sábado, 28 de junho de 2008

Sobre a amizade

O artigo desta quinta, 26/06/2008, do Calligaris para a Folha de São Paulo foi uma das coisas mais bonitas que eu já li. Mesmo que eu ainda o esteja digerindo e embora eu ainda não tenha certeza se concordo plenamente com o ponto de vista dele, pelo menos foi algo que me deixou pensando muito. Certamente ele tem razão e acredito que eu não tenha concordado precisamente por estar passando por um momento que o artigo descreve tão bem e que me é estranho, até então. O link posto assim que achar o texto online. Resolvi escrever sobre uma amiga que aos poucos foi se tornando uma grande amiga e que reservo muita consideração.


O artigo lido me trouxe muitas memórias importantes sobre mim. Entre elas, me fez pensar em outros textos do mesmo autor. Um em especial fala sobre internet (não me lembro a data de publicação nem o título) e diz que ela, a internet, possibilita que compartilhemos fantasias que antes seriam impossíveis de ser compartilhadas.


Fato. Esta é uma amiga que conheci virutalmente por conta de uma viagem que fiz. Depois, começamos a conversar por compartilhar um gosto musical similar. Aos poucos, construímos outros tipos de relação, ainda virtualmente. Até nos conhecermos pessoalmente. E passamos a compartilhar conversas sobre momentos importantes que aconteceram conosco quando ainda nem nos conhecíamos e quase ao mesmo tempo.


Afora as tragédias que a internet pode trazer (será que é mesmo ela quem traz?), também tem lá suas vantagens. Mas voltemos a esta amiga novamente. Acredite se quiser, isto tudo me fez lembrar outro texto do mesmo autor. Este sim sei aonde consigo o link. Posto-o ao lado (Um (discutível) conselho para casais). É certo que não somos um casal, não no sentido de namorados. O mais importante é que pude me tornar amigo dela a ponto de, concordando com Calligaris, amar com o projeto de ser transformado pelo que ela espera de mim. Em verdade, me transfomei mesmo.


Espero que todos, algum dia, encontrem alguém assim. Que não seja necessário se subjulgar ao outro, mas que seja capaz de compartilhar bandas, gostos que antes não era possível gostar... passar a tolerar O segredo (livro), horóscopo, bebidas e até outros amigos. Cada uma destas coisas ela esperou que eu gostasse, que eu aproveitasse ou que eu fosse daquela maneira. Pude aproveitar muitas delas.


Com sorte, percebi que tenho alguns outros amigos como ela.


Agora estou ouvindo Stereophonics. Gracias, mi amiga!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Acredito que consegui...

... um jeito melhor de explicar psicologia do que aquele outro artigo (Explicando psicologia), deixando o outro em um lugar mais literário ainda. É que hoje pude observar uma metáfora interessante a respeito da psicanálise que tomarei como exemplo. Mas deixando claro que não foi construída por mim, em essência.


Já se imaginou perdido em alto mar, sem rumo, sem bússola e sem ninguém além de você mesmo? Pois imagine. Agora imagine que o terapeuta é aquele que vai tentar encontrá-lo. Só que ele também está sem qualquer outro recurso além de uma bóia. Ainda não estão em atendimento. Assim, o analista pode apenas imaginar se algum dia sua bóia será útil para alguém. E o futuro analisando nem sequer sabe se será salvo. E também não sabemos se quer ser.


Reparando no parágrafo anterior, eu chamei o analisando de futuro analisando. Já ficando entendido que ele conseguirá ser atendido. Suas forças estão acabando e ele começa a gritar, se debater e fazer a maior quantidade de barulhos que consegue, já que é sua única alternativa. E, com sorte, acontece de o analista o enxergar. Iniciados os atendimentos, é uma longa jornada até que o analista consiga se aproximar do analisando com a bóia.


Os mais atentos já repararam em qual é o intuito do analista. Ajudar. No entanto, está enganado aquele que pensa que o analista tem tal capacidade. Porquê?


Oras, qualquer um que já tenha se afogado por curto período de tempo sabe que quase nada adianta jogar uma bóia a alguém em desespero e se debatendo. Sem contar que os movimentos do analisando quanto mais se intensificam e cansam o corpo o fazem afundar com maior facilidade. Aqui está um dos maiores problemas do analista. O instrumento e a vontade que possui de quase nada servirão para o desespero de quem se afoga. É o fim da psicologia?


Claro que não. Antes de jogar tudo pelos ares, ou melhor, antes de afundarmos sem ter o que fazer, é melhor tentar, de começo, jogar a bóia do que deixar se afogar. Se o analisando conseguir se apropriar dela, muito bem. Só que surge um outro problema. Como fica o analista nesta história? Sem a bóia? Ainda no mesmo exemplo, ele precisaria puxar a bóia com o sujeito e, como qualquer salva-vidas pode nos explicar melhor do que eu, o próprio salva-vidas é quem deverá subir na bóia, trocando de lugar com o sujeito, e a usar para nadar, já que é melhor nadador. Só então pode puxar o outro. Correto?


Em parte. Em análise temos um segundo problema a ser pensado. O caminho que o analista faria de volta até a praia nem sempre é o que o analisando gostaria de fazer! Já se perguntou o que estaria fazendo aquele sujeito ali na água? E se ele tiver fugido por qualquer motivo da mesma praia em que o analista o vai colocar de volta? Pois bem, a idéia não pode ser essa em uma análise, a de simplesmente devolver em terra o analisando. O negócio se complica, porque é necessário que o analista faça o caminho que o analisando quer. Como saber o caminho?! Não tenho espaço aqui, mas leia o meu outro texto (Padre, se deixe aprender a rezar missa) que pode ser útil.


Mas nem de longe este é o melhor exemplo. Como eu disse antes, você já se perguntou o que faz aquela pessoa no meio do mar? Minha amiga Thaís Machado, citando a banda Terminal Guadalupe, diz que a vontade de fugir é sempre medo de ficar. O site dela está nos links indicados (texto Congresso internacional do medo). E se o medo de estar em continente for grande demais e ela (a pessoa) resolve fugir, para onde vai? Para o oceano. Mas isto importa pouco para nós por agora. Vamos nos ater ao exemplo. Eu ia dizendo que o anterior não é o melhor exemplo.


Isto por que o mais provavel é que o analisando não pegue a bóia. Por qualquer razão. Mas se lembre que ele tem uma razão em especial: o medo de voltar. De qualquer maneira, mais uma vez a simples vontade de ajudar e o instrumento do analista não serviram. É o fim?


Ainda não. Agora imagine que não só o analista não pega a bóia como nada para mais longe, tamanho o medo, que neste caso se torna evidente. Agora é o fim?! Não! De novo, o salva-vidas tem lá suas maneiras de resolver. Entre elas, ele simplesmente dá um soco naquele que está se afogando e o deixa meio grogue. Assim pode puxá-lo para terra firme. De novo, o método do salva-vidas não nos interessa muito, pois seria questão de tempo até o analisando querer fugir de novo, uma vez que o medo ainda persiste. E para onde fugirá? Não seria melhor tratá-lo em terra?


Não é uma opção completamente segura, pois ele estaria ali por vontade do analista e não por vontade própria. E ainda, assim como fazem os prisioneiros que tanto clamam por liberdade, nem pestanejam em mentir para se verem livres. O que fazer se o método usado pelo salva-vidas não funciona?


O jeito mesmo parece ser ir tentando jogar a bóia e ir atrás do analisando, mesmo que ele fuja. O mais impaciente ainda diria Oras, quer se afogar, se afogue. E iria embora. Mas não fiz psicologia justamente para ajudar outros? Mesmo que a ajuda não me sirva bem como instrumento, não pretendo desistir apenas por ter quebrado a cara. Então, nadamos atrás dos pacientes o quanto podemos e vamos nós e nossas bóias atrás dele até conseguirmos, pacientemente, que ele se canse ou segure a bóia. Daí voltamos ao primeiro exemplo. É preciso esperar que retorne o fôlego e nos diga aonde ir. Não adianta vencer pelo cansaço e levá-lo aonde não quer ir. Teremos que, novamente, pedir auxílio ao texto Padre, se deixe aprender a rezar missa e sugerir apenas que esperemos as propostas de caminhos dadas pelo analisando. Uma técnica bastante diferente da do salva-vidas.


A bóia, no fim das contas, importa menos para o analisando do que para o analista. Este último sim usará a bóia. Por isto, quanto mais conhecer a respeito dela, melhor poderá se apoiar sobre ela. Saber sobre as próprias braçadas também parece importante. O auto conhecimento e a vontade de ajudar, entre outras coisas, movem o analista para o mar. No entanto, nenhuma das duas coisas parece muito útil ao analisando, que parece precisar mais de vontade de aventurar em si mesmo e vencer seus medos do que dos instrumentos do analista.


Se dermos todas estas sortes, a análise acontecerá. Trabalho difícil, não?

domingo, 22 de junho de 2008

No sufoco...

... é um livro do Chuck Palahniuk traduzido para o português há não muito tempo. Palahniuk ficou famoso por seu livro Clube da luta, que mais tarde virou um filme interessante com o Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham. Um comentário sobre este filme posso fazer em outra hora, mas fica recomendado tanto o filme quanto os dois livros.


É um livro que conta como a personagem principal vive sua vida engasgando de restaurante em restaurante até quase morrer somente para ser salvo e, conseqüentemente, arrecadar fundos para si mesmo. Vale a pena ler para conferir como isto se desenrola. O livro esbarra em inúmeros assuntos na maneira Palahniuk de narrar. Entre eles, vou me ater em um específico.


Para isto, vou contar o final do livro. Mas fique tranqüilo, porque o que vou contar não estraga a leitura. Isto porque não revelarei a história, mas sim o sentido que se pode tirar dela. Com sorte, a vontade de ler o livro poderá aumentar. A história acaba e o autor diz que vivemos repetindo o passado.


O que ele quer dizer? Mesmo no livro, a personagem se vê frente a situações das mais diversas possíveis. Ele conta a história do menino que o levou a ser aquele homem e as histórias são bem diferentes! Como podem ser repetidas? Ainda mais em alguém tão dinâmico quanto aquela personagem, que tem várias facetas divergentes e várias histórias simultâneas, quase como se fosse uma pessoa diferente em cada situação. O que ele quer dizer?


Claro que o livro tem seu sentido peculiar, e este é um bom motivo para lê-lo. Mas como situações tão novas e diversas podem ser repetição?


Nossa, isto dá pano às mangas! O fato é que nossas repetições fogem ao nosso controle. Para aqueles que dizem odiar rotina ou que sempre pegam caminhos diferentes para voltar para casa, só tenho a lamentar a falácia ao qual se submetem ao fazer da Não repetição a mais pura repetição. Talvez por aqui eu possa responder à pergunta sobre o livro... as mais variadas situações giram em torno do mesmo tema sem percebermos. A chave para a questão é o Sem percebermos.


Não percebemos que os namoros não são A, B, C... mas A, A', A''. Ou as comidas. Ou os amigos. Ou as conversas. Ou o trabalho. Ou as viagens. Ou a negação de tudo isto. Assim como a personagem do livro não percebeu que repetia sua vida a cada capítulo diferente de sua história. Ainda bem que não percebemos!


Como assim? Sempre aprendi que repetição é um saco, que faz relacionamentos caírem em rotina e que estragam amizades ou qualquer outra coisa. Não seria melhor perceber as repetições e evitá-las? Pessoalmente, discordo que repetições sejam ruins a este ponto. São as repetições que nos fazem ser bons profissionais, por exemplo. Você iria em um médico que nunca repetiu por vários anos Ser médico? Ou contrataria um estilista que nunca assistiu a um desfile? Ou um administrador que não tenha feito contas e pensado em empresas por pelo menos alguns anos?


Em psicanálise, procuramos justamente por tudo aquilo que não percebemos mas que faz parte de nós. No entanto, não vivemos em constante análise e por isto não é preocupante que não percebamos as repetições. Aliás, contém certo grau de relaxamento quando nos permitimos repetir e usar a repetição criativamente. Como quando nos tornamos médicos, lemos, escrevemos, viramos estilistas ou administradores.


Mais uma vez, culpamos quem não devia por ter feito o que não fez. A repetição não parece ser nossa inimiga. Chuck diria, desta vez em outro livro entitulado Cantiga de ninar, que Quanto mais as coisas mudam, mais continuam na mesma. Concordo. Não podemos evitá-la. E algumas vezes (maioria delas) clamamos por mais do mesmo.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Quem é você?


Se ela soubesse! É claro que ela era Sofia Amundsen, mas quem era esta pessoa? Isto ela ainda não tinha descoberto direito.


E se tivesse outro nome? Anne Knutsen, por exemplo. Será que só por isso seria também outra pessoa?


(...)


- Sou Sofia Amundsen - disse.



 


Jostein Gaarder, O mundo de Sofia.


 


 




O cara do cachorro não tinha nome. Quer dizer, ele deve ter tido um algum dia, mas ele me disse que não o usava mais, porque não concordava com nomes. Ele achava que os nomes impediam que as pessoas fossem qualquer coisa que quisessem, e depois que ele me explicou isso, consegui entender mais ou menos o que estava querendo dizer. Digamos que você se chame Tony ou Joanna. Bem, você foi Tony ou Joanna ontem, e será Tony ou Joanna amanhã. Então você está ferrado, cara. As pessoas poderão sempre dizer coisas do tipo: Oh, isso é bem coisa da Joanna. Mas o cara do cachorro podia ser tipo umas cem pessoas diferentes, todas em um só dia. Ele disse que era pra eu chamá-lo de qualquer coisa que me viessa à cabeça, então, no início, ele era Cachorro, por causa do cachorro, e depois virou Sem-cachorro, porque ele foi a um pub tomar uns gorós e deixou o cão do lado de fora. Daí ele teve duas personalidades completamente diferentes na primeira hora que passamos juntos, pois Cachorro e Sem-cachorro são meio que tipos opostos, não são? Um cara com cachorro é diferente de um cara sem cachorro. Um cara com cachorro tem uma imagem diferente de um cara num pub. E não dá pra dizer: Oh, isso é bem coisa do Sem-cachorro deixar que o cachorro cague no jardim de alguém. Não faria sentido, faria? Como pode o Sem-cachorro ter um cachorro que caga no jardim de alguém, ou melhor, como pode ter qualquer cachorro que seja? E o argumento dele é o seguinte: todos nós podemos ser Cachorros e Sem-cachorross em um único dia. Meu pai, por exemplo, pode ser Não-pai quando está no trabalho, porque quando está trabalhando ele não é meu pai. Sei que isso tudo é muito complexo, mas se você pensar bem a respeito, faz sentido.



Nick Hornby, Uma longa queda.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Explicando psicologia

2 + 2 = 5


 


P.S.: "2 + 2 = 5" é uma música do Radiohead, mas foi originalmente dito no livro "1984" de George Orwell. Não tive a chance de ler o livro, o que espero poder fazer em breve. Mas o filme é de grande proveito. Assim como é difícil explicar o que é a psicologia, vai ser difícil explicar o porquê de, aparentemente, esta mesma expressão ter sido usada em situações quase inversas nestas duas situações. Na música, o autor cria um mundo bastante particular. No filme, o torturado se vê obrigado a participar de um mundo criado pelo seu torturador. A música diz que O céu está caindo/ Não está/ Talvez esteja (com modificações. Procure o original) e o filme diz Quatro! Cinco! Seis! Eu não sei! em resposta ao torturador. Contraditório?


Minha inocente idéia de escrever 2 + 2 = 5 era a de dizer que a psicologia evita lugares comuns. Acabei caindo num lugar comum. Ficou tão superficial que resolvi fazer um P.S.. E o P.S. me colocou frente a uma contradição que me obrigou a pensar no porquê pus o 2 + 2 = 5.


Na música, o personagem cria seu mundo. E no filme também! Mas como toturador. Não são tão opostos assim, exceto pelo lado em que a história é contada e pelo que cada um faz com o seu mundo particular.


Voltei para um lugar comum. De que a psicologia é a que diz que cada sujeito tem o seu mundo.


Fui resolver um problema e não só não resolvi como criei outro.


Seriam estes problemas reais? Ou coisas do meu mundo?


: )


Pelo menos eu me diverti. E você?


E este é, com toda a certeza, um artigo apenas literário.


 


P.S.: Alguns dias depois de escrever este texto, resolvi revisitar o tema em outro artigo intitulado Acredito que consegui... publicado neste blog. Apesar de já ter recebido críticas bem fundadas para ele não ser a melhor maneira de explicar algo sobre psicologia, serve melhor do que este aqui. Vou estudar mais e conforme minha visão da psicologia for mudando, vou postando mais coisas.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Padre, se deixe aprender a rezar missa

Qualquer um que já tenha se incumbido por pelo menos alguns dias da árdua tarefa de cuidar de um bebê em seus primeiros estágios de vida sabe o quão desgastante isto pode ser. É um ser que não fala com nossos sinais verbais, não consegue se locomover, mal conhece a própria mão e pé, não tem movimentos coordenados, é pequeno e tantas outras características próprias de sua idade. O que torna esta tarefa tão complicada?


Winnicott destaca um motivo, um bom motivo, para a tarefa ser difícil. O ódio. Em seu texto O ódio na contratransferência, recomendado para mães, pais e analistas, ele propõe que a mãe sente ódio de seu bebê. Mas estamos tão acostumados a pensar que as mães amam seus bebês, o que pode estar errado neste texto? Talvez no texto dele não tenha nada de errado, mas sim na nossa concepção de amor. Sobre amor, deixo para dedicar outros artigos. Por agora vou falar sobre uma possível inferência que se pode fazer deste texto e que pode se tornar outro motivo para que a tarefa seja complicada. Estou falando do sentimento de impotência na relação com um bebê.


Oras, em observação superficial se poderia argumentar que nos sentimos tão impotentes quanto o bebê frente suas dores e frente a situações que ainda não sabe lidar. O choro dele é sentido por nós com dor e nos coloca frente a pergunta O que fazer?. Parece que bebê e cuidador acabam se sentindo de maneira similar. No entanto, por agora não consigo provas suficientes para demonstrar se isto ocorre, como e porquê. Portanto gostaria de inclinar a conversa para o sentimento de impotência do cuidador. E mais, gostaria de pensar sobre a possibilidade de relacionar este sentimento à uma situação de análise.


Ensinar padre a rezar missa é um provérbio que aparece nas nossas falas quando alguém que acreditamos ser leigo em determinado assunto dá sua opinião sobre o mesmo assunto. Não é intenção discutir se os preceitos e lógicas usadas pelo leigos são corretos ou não, mas sim observar alguns sentidos presentes na frase e observar sua relação com o sentimento de impotência.


A frase supõe que o padre, por ser seu ofício, sabe melhor do que qualquer não-padre, portanto leigo neste assunto, como realizar seu ofício. Por ser este o sentido da frase, também existe visível proteção sobre o sentimento de impotência quanto à execução de seu trabalho. Como assim? Simples. O leigo, esteja certo ou errado em sua premissa, é ignorado pois o portador das técnicas e conhecimento é o padre. Supondo que o leigo esteja certo em um argumento e este provérbio seja usado, o padre, que supõe saber rezar a missa, pode contradizer o primeiro dizendo que é ele quem sabe rezar a missa e fim de discussão.


Agora, imagine uma missa em que um dos fiéis se levanta com uma arma na mão e ameaça o padre de morte. Como rezar a missa nestas circunstâncias usando as mesmas técnicas anteriores? Aparentemente impossível, não? Então, como poderia o padre saber rezar a missa sendo a missa diferente a cada dia, impondo novas situações e problemas que não se tinha pensado anteriormente?


Como este padre vai sair desta situação eu não sei. Mas o certo é que quando se julga que se sabe, ainda não foi experimentado algo novo, diferente. Supondo que cada contato com outro ser humano seja diferente do anterior (pelo menos fisicamente há que se assumir que são diferentes), como podemos imaginar saber como será o próximo contato? Só podemos imaginar saber para tapar a pequena falha de não sabermos.


O mesmo me parece operar com os bebês quanto ao sentimento de impotência. E supor que sabemos rezar a missa do bebê a todo o momento usando as mesmas técnicas anteriores pode desembocar em situações desastrosas. O padre pode, naquela situação, deixar a missa de lado e resolver a questão de outra maneira (talvez mais apropriada). Mas imagine que aquele padre começasse a rezar uma missa para o portador da arma. Pouco provavelmente sobreviveria, a menos que rezasse a missa correta. Como saber qual a missa correta? Agora, imagine um bebê quieto que sem motivo aparente muda de comportamento e começa a chorar desesperadamente sem parar. Como saber qual a missa correta? Imagine, desta vez, uma situação de análise em que o analista se depara com algo de inesperado em seu paciente e que ele próprio nunca havia se deparado com nada similar antes. Como saber qual a missa correta?


O fato é que não sabemos. Quem sabe qual a melhor missa é sempre o analisando, o bebê ou o portador da arma. Somos colocados frente aos nossos mais profundos sentimentos de impotência que são sempre difíceis de lidar. A maneira menos interessante de resolver estes impasses é recorrer ao velho provérbio e ignorar o outro. Parece que o melhor é deixar com que os três nos ensinem a rezar a missa, mesmo que eles nos tenham delegado o papel de padre. Caso se veja em situação de impotência e seja colocado em papel de padre, talvez o melhor a fazer seja pensar no título deste artigo.


 


P.S.: Texto dedicado às minhas irmãs. Ambas estão empenhadas na dura missão de ser mãe.

domingo, 8 de junho de 2008

Cumprindo o prometido

No artigo anterior citei o Calligaris. Abaixo, deixo o link para o texto que me baseei para escrever o artigo. Deixo o link também na sessão Indico, logo ao lado. Atenção... Nos links laterais coloquei o Mateus Caliari, que é um amigo poeta, mas não é quem citei. Citei o texto que leva o título "Você quer mesmo ser feliz?" com este nome na barra lateral. Não deixe de visitar ambos.


http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=1172


E, cumprindo a promessa da palhinha do livro que estou escrevendo, posto-a abaixo.


 "


Vamos à história. Acordei embasbacado com o tanto de coisas felizes que nos rodeiam. O que importa é ser feliz. Vai, lute por ele... a felicidade é o que importa. Você deve fazer suas escolhas conforme o que é melhor para você. Amo muito tudo isso. Tudo de bom. Se você está feliz, eu também estou. Sorte de hoje: você terá paz e harmonia na sua vida amorosa. É. Esta última frase é do Orkut.


Resolvi que é por esta tal felicidade que vou começar. E talvez este livro seja sobre felicidade. Estranho? Eu sei que o primeiro capítulo não se parece com a felicidade, mas a idéia é esta. Quero escrever sobre felicidade supondo um mundo precisamente oposto ao nosso. Quero escrever sobre felicidade imaginando um mundo em que só se fale de tristeza, se venda tristeza e se compre tristeza. Imagine um mundo em que cada vez que você ouvir felicidade eles dizem tristeza. Cada vez que ler em outdoors sinta-se bem, leia sinta-se mal. Toda vez que encontrar amo, leia odeio. Sempre que pensar legal, pense chato em seu lugar. Mas não só isto. Neste mesmo mundo, sempre que pensar tristeza troque por desgraçadamente triste. Ódio troque por o mais profundo e miserável desejo de que tudo explodisse em suas próprias mãos.  Imagino o quão difícil vai ser criar um mundo assim em que ainda existam seres vivos. Em que as bombas nucleares e de hidrogênio não sejam jogadas ao mesmo tempo em lados opostos do mundo para vê-lo rachar. Não faço idéia se seria melhor jogar em lados opostos, mas que seria divertido compartilhar a desgraça com mais gente, neste mundo, seria. Divertido não, horrível! Mas como disse antes, vou escrever a mentira para ver o que de verdade existe nela.


"

Felicidade foi-se embora

Acordo. Olho para a pasta de dentes e me lembro da propaganda com moças sorridentes. O espelho me diz o contrário. Alguém diz Bom dia. Muito embora eu só consiga responder ...Dia. O leite é o da propaganda com crianças brincando. O achocolatado é o de crianças super-heroínas. O carro é daquela propaganda em que tudo fica lindo quando se entra nele. Em locais de trabalho existem aquelas placas ensinando caminhos para a felicidade. O orkut me diz que serei extremamente bem-sucedido nos négocios hoje. As conversas levam sempre ao mesmo destino. Seja feliz!


Pior ainda quando sou forçado a dizer minha profissão. Quando digo que sou psicólogo ganho uma demonstração gratuita de moralismo e felicidade excessiva. Mesmo quando ganho o contrário, uma pessoa que reclama e se diz sofrer demais, o final é inevitavelmente o mesmo. O importante é ser feliz.


Aproveito que estou escrevendo um projeto do que espero se tornar um livro sobre o assunto para comentar o tema. No final, deixo uma palhinha dele. Mas é que a felicidade se tornou epidêmica. A luta cotidiana pelo pão nosso de cada dia acabou e deu lugar à felicidade nossa de cada dia. Há anos! E a culpa, muito embora possa ter ficado esta impressão pela maneira que comecei o texto, não é da televisão. Aproveito para desfazer o engano. Pasmem: a programação televisiva é mantida por outros seres humanos!!! O que esperar dela, além de ser veiculadora daquilo que é o próprio ser humano em dado momento histórico? Pois bem, não a culpe pela nossa incapacidade de ser feliz.


O que pode estar acontecendo, então? Não sei ao certo de onde isto veio nem para onde isto vai. Mas conheço um texto que pode ajudar. Calligaris escreveu em 28/01/2007, em seu texto "Você quer mesmo ser feliz?", que a felicidade não pode ser satisfeita. Difícil de entender? Nem tanto. Defina felicidade.


...


Aí está o ponto. Qualquer definição que se dê é baseada em uma imagem que não necessariamente condiz com a realidade. E mesmo quando se torna realidade, não é incomum que se ouça Não era bem aquilo que eu esperava. Mesmo que seja exatamente como o esperado, é momentâneo. Ainda com o Calligaris, a felicidade, pelo menos na modernidade, se sustenta pela inveja. Se sustenta pelos sonhos que foram realizados (por outros). Queremos jogar bola como o Pelé, ganhar dinheiro como o Silvio Santos, ter uma casa como a do Tom Cruise, as namoradas do Charlie em "Two and a half men" e ainda esperamos que isto caia do céu, o que nos tornaria deuses.


E então, o que fazer? Nada. Como nada? Então, de nada adiantou se falar a respeito? Espero que possa adiantar a partir de agora. O que quero dizer com Nada é que me parece impossível que paremos de pensar no futuro, idealizá-lo, construí-lo, fazer acontecer ou não acontecer. Também parece pouco proveitoso que culpemos nossas crenças no que será o futuro por todas as nossas desgraças. Isto porque o futuro, exatamente pela razão de ser ele o que sonhamos como um lugar melhor, faz com que modifiquemos o presente num sentido talvez melhor. De nada adianta deixarmos de ser invejosos.


Oras, se não adianta deixarmos de ser invejosos e não adianta nem tentar ser feliz porque felicidade é inalcançável, o que fazer?


Delicie-se para responder à sua maneira. Digo qual é a minha. Deixei este papo de felicidade de lado. James Barrie, quando escreveu Peter Pan, disse que a fada, por ser de tamanho pequeno, só tem capacidade para ter um sentimento por vez. Talvez ela seja mais sortuda que nós de conseguir isto, mas aprendi com as fadas (viu como é possível?) que a clareza sobre aquilo que se sente pode ser interessante. Não estou falando de ceder a impulsos, gritar com namorado quanto estiver com raiva, gargalhar em shopping lotado que nem criança porque ficou feliz, se derramar em lágrimas 24h por dia porque aquele safado te trocou por outra. Não que não possa acontecer, aliás recomendo todos estes atos pelo menos uma vez na vida. O que quero dizer é: ter claro o que se sente e deixar que aconteçam os sentimentos pode fazer parar para pensar sobre eles. E qualquer coisa que faça pensar também exercita a criatividade. Assim, você chora 24h na primeira vez. Mas na segunda, você chora 20h e escreve poemas 4h. Na terceira, você chora 18h, escreve 4h e até consegue dormir por 2h. Claro que nunca deixaremos de chorar. Mas também nunca deixaremos de nos alegrar com uma criança que nos diz um sorridente oi nas ruas em um péssimo dia chuvoso.


E a felicidade? Bom... ela virá. Mas com clareza: será bastante temporária. A tristeza também é parte da alma humana. O ódio, a inveja e o egoismo. Todos podem ser usados a favor, quando usados com criatividade. Isto é não obedecer ao ditado Seja feliz. Ainda com Calligaris, não tenha um feliz ano novo... tenha um ano interessante.


A palhinha do livro posto em outro artigo. Este já ficou demasiado grande. Quase triste?

sábado, 7 de junho de 2008

Ah! Então foi assim...

Obviamente, o primeiro Escrito. Aquele em que a gente se apresenta. A primeira impressão é a que fica?


Não sei. Mas aceitei a dica de um amigo que mandou por iogurte: "Cara, faz um blog". E aproveitei que tenho uma amiga e ídolo que coloca várias coisas legais no blog dela para ser o que impulsionaria a criação do meu próprio blog.


Minha idéia? Não sei ao certo. Quero escrever sobre coisas que me façam ou fizeram pensar. Ainda não tenho certeza se ele sobreviverá.


Ah! O título... também é emprestado. Esse mesmo amigo que disse que eu deveria fazer um blog... pois é. A gente vive repetindo essa frase, que o Freud explica, mas não resolve. Porque acreditamos que Freud é muito bom, mas tem uma observação importante a se fazer: quanto mais se lê mais se percebe que ele pode explicar psicanaliticamente o porquê, por exemplo, de o melancólico ser desta ou daquela maneira, de os chistes funcionarem por esta ou aquela razão e mais um monte de coisas que ele escreveu em mais de vinte volumes, mas isto nunca resolve a melancolia ou cria a piada. Assim, ele explica, mas quem tem que se virar é sempre o sujeito.


Mas isto não esclarece nada. Por que este título? Nem adiantaria explicar... não iria resolver.


A arte de deixar o que não importa passar.


Foi assim. Resolvi começar.