já teria se salvado. Como assim?


Desconheço qualquer pessoa que não tenha vícios. Em absoluto. Não raro ouço que Sou viciado em pizza, I'm addicted to Simple Plan, Não consigo parar de mexer a perna, Fumar é meu vício, Não consigo parar de mentir, Não sei porque, mas café... não passo sem. E é este Não sei porque que vai me ajudar a responder a pergunta acima, Como assim, para o porque de a conscientização não salvar a humanidade.


Não sei porque sempre surge, reparem, para coisas que, mesmo que usemos a consciência, não conseguimos fazer diferente. Assim, o sujeito pode ter vários problemas sérios de estômago ou pulmão e ter sido alertado diversas vezes para parar de beber café ou fumar que ainda assim achará bons argumentos para manter-se na mesma situação anterior. Pois é, há muito Freud nos alertou de que não temos em nós mesmos o controle sobre nós. Uma maneira simples de vê-lo falar disto é ler as Cinco lições de psicanálise. Os exemplos que dou aqui são bastante simples comparados aos que ele dá nos textos, mostrando de maneira fácil que, em verdade, não nos governamos.


Não que as esperanças acabaram. E a About us me relembrou que não acabaram mesmo. Mas é que ainda teimamos que o simples conhecimento de algo nos tornará imunes a ele. Quer ver?


Frases recorrentes em minha vida de psicólogo, Você tem que se tratar, como vai conseguir tratar dos outros sendo louco, Você que sabe bem disto, não poderia agir assim, Como é que você, um psicólogo, pode pensar assim, Isto é repressão e você deveria saber disto. Para todas estas frases, duas coisas. Psicólogo não deixa de ser um humano. E o mais importante para este texto, também não sabemos porque fazemos certas coisas, justamente pelo fato de sermos humanos. Por isto, apenas saber não salva a humanidade.


Mas não temos controle sobre nós e a esperança por um mundo melhor não acabou, como ela se sustenta?


Pois é, como? Não sei. Posso arriscar que seja o amor, o trabalho, a cooperação, a arte... Esta tal esperança nos ocorre, também, fora dos limites de nossa vontade. E apesar de eu ter ouvido de todos que os vídeos sobre ecologia estavam uma chatice e todos xingarem a mocinha no palco quando falava de evento sustentável, foi um dos eventos mais limpos que já presenciei. A minha esperança veio daí. E de ver artistas de alta qualidade, como Dave Matthews Band e Ben Harper, tocando nossos corações com músicas da mais alta qualidade. E de ver trinta e cinco mil pessoas em favor de se divertir sem, pelo menos que eu tenha visto, nenhuma briga.


E a sua, vem de onde?

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Curinga, Todd, Amor, Ódio e Freud

Para os que ainda não puderam conferir o novo filme do Batman, o cavaleiro das trevas, não percam. Mas reparem. O Batman não é o ator principal do filme. Aliás, ele chega a apelar várias vezes para filmes do 007 em momentos absolutamente dispensáveis. 007 tem clima para um agente absurdamente irreal. Batman perdeu a graça usando este tipo de cena. Não porque são chatas. Não são. Mas é que ele só faz isto. Já o Curinga...


Desempenhou mesmo um papel difícil, o ator. E mostrou para o que veio. Pegou o espírito da coisa e foi a fundo no personagem. Resultado, um Curinga extremamente sincero para com o seu papel. Em ritmo enlouquecedor para quem assiste (agora se imagine interpretando o personagem), põe em ação tudo o que irá acontecer durante o filme. Quer ver maldade? Veja o novo filme do Curinga.


Maldade por maldade, me lembrei do Sweeney Todd várias vezes enquanto assistia o novo Batman. É que o Curinga e o Todd têm lá suas diferenças. Ambos abusando de maldade, claro. Mas o Todd tinha um, por assim dizer, motivo. O Curinga, aparentemente, não.


Todd volta depois de longo período recluso de sua cidade para se vingar daquele que matou sua família. Não estraguei nada do filme até aqui, para quem ainda não viu. Isto que contei são apenas os quinze primeiros minutos. Cenas teatrais, filme musical, mas nem um pouco cansativo. Muita crueldade e meticulosidade movem o barbeiro a cada novo treino para sua vingança maior. Não quero contar mais sobre o filme. Dizem que o ódio cega.


Mas também dizem que o amor cega. Ou é cego.


Então, como enxergar?


Outro dia, um grande amigo de longa data esteve me contando sobre as dificuldades de dirigir seu carro. É que ele é quase cego de um olho. Esteve me explicando que perde a noção de profundidade quando se enxerga somente com um olho. Um professor que tive na faculdade já me alertara, Se você acha que dois olhos apontando para o mesmo lugar e o dedo polegar não fazem diferença para a evolução, experimente fechar um olho, amarrar o dedão e pular para agarrar um galho de árvore. Mesmo assim, tentei. Dirigi com um olho só aberto durante alguns segundos. Me convenci logo que chegou a primeira curva e o primeiro carro. Faça isto somente a baixas velocidades, não quero ninguém me culpando por seus próprios acidentes.


Voltando ao assunto, se o ódio cega e o amor também, mas nem por isto deixamos de enxergar certas coisas apenas porque estamos em estado de ódio ou amor, estes sentimentos devem cegar um olho só. O Todd não deixou de ver o alvo de sua vingança. E o Curinga... bom... eu diria que não deixou de enxergar o alvo de seu amor. Estranho?


Certa vez, Calligaris nos sugeriu que a melhor maneira de amarmos ou sermos amados é quando o parceiro se torna um enigma. E o Batman acha o Curinga um verdadeiro enigma. Que esta seja a última vez que falo do Batman. É que sua autonomia no filme é tão pequena que quem alerta o herói que seu vilão é um enigma é o seu mordomo. E mesmo o Curinga acha o Batman um enigma, já que quer descobrir a verdadeira identidade de seu rival mascarado. E estranhamente, um nunca mata o outro. Isto me lembra inúmeras músicas estilo Entre tapas e beijos.


Todd é cruel. Mas é uma pena. Se eu pudesse reescrever aquele final, eu certamente tiraria o clima de Moral da história que ele contém e substituiria por algo realmente cruel. Porém o filme não perde seu brilho. Todd esteve cego do olho do amor, que o ódio lhe cegou. Não esteve ausente de realidade, só a enxergou por um ângulo sem profundidade.


Curinga, por outro lado, impecavelmente louco, tem o olho do ódio cego. E só ama seu rival. Jeito esquisito de amar, é verdade, mas talvez a loucura dele esteja no fato de amar estranho e não em matar. Matar é quase conseqüência. Outro dia, e digo isto mais uma vez, falo sobre o amor. Se ele fosse simples, não existiriam poetas. E nem seriam contraditórios. Voltando ao Curinga, ele se mostra lúcido demais em duas passagens. Uma, diz ao herói Não quero matá-lo, só desmascará-lo. Entre tapas e beijos me vem em mente. Outra, A loucura é que nem a gravidade, basta dar um empurrãozinho.


Entre um e outro estamos nós, espero. Ora nos cegando de um olho, ora de outro. Jamais estamos sãos e sabemos disto, pois reconhecemos abertamente que o ódio cega. E o amor também.


Como enxergar? Não negando nem um nem outro. E nem que tanto um quanto outro podem ser construtivos e destruitivos. Problema é que para enxergar com os sentimentos não existe nem fórmula nem órgão corpóreo específico. Todd deu o jeito que conseguiu (ou pôde) dar. Curinga também.


 


P.S.: Freud nos alertou várias vezes que em nossa normalidade somos loucos. É que nunca tinha citado ele assim, abertamente. Fiquei com vontade de creditar algo àquele que intitula este site. Leiam a Conferência XX de suas Obras Completas.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Mudanças


Nós nunca mudamos de fato



 

Coldplay

 
Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo.

 

Lulu Santos / Nelson Motta

 

 

Afinal. Mudamos ou não?

Tudo muda ou não?

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sobre a verdade

Quando ouvi esta frase eu assistia televisão em um lugar que dava para ouvir conversas vindas da rua. Daí comecei a ouvir tudo repetidamente três vezes. Eu ainda não tinha enlouquecido, porque minha mãe também estava ouvindo estas vozes. Até que do outro lado do portão ouvi Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta para mim. Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta pra mim. Aqui é o José Carlos.... Biagioti, tia. Abre a porta p'mim.


Vai saber o que me moveu no sentido de abrir a porta, porque já em primeiro alarme fui avisado que seria melhor não ir até lá, Vai que ele está com um pedaço de pau na mão, bêbado, e pega você de surpresa, este foi o sábio aviso de minha mãe. Mas é que a mãe, este lado oraculoso de nossas mães, mesmo tendo razão, sempre é ouvida depois que tudo acontece. O oráculo do Édipo rei foi a mesma coisa. Só fizeram algo depois que já era tarde. Por que eu seria diferente, me perguntei.


Com o que restou de sobriedade em mim, ouvi minha mãe quando me disse para dar a volta e ir pela porta dos fundos. Mal sabia eu que teria um encontro implacável com uma verdade que não sossegaria até que fosse dita de maneira completa, clara. Subi pela rampa de acesso que leva aos fundos e dei a volta na casa, indo para o portão, desta vez do outro lado dele. Vi de longe um alguém sentado e de costas. Estranho que a verdade se nos apresenta primeiro de costas e só aos poucos se nos mostra.


Quando se virou, não se apresentou logo, claro, o que mais esperar da verdade. Eu que tive que lhe fazer as perguntas. Você, está bem, quer água ou precisa de algo. Nada de respostas. Quando se dirigiu a mim disse Sou o José Carlos Biagioti, eu vim buscar meus documentos com a minha tia que mora nesta casa, e apontou para a minha casa. Claro que esta não era a verdade. Repetiu mais duas vezes para ver se eu acreditava. Resolvi acreditar.


Perguntei o nome de sua tia. Sem resposta. Em vez disto, ouvi três vezes Eu vim da guerra mundial do Brasil, em Ribeirão Preto, eu sou polícia. Guerra mundial do Brasil, aqui em Ribeirão, e quem mais esteve nesta guerra, perguntei, Só eu, matei todos os estrangeiros, Tinham estrangeiros em guerra aqui, eu quis saber, Alemães, ingleses, americanos, franceses, tinha até japonês, Nossa, e como você fez isto sozinho. Silêncio. A verdade não se revela assim tão fácil, às simples perguntas.


Mas interessante que as duas repetições além da frase original pararam. Acho que parou de tentar me convencer. Teria que revelar a verdade por outra via. E como não respondeu à última questão para não se revelar simplesmente quando lhe fosse requisitada, resolveu mudar a abordagem.


Todo mundo é inimigo, e eu sou tenente coronel, sou da polícia, a guerra mundial do Brasil acabou, foi lá em Ribeirão, e todo mundo é inimigo. Resolvi oferecer mais água. Ribeirão Preto, neste dia, estava marcando quarenta e dois graus celsius. De verdade. Ignorou.


Você é meu inimigo, eu mandei você me matar, E por que eu faria isto, Porque você é inimigo, Ora, mas você pode até se dizer meu inimigo, mas veja, não estou tentando lhe matar, quero lhe ajudar, estou oferecendo água. Reparei que o cigarro apagado em sua mão tremia muito e ele se esforçava por tragar em vão. Aquele homem devia ter uns 50 anos, aproximadamente. Semblante cansado, respiração difícil e bastante trêmulo. Mas não hesitava em andar em baixo de sol pleno. Era aproximadamente 15h. Simplesmente ia. E se encostava na parede enquanto estava sentado. Era assim que o tinha encontrado.


Ei, eu estou reconhecendo você, você é meu filho, disse ele, E como eu me chamo, retruquei, Não lembro, E qual a minha idade, Uns 20 anos, e você vai me levar para casa, minha tia está me esperando com meus documentos, Mas se sou seu filho, eu que moro na sua casa e não o contrário, Não, você vai me levar para casa e me oferecer um café à sua mesa, Já lhe ofereci água, mas se quer um café lhe trago, você pode esperar, perguntei, Eu não, você é meu inimigo.


Inimigo por quê, perguntei, Porque você estava na guerra mundial de Ribeirão Preto, a cidade que eu construí, E destruiu na guerra, perguntei. Silêncio. E você ia me matar, Acho que não, você não me é inimigo, ao contrário, estou lhe tratando como amigo. Sua expressão mudara e pela primeira vez me olhou nos olhos. Pediu com os olhos que eu lhe repetisse a última frase, como ele mesmo o fazia quando queria me convencer, no início de tudo. Desta vez eu teria que convencê-lo. E olhando em seus olhos disse novamente Para mim, você é amigo. Estendeu a mão e esboçou um aperto de mão. Dei-lhe a minha mão. Foi a única vez que o vi sorrir. Se levantou animado, querendo ir para casa. Pois vá, estarei aqui para quando quiser ajuda, Oras, me arrume um copo de água, Quer um fósforo, perguntei. Silêncio.


Voltei com uma garrafa de dois litro de água e uma caneca. Só que o encontrei dormindo. Ainda na ânsia de cumprir minha palavra, resolvi que ia buscar uma garrafa menor e deixar a água ali, para quando acordasse. Aproveitei e peguei uma caixa de fósforo. Quando voltei, ele  estava sentado já acordado. Não se lembrou de seu filho até que eu lhe dissesse que era seu amigo, não inimigo. Então, de repente, quase sem sentido, ele me disse a verdade! Na cara! Aquelas palavras não poderiam ser mais sábias. Fiquei sem jeito. Andei meio de lado. Ressabiado, sorri e só pude dizer Oras, pode ser. Tomou água com toda a certeza de que era a melhor parte do seu dia. Lembrei do relógio marcando quarenta e dois graus. Terminou sua água, não quis ficar com a garrafa, pegou a caixa de fósforo e fumou o que restava do cigarro apagado em sua mão. Ainda me disse que matou muitos inimigos e que vinha da guerra mundial do Brasil. Falou algo sobre voltar de avião para a casa do próprio pai. Sem mais nem menos, se levantou e foi embora.


Fiquei pasmo. A verdade me fora revelada, sem custo, sem dor. Tudo o que precisei fazer foi dizer que era sua amiga. E não se engane com aparências, a verdade se revela por entre as mentiras que contamos. Em verdade, nenhuma mentira é mentira, ao contrário, é verdade pedindo gentilmente por ser revelada. Mas aquela verdade... minha mãe me avisou para não ir lá, eu iria levar uma paulada. O que ele me disse foi... Você é louco, pois está conversando comigo. Louco.