sábado, 26 de julho de 2008

Mundo Indie

É sempre tarefa difícil escrever sobre as tendências Indies por uma razão mais ou menos simples. É que quase qualquer coisa pode ser Indie.


Vamos ao termo. Indie é uma abreviação inglesa para Independent, que traduzido signfica Independente. O movimento Indie, ou os movimentos Indies, se expande por todo o ramo da arte e ganha em cada uma delas uma subdivisão, história, influências e tendências. E para ser Independente é preciso que não seja, por exemplo, como a Mariah Carey que tem a obrigação de vender X milhões de dólares por disco, gravar há cada Y espaço de tempo músicas que não são feitas por ela ou quando são têm que seguir um certo formato. Entremos, já que este virou o assunto, na música.


Formato é a palavra chave para a questão do que é ou não Independente. Os Independentes não se sentem, ou não deveriam se sentir, na obrigação de seguir este formato. Vantagem é que podem compôr às suas maneiras, com trechos experimentais, dissonâncias, alternância de volume ou qualquer coisa que perpasse o momento artístico de quem compõe. Desvantagem é que nem tudo é audível.


Já nas músicas, por assim dizer, Dependentes, isto se torna mais fácil de resolver. Poucas ousadias e muita repetição do mesmo são peças chave para a manutenção destes estilos. Assim, por mais que a Britney Spears se esforce ao máximo por ser diferente da Madonna sua música sempre terá o mesmo teor musical, os mesmos tipos de efeito, a mesma quantidade silábica, os mesmos apelos sexuais.


A única chance de as músicas, como aqui foram chamadas, Dependentes se modificarem é em função das tendências Independentes. Não que o movimento Indie seja livre de repetições, que não é, mas é o único lugar aonde existe possibilidade de experimentações virem à tona e causar qualquer modificação no estilo musical vigente. Quero dizer que tudo o que é Dependente outrora foi Independente. Isto me causa estranheza.


Porque é precisamente o oposto o que esperamos vivenciar durante a vida. Esperamos que quando bebês sejamos dependentes e quando adultos sejamos independentes. Por que nos movimentos artísticos isto é trocado?


Chega aquela parte em que não posso responder com certeza, apenas por impressões. E também fica aberto para qualquer um que acompanhe estes movimentos que possa dar sua opinião. Mas de repente me ocorreu um texto do Fábio Herrmann, psicanalista brasileiro que morreu há não muitos anos, que diz, já com as minhas distorções, que tudo o que é independente quer voltar ao estado anterior em que ainda era dependente, em que ainda era uno. O texto se chama Pesquisando com o método psicanalítico. Relutâncias dos independentes de todas as áreas à parte, concordo com ele do ponto de vista da psicanálise.


Quero dizer que não é do ponto de vista consciente que queremos voltar a ser dependentes. Não queremos parar de trabalhar e voltar a morar na casa dos pais e ir diminuindo até voltarmos à infância. Ao contrário, queremos poder construir nossas próprias vidas e ter produções próprias e independentes. Mas, independentes de quê?


Certamente não é independente do, em nosso tempo, capital. Se vivêssemos em outras sociedades não seria indepentente, por exemplo, dos bens de consumo dividos por igual, ou do peixe pescado e trocado pela limpeza da oca. Seja como for, as sociedades se organizam sempre, e por isto são sociedades, em grupos de dependência que se forem desfeitos causam problemas sérios ao funcionamento das mesmas. Veja as greves como exemplo. Os correios, quando têm seus períodos de greve, causam maior rebuliço.


Me desculpem todos os que se dizem independentes. Não acredito mais em vocês.


Portanto a saída para que a sensação de independência seja criada é dividir e impessoalizar. Existe o independente financeiro, a música Indie, o escritor independente e os blogs, que têm seguido o mesmo exemplo. Mas se pararem de visitar meu blog, o mais provável é que ele acabe. Isto não é dependência? E para que criamos estes grupos ou sensações de independência?


Agora não consigo pensar em outra coisa que não seja para voltar à dependência. Simples. Ganhamos dinheiro, impessoal e independente, para gastar com nossos vícios, dependências, repetições. Os Indies musicais só existem porque pagamos as entradas dos shows, porque compramos seus discos. Por isto não me estranha que os grandes encabeçadores e financiadores dos movimentos independentes sejam os jovens.


Nunca vi alguém de mais de quarenta anos ouvir discos inteiros do Bloc Party, Interpol, Snow Patrol, Doves. Existem, mas sem dúvida são bandas ouvidas principalmente por jovens. Os jovens estão precisamente na fase de se despregarem de casa, na luta entre a dependência e a independência financeira e talvez por isto apostem tanto nos seus próprios artistas preferidos, independentes e da mesma idade e geração.


Novamente, não são todos os jovens que mantém esta preferência e nem todos os adultos ouvem só Dependentes. Mas é muito provável que quando os jovens crescerem, todas estas bandas que hoje são independentes e experimentais serão as que farão parte das músicas Dependentes. Com um pouco de sorte, as grandes gravadoras se enfraquecerão e selos Independentes ganharão destaque, mas ainda assim as rádios não tocarão os mesmos estilos musicais desta atualidade. Duvida? Então se pergunte o que aconteceu com as músicas eletronicizadas dos anos oitenta. Nossos pais cresceram e o que era independente tomou conta das FM e pouco se ouve Outlets tocando Josi's on vacation far away... I just wanna use your love tonight.


Portanto, ainda mantenho minha concordância com Herrmann. Mas acaba de me ocorrer, e disto me serve escrever, que em certa altura eu escrevi que o movimento Dependente só encontra possibilidade de se modificar em função do movimento Independente. Assim, por mais que o desejo Indie seja voltar a ser Dependente e isto acabe acontecendo de fato nas alternâncias entre as gerações, é esta uma maneira possível de se movimentar, criar, atualizar, desatualizar, mudar, fazer, desfazer. Enfim, se eu pudesse apostar que algo faz diferença, eu apostaria naquelas coisas que não esperávamos que fosse acontecer justamente por ser ela fora de controle, fora da dependência de nossa onipotência.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Você acredita em amor à primeira vista?

Ainda bem que esta é uma pergunta de duplo sentido.


A palavra Acredita, nesta frase, devido à sua falta de complementos lança mão para uma dupla interpretação que é pouco explorada. Tanto pode querer perguntar se você acredita que exista, a exemplo de  perguntas como Acredita em ET, como pode querer perguntar se você acredita que ele possa vingar, guardando este segundo sentido a idéia de que ele já aconteceu e a pergunta passa a ser se Acredita que este amor tenha futuro. Veja que a omissão é simples mas oportuna. A omissão de que falo é do que viria depois de Acredita, que pode ser tanto Que exista como Que tenha futuro. Como ainda não sei se me fiz claro, vou dar um outro exemplo da segunda omissão, já que é o sentido menos comum. O antigo casal de ex-namorados volta a namorar e alguém pergunta Você acredita que agora vá dar certo. Ou omitindo partes Você acredita neste namoro. Você acredita Neste amor à primeira vista?


Sim e não são respostas que comumente designam a crença na possibilidade de ele existir. Mas a resposta que tem me inquietado demais é aquela que deixa as conversas no limbo, que faz com que a dúvida possa servir tanto para não assumirmos qualquer responsabilidade quanto para nos movimentar para outras possibilidades... é o Talvez.


Talvez é freqüentemente entendida como a resposta mais humana em contraponto ao sim ou não do computador, do um ou zero, bom ou mau, certo ou errado. E notar que pode ser uma resposta tanto paralizadora quanto movimentadora deixa o Talvez tão divido quanto o sim e o não. Se eu digo que Talvez eu acredite e não quero conversar sobre isto soa deveras paralizador quando os atos subseqüentes não contradizem a fala. Mas quando se diz, em tom mais animado, Talvez eu acredite, a fala pode soar quase como a colocação de teste sobre a crença na possibilidade de dar certo. É este segundo Talvez que tem me interessado mais.


Não que o primeiro não tenha sua importância, que sem sombra de dúvida o tem. Mas é que o segundo Talvez nos faz esquecer aquele primeiro sentido da pergunta que soa quase como se Acreditamos em ET. É mais ou menos assim Se os ET existem ou não pouco me importa, mas se vierem estarei pronto para recebê-los. Claro que com um pouco de mau jeito e falta de habilidade no começo, mas aos poucos vamos nos ajustando. Agora estou falando do amor, não dos ET.


Portanto, fica aqui a minha opinião. Se eu acredito em amor à primeira vista?! Ah... por que não nos preocupamos com coisas mais interessantes como Devo apostar Neste amor, à primeira vista ou não, tão intenso e vívido? Esta sim deveria ser a verdadeira pergunta.

sábado, 12 de julho de 2008

O lado bom da nova Lei Seca

Não sei se é possível avaliar esta nova lei de trânsito apelidada de Lei Seca. Por um lado, pode ser uma maneira de reduzir acidentes. Por outro, é exageradamente severa. Mas não é sobre isto que me interessa discutir.


Desde que a lei foi estreada, por assim dizer, as conversas de bar não conseguem mais passar sem conter pelo menos leve referência sobre o assunto. Não importa há quanto tempo você conhece aquele seu amigo ou ficou sem vê-lo, cedo ou tarde alguém pergunta E a Lei Seca?


Ainda mais interessante é reparar que não importa quantas vezes o assunto já foi repetido. Ele será repetido novamente. Nem que seja em tom de alerta Cuidado com a nova lei. Ou em tom de resguardo Nossa, não posso beber hoje... Essa lei... Por que tamanho furor?


Claro que as respostas serão as mais individuais possíveis. Um pode alegar que é para não discutirmos coisas mais sérias, como corrupção ou o que de fato é crime. Outros podem dizer que é mais um daqueles papos como Será que vai chover, só porque não temos mais assunto. Ou ainda podem dizer que é para negar assuntos mais sérios ou aproximativos entre os envolvidos na conversa. Podem alegar que é para descarregar a raiva da lei. Servir de lição de moral para o próximo. Realizar uma verdadeira discução política. Enfim, podem ainda ter mais N sentidos.


Concordo com todas as respostas. Digo mais, é possível que todas essas funções estejam presentes em nossa fala quando repetimos sobre a lei. Mas o fato é que nenhuma destas respostas satisfaz a pergunta anterior por serem, em si, respostas incompletas. Mais do que isto, nem mesmo acredito que ela tenha uma resposta que possa ser completa.


Até que me ocorreu que vivemos de furor em furor. Já discutimos acidentes aéreos, crimes importantes, o filme Matrix, corrupção, mudança de moeda... e agora esta nova lei. Falem bem, falem mal, mas sempre falando deles.


Por isto, gostaria de expor que de fato continuo não sabendo o porquê do furor pela nova lei, tendo em vista que conheço defensores e opositores. Mas observando que vivemos transitando os interesses públicos e burburinhos, não acredito que eles sejam de todo ruim. Primeiro por conta da repetição. E como já disse no meu texto sobre repetição, ela contém o lado bom. E segundo porque graças a estes assuntos comuns ainda podemos nos comunicar a partir da nossa relação com o outro. Explico.


Esta semana eu estava discutindo uma outra lei, a do rodízio de placas em São Paulo, com uma pessoa deveras estimada por mim. Até que percebi que um de nós defendia ferrenhamente o cumprimento da regra e outro fazia de tudo para convencer o primeiro do contrário. O mais interessante disto foi que, via de regra, aquele que queria seguir a lei tem o discurso menos rígido e o segundo tem, em geral, o discurso mais rígido.


Além dos motivos particulares de cada um para inverter seu papel para consigo mesmo, também estávamos, em última instância, dizendo um para o outro Não concordo com você. E esta é a posição que em boa parte das nossas conversas, entre eu e tal pessoa, tem sido tomada. Será, então, que a discussão da regra era mesmo o mais fundamental?


Acredito que não. Talvez o mais importante fique por conta da maneira como é conversada, da disposição que temos em conversar, do conteúdo da conversa e porque ele é dito assim, entre outras coisas mais que compõem nossas conversas diárias.


Por isto, discutir os prós e contras da nova lei não tem sido divertido, nem tampouco seguí-la. Mas podemos agradecer a esta lei e a tudo aquilo que tem causado furor por ser mais uma maneira de nos comunicarmos.


E alguém me diz Acho que não tem problema de fazermos desta maneira porque ... e eu agradeço que o assunto existe, mas preciso dizer... Não concordo.

domingo, 6 de julho de 2008

O quarto é quase escuro...

... porque é iluminado apenas pela luz do computador. Já é noite e só se ouve o silêncio. Para tapar o desespero causado pela ausência sonora, colaca sua lista no lastfm. Checa o Orkut. Caixa de email vazia. Ninguém no Msn.


Deita e finge que a música o diverte. Mas as músicas, que antes serviam para tapar o desespero, começam a desesperar. Não só pela repetição, mas pelo conteúdo.


Já ao som gelado do Cientista de Coldplay, ele percebe, como se fosse novidade, que está apaixonado pela internet. Ah! A Internet... como eram bons os tempos que as pessoas se falavam olho no olho. Saíam às ruas como se o planeta ainda fosse habitado por outros seres humanos. Outro invento parecido foi o telefone. Em diferente grau e função, a televisão.


Pouco a pouco, a humanidade criou um novo meio ambiente, alheio às leis naturais de temperatura, ventos, movimento. Mas pertencente à lógica do Bug milenar, do World clock, da língua inglesa. À lógica da música que ninguém canta ou toca, do texto que não usa tinta, da luz que emite sentido, da vida virótica que não vive em outro meio. Sim, existem discussões sobre a vida de um vírus de computador. Veja: Se multiplica sozinho, existe em um meio e é capaz de mutações e adaptações. O único problema concreto que pode pôr em cheque esta definição é uma que se aplica também aos vírus proteicos de Se isto é vida.


Isto é vida?


 


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Cena 2:


 


Será que ela entra hoje? Pena, não está online. Mas e se eu esperar?! Já sei! Vou fazer algo diferente... vou conhecer novas páginas. Dizem que há milhões por aí.


Tédio... as páginas novas são tão novas... tão diferentes do que eu estava acostumado. Não gostei. Queria mais do mesmo. Queria falar com ela!


 


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Cena 3:


 


Oi! Nossa, que bom te ver por aqui, na Internet.


...


É mesmo! faz tempo que não nos falamos. Novidades?


...


Por que você fez isto?


...


Sério que não gosta do jeito que eu sou?


 


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Cena 4:


 


Sou?! É isto o que sou? Um ser de frente para um ambiente que não existe, seguindo leis que não se aplicam à realidade, para me satisfazer com algo que não satisfaz?


E ela?! Quem é ela?


 


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Cena 5:


 


Pena que os pensamentos anteriores se aplicam também ao ambiente fora do computador, exceto o fato de não ter sido inventado pelo homem. Não seria o computador uma reinvenção do que o homem acredita que É? E tenta Ser sempre que usa mais uma vez? Mas deixa de Ser quando percebe que aquilo que criou achando que É, em verdade, não É?


 


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Cena 6:


 


Está tarde, vou dormir, enfim. Mas não ia.


A Thaís diria Podia, sim, abrir os olhos. Não queria. O problema dela era esse.


http://freudentenderia.wordpress.com/2008/07/03/play-dead/

sábado, 28 de junho de 2008

Sobre a amizade

O artigo desta quinta, 26/06/2008, do Calligaris para a Folha de São Paulo foi uma das coisas mais bonitas que eu já li. Mesmo que eu ainda o esteja digerindo e embora eu ainda não tenha certeza se concordo plenamente com o ponto de vista dele, pelo menos foi algo que me deixou pensando muito. Certamente ele tem razão e acredito que eu não tenha concordado precisamente por estar passando por um momento que o artigo descreve tão bem e que me é estranho, até então. O link posto assim que achar o texto online. Resolvi escrever sobre uma amiga que aos poucos foi se tornando uma grande amiga e que reservo muita consideração.


O artigo lido me trouxe muitas memórias importantes sobre mim. Entre elas, me fez pensar em outros textos do mesmo autor. Um em especial fala sobre internet (não me lembro a data de publicação nem o título) e diz que ela, a internet, possibilita que compartilhemos fantasias que antes seriam impossíveis de ser compartilhadas.


Fato. Esta é uma amiga que conheci virutalmente por conta de uma viagem que fiz. Depois, começamos a conversar por compartilhar um gosto musical similar. Aos poucos, construímos outros tipos de relação, ainda virtualmente. Até nos conhecermos pessoalmente. E passamos a compartilhar conversas sobre momentos importantes que aconteceram conosco quando ainda nem nos conhecíamos e quase ao mesmo tempo.


Afora as tragédias que a internet pode trazer (será que é mesmo ela quem traz?), também tem lá suas vantagens. Mas voltemos a esta amiga novamente. Acredite se quiser, isto tudo me fez lembrar outro texto do mesmo autor. Este sim sei aonde consigo o link. Posto-o ao lado (Um (discutível) conselho para casais). É certo que não somos um casal, não no sentido de namorados. O mais importante é que pude me tornar amigo dela a ponto de, concordando com Calligaris, amar com o projeto de ser transformado pelo que ela espera de mim. Em verdade, me transfomei mesmo.


Espero que todos, algum dia, encontrem alguém assim. Que não seja necessário se subjulgar ao outro, mas que seja capaz de compartilhar bandas, gostos que antes não era possível gostar... passar a tolerar O segredo (livro), horóscopo, bebidas e até outros amigos. Cada uma destas coisas ela esperou que eu gostasse, que eu aproveitasse ou que eu fosse daquela maneira. Pude aproveitar muitas delas.


Com sorte, percebi que tenho alguns outros amigos como ela.


Agora estou ouvindo Stereophonics. Gracias, mi amiga!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Acredito que consegui...

... um jeito melhor de explicar psicologia do que aquele outro artigo (Explicando psicologia), deixando o outro em um lugar mais literário ainda. É que hoje pude observar uma metáfora interessante a respeito da psicanálise que tomarei como exemplo. Mas deixando claro que não foi construída por mim, em essência.


Já se imaginou perdido em alto mar, sem rumo, sem bússola e sem ninguém além de você mesmo? Pois imagine. Agora imagine que o terapeuta é aquele que vai tentar encontrá-lo. Só que ele também está sem qualquer outro recurso além de uma bóia. Ainda não estão em atendimento. Assim, o analista pode apenas imaginar se algum dia sua bóia será útil para alguém. E o futuro analisando nem sequer sabe se será salvo. E também não sabemos se quer ser.


Reparando no parágrafo anterior, eu chamei o analisando de futuro analisando. Já ficando entendido que ele conseguirá ser atendido. Suas forças estão acabando e ele começa a gritar, se debater e fazer a maior quantidade de barulhos que consegue, já que é sua única alternativa. E, com sorte, acontece de o analista o enxergar. Iniciados os atendimentos, é uma longa jornada até que o analista consiga se aproximar do analisando com a bóia.


Os mais atentos já repararam em qual é o intuito do analista. Ajudar. No entanto, está enganado aquele que pensa que o analista tem tal capacidade. Porquê?


Oras, qualquer um que já tenha se afogado por curto período de tempo sabe que quase nada adianta jogar uma bóia a alguém em desespero e se debatendo. Sem contar que os movimentos do analisando quanto mais se intensificam e cansam o corpo o fazem afundar com maior facilidade. Aqui está um dos maiores problemas do analista. O instrumento e a vontade que possui de quase nada servirão para o desespero de quem se afoga. É o fim da psicologia?


Claro que não. Antes de jogar tudo pelos ares, ou melhor, antes de afundarmos sem ter o que fazer, é melhor tentar, de começo, jogar a bóia do que deixar se afogar. Se o analisando conseguir se apropriar dela, muito bem. Só que surge um outro problema. Como fica o analista nesta história? Sem a bóia? Ainda no mesmo exemplo, ele precisaria puxar a bóia com o sujeito e, como qualquer salva-vidas pode nos explicar melhor do que eu, o próprio salva-vidas é quem deverá subir na bóia, trocando de lugar com o sujeito, e a usar para nadar, já que é melhor nadador. Só então pode puxar o outro. Correto?


Em parte. Em análise temos um segundo problema a ser pensado. O caminho que o analista faria de volta até a praia nem sempre é o que o analisando gostaria de fazer! Já se perguntou o que estaria fazendo aquele sujeito ali na água? E se ele tiver fugido por qualquer motivo da mesma praia em que o analista o vai colocar de volta? Pois bem, a idéia não pode ser essa em uma análise, a de simplesmente devolver em terra o analisando. O negócio se complica, porque é necessário que o analista faça o caminho que o analisando quer. Como saber o caminho?! Não tenho espaço aqui, mas leia o meu outro texto (Padre, se deixe aprender a rezar missa) que pode ser útil.


Mas nem de longe este é o melhor exemplo. Como eu disse antes, você já se perguntou o que faz aquela pessoa no meio do mar? Minha amiga Thaís Machado, citando a banda Terminal Guadalupe, diz que a vontade de fugir é sempre medo de ficar. O site dela está nos links indicados (texto Congresso internacional do medo). E se o medo de estar em continente for grande demais e ela (a pessoa) resolve fugir, para onde vai? Para o oceano. Mas isto importa pouco para nós por agora. Vamos nos ater ao exemplo. Eu ia dizendo que o anterior não é o melhor exemplo.


Isto por que o mais provavel é que o analisando não pegue a bóia. Por qualquer razão. Mas se lembre que ele tem uma razão em especial: o medo de voltar. De qualquer maneira, mais uma vez a simples vontade de ajudar e o instrumento do analista não serviram. É o fim?


Ainda não. Agora imagine que não só o analista não pega a bóia como nada para mais longe, tamanho o medo, que neste caso se torna evidente. Agora é o fim?! Não! De novo, o salva-vidas tem lá suas maneiras de resolver. Entre elas, ele simplesmente dá um soco naquele que está se afogando e o deixa meio grogue. Assim pode puxá-lo para terra firme. De novo, o método do salva-vidas não nos interessa muito, pois seria questão de tempo até o analisando querer fugir de novo, uma vez que o medo ainda persiste. E para onde fugirá? Não seria melhor tratá-lo em terra?


Não é uma opção completamente segura, pois ele estaria ali por vontade do analista e não por vontade própria. E ainda, assim como fazem os prisioneiros que tanto clamam por liberdade, nem pestanejam em mentir para se verem livres. O que fazer se o método usado pelo salva-vidas não funciona?


O jeito mesmo parece ser ir tentando jogar a bóia e ir atrás do analisando, mesmo que ele fuja. O mais impaciente ainda diria Oras, quer se afogar, se afogue. E iria embora. Mas não fiz psicologia justamente para ajudar outros? Mesmo que a ajuda não me sirva bem como instrumento, não pretendo desistir apenas por ter quebrado a cara. Então, nadamos atrás dos pacientes o quanto podemos e vamos nós e nossas bóias atrás dele até conseguirmos, pacientemente, que ele se canse ou segure a bóia. Daí voltamos ao primeiro exemplo. É preciso esperar que retorne o fôlego e nos diga aonde ir. Não adianta vencer pelo cansaço e levá-lo aonde não quer ir. Teremos que, novamente, pedir auxílio ao texto Padre, se deixe aprender a rezar missa e sugerir apenas que esperemos as propostas de caminhos dadas pelo analisando. Uma técnica bastante diferente da do salva-vidas.


A bóia, no fim das contas, importa menos para o analisando do que para o analista. Este último sim usará a bóia. Por isto, quanto mais conhecer a respeito dela, melhor poderá se apoiar sobre ela. Saber sobre as próprias braçadas também parece importante. O auto conhecimento e a vontade de ajudar, entre outras coisas, movem o analista para o mar. No entanto, nenhuma das duas coisas parece muito útil ao analisando, que parece precisar mais de vontade de aventurar em si mesmo e vencer seus medos do que dos instrumentos do analista.


Se dermos todas estas sortes, a análise acontecerá. Trabalho difícil, não?

domingo, 22 de junho de 2008

No sufoco...

... é um livro do Chuck Palahniuk traduzido para o português há não muito tempo. Palahniuk ficou famoso por seu livro Clube da luta, que mais tarde virou um filme interessante com o Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham. Um comentário sobre este filme posso fazer em outra hora, mas fica recomendado tanto o filme quanto os dois livros.


É um livro que conta como a personagem principal vive sua vida engasgando de restaurante em restaurante até quase morrer somente para ser salvo e, conseqüentemente, arrecadar fundos para si mesmo. Vale a pena ler para conferir como isto se desenrola. O livro esbarra em inúmeros assuntos na maneira Palahniuk de narrar. Entre eles, vou me ater em um específico.


Para isto, vou contar o final do livro. Mas fique tranqüilo, porque o que vou contar não estraga a leitura. Isto porque não revelarei a história, mas sim o sentido que se pode tirar dela. Com sorte, a vontade de ler o livro poderá aumentar. A história acaba e o autor diz que vivemos repetindo o passado.


O que ele quer dizer? Mesmo no livro, a personagem se vê frente a situações das mais diversas possíveis. Ele conta a história do menino que o levou a ser aquele homem e as histórias são bem diferentes! Como podem ser repetidas? Ainda mais em alguém tão dinâmico quanto aquela personagem, que tem várias facetas divergentes e várias histórias simultâneas, quase como se fosse uma pessoa diferente em cada situação. O que ele quer dizer?


Claro que o livro tem seu sentido peculiar, e este é um bom motivo para lê-lo. Mas como situações tão novas e diversas podem ser repetição?


Nossa, isto dá pano às mangas! O fato é que nossas repetições fogem ao nosso controle. Para aqueles que dizem odiar rotina ou que sempre pegam caminhos diferentes para voltar para casa, só tenho a lamentar a falácia ao qual se submetem ao fazer da Não repetição a mais pura repetição. Talvez por aqui eu possa responder à pergunta sobre o livro... as mais variadas situações giram em torno do mesmo tema sem percebermos. A chave para a questão é o Sem percebermos.


Não percebemos que os namoros não são A, B, C... mas A, A', A''. Ou as comidas. Ou os amigos. Ou as conversas. Ou o trabalho. Ou as viagens. Ou a negação de tudo isto. Assim como a personagem do livro não percebeu que repetia sua vida a cada capítulo diferente de sua história. Ainda bem que não percebemos!


Como assim? Sempre aprendi que repetição é um saco, que faz relacionamentos caírem em rotina e que estragam amizades ou qualquer outra coisa. Não seria melhor perceber as repetições e evitá-las? Pessoalmente, discordo que repetições sejam ruins a este ponto. São as repetições que nos fazem ser bons profissionais, por exemplo. Você iria em um médico que nunca repetiu por vários anos Ser médico? Ou contrataria um estilista que nunca assistiu a um desfile? Ou um administrador que não tenha feito contas e pensado em empresas por pelo menos alguns anos?


Em psicanálise, procuramos justamente por tudo aquilo que não percebemos mas que faz parte de nós. No entanto, não vivemos em constante análise e por isto não é preocupante que não percebamos as repetições. Aliás, contém certo grau de relaxamento quando nos permitimos repetir e usar a repetição criativamente. Como quando nos tornamos médicos, lemos, escrevemos, viramos estilistas ou administradores.


Mais uma vez, culpamos quem não devia por ter feito o que não fez. A repetição não parece ser nossa inimiga. Chuck diria, desta vez em outro livro entitulado Cantiga de ninar, que Quanto mais as coisas mudam, mais continuam na mesma. Concordo. Não podemos evitá-la. E algumas vezes (maioria delas) clamamos por mais do mesmo.