terça-feira, 7 de outubro de 2008
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Dave Matthews, Ben Harper, About us e esperança
Esta semana resolvi inaugurar uma categoria nova no blog. Já escrevi outras vezes sobre música, mas agora resolvi que terei um espaço para ela por aqui. É que este fim de semana assisti um show memorável da Dave Matthews Band, conhecida também por suas iniciais DMB.
Em sua turnê pelo Brasil neste 2008 já esteve em Manaus e em São Paulo e estará hoje, 30/09, no Rio de Janeiro. A julgar pelo show de São Paulo, será imperdível.
Aproveito para prestar uma homenagem a LeRoi, recentemente falecido e ex-saxofonista da banda, e para lembrar que os músicos da banda se apresentaram de preto.
Sobre a música, Dave e banda estiveram impecáveis com improvisos que são de seu costume e sem repetir set list. Os shows de Manaus e São Paulo variaram músicas e versões e o público do Rio pode esperar o mesmo. Torço para que a homenagem para o LeRoi dê certo lá. Ela está sendo organizada pela DMBrasil, um site brasileiro sobre a banda que acompanho há 7 anos, desde que ele existe.
O show foi feito em um festival de música que ainda compareceram, para citar alguns, o Ben Harper, Seu Jorge e Vanessa da Mata. O festival leva o nome de About us e foi, afora os imperdíveis shows, uma das coisas que me chamou a atenção. Já ouviu falar em evento ecologicamente sustentável?
Pois bem. Ingenuidade seria se eu acreditasse que os presentes quisessem limpar o planeta. Não queriam. Estavam todos ali para ver as bandas. Mas é que mesmo assim, pude presenciar cenas raras. Um evento com trinta e cinco mil presentes e pouquíssima sujeira no chão ao fim da festa. Quase não era possível achar uma bituca de cigarro. Organização do evento?
Sim e não. Claro que a preocupação deles com o bem estar do planeta foi determinante. Mas mais do que isto, idéias realmente simples fizeram a sujeira ser reduzida. Bituqueiras de cigarro eram gratuitamente distribuidas e feitas de materiais já reciclados. Grandes latas de lixo perto de locais imprescindíveis. E muita propaganda no telão. Em verdade, a propaganda no telão só me chamou a atenção pelo fato de que ninguém dava bola para ela. Há muito já me convenci de que se conscientização fosse suficiente, a humanidade já teria se salvado. Como assim?
Desconheço qualquer pessoa que não tenha vícios. Em absoluto. Não raro ouço que Sou viciado em pizza, I'm addicted to Simple Plan, Não consigo parar de mexer a perna, Fumar é meu vício, Não consigo parar de mentir, Não sei porque, mas café... não passo sem. E é este Não sei porque que vai me ajudar a responder a pergunta acima, Como assim, para o porque de a conscientização não salvar a humanidade.
Não sei porque sempre surge, reparem, para coisas que, mesmo que usemos a consciência, não conseguimos fazer diferente. Assim, o sujeito pode ter vários problemas sérios de estômago ou pulmão e ter sido alertado diversas vezes para parar de beber café ou fumar que ainda assim achará bons argumentos para manter-se na mesma situação anterior. Pois é, há muito Freud nos alertou de que não temos em nós mesmos o controle sobre nós. Uma maneira simples de vê-lo falar disto é ler as Cinco lições de psicanálise. Os exemplos que dou aqui são bastante simples comparados aos que ele dá nos textos, mostrando de maneira fácil que, em verdade, não nos governamos.
Não que as esperanças acabaram. E a About us me relembrou que não acabaram mesmo. Mas é que ainda teimamos que o simples conhecimento de algo nos tornará imunes a ele. Quer ver?
Frases recorrentes em minha vida de psicólogo, Você tem que se tratar, como vai conseguir tratar dos outros sendo louco, Você que sabe bem disto, não poderia agir assim, Como é que você, um psicólogo, pode pensar assim, Isto é repressão e você deveria saber disto. Para todas estas frases, duas coisas. Psicólogo não deixa de ser um humano. E o mais importante para este texto, também não sabemos porque fazemos certas coisas, justamente pelo fato de sermos humanos. Por isto, apenas saber não salva a humanidade.
Mas não temos controle sobre nós e a esperança por um mundo melhor não acabou, como ela se sustenta?
Pois é, como? Não sei. Posso arriscar que seja o amor, o trabalho, a cooperação, a arte... Esta tal esperança nos ocorre, também, fora dos limites de nossa vontade. E apesar de eu ter ouvido de todos que os vídeos sobre ecologia estavam uma chatice e todos xingarem a mocinha no palco quando falava de evento sustentável, foi um dos eventos mais limpos que já presenciei. A minha esperança veio daí. E de ver artistas de alta qualidade, como Dave Matthews Band e Ben Harper, tocando nossos corações com músicas da mais alta qualidade. E de ver trinta e cinco mil pessoas em favor de se divertir sem, pelo menos que eu tenha visto, nenhuma briga.
E a sua, vem de onde?
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Curinga, Todd, Amor, Ódio e Freud
Para os que ainda não puderam conferir o novo filme do Batman, o cavaleiro das trevas, não percam. Mas reparem. O Batman não é o ator principal do filme. Aliás, ele chega a apelar várias vezes para filmes do 007 em momentos absolutamente dispensáveis. 007 tem clima para um agente absurdamente irreal. Batman perdeu a graça usando este tipo de cena. Não porque são chatas. Não são. Mas é que ele só faz isto. Já o Curinga...
Desempenhou mesmo um papel difícil, o ator. E mostrou para o que veio. Pegou o espírito da coisa e foi a fundo no personagem. Resultado, um Curinga extremamente sincero para com o seu papel. Em ritmo enlouquecedor para quem assiste (agora se imagine interpretando o personagem), põe em ação tudo o que irá acontecer durante o filme. Quer ver maldade? Veja o novo filme do Curinga.
Maldade por maldade, me lembrei do Sweeney Todd várias vezes enquanto assistia o novo Batman. É que o Curinga e o Todd têm lá suas diferenças. Ambos abusando de maldade, claro. Mas o Todd tinha um, por assim dizer, motivo. O Curinga, aparentemente, não.
Todd volta depois de longo período recluso de sua cidade para se vingar daquele que matou sua família. Não estraguei nada do filme até aqui, para quem ainda não viu. Isto que contei são apenas os quinze primeiros minutos. Cenas teatrais, filme musical, mas nem um pouco cansativo. Muita crueldade e meticulosidade movem o barbeiro a cada novo treino para sua vingança maior. Não quero contar mais sobre o filme. Dizem que o ódio cega.
Mas também dizem que o amor cega. Ou é cego.
Então, como enxergar?
Outro dia, um grande amigo de longa data esteve me contando sobre as dificuldades de dirigir seu carro. É que ele é quase cego de um olho. Esteve me explicando que perde a noção de profundidade quando se enxerga somente com um olho. Um professor que tive na faculdade já me alertara, Se você acha que dois olhos apontando para o mesmo lugar e o dedo polegar não fazem diferença para a evolução, experimente fechar um olho, amarrar o dedão e pular para agarrar um galho de árvore. Mesmo assim, tentei. Dirigi com um olho só aberto durante alguns segundos. Me convenci logo que chegou a primeira curva e o primeiro carro. Faça isto somente a baixas velocidades, não quero ninguém me culpando por seus próprios acidentes.
Voltando ao assunto, se o ódio cega e o amor também, mas nem por isto deixamos de enxergar certas coisas apenas porque estamos em estado de ódio ou amor, estes sentimentos devem cegar um olho só. O Todd não deixou de ver o alvo de sua vingança. E o Curinga... bom... eu diria que não deixou de enxergar o alvo de seu amor. Estranho?
Certa vez, Calligaris nos sugeriu que a melhor maneira de amarmos ou sermos amados é quando o parceiro se torna um enigma. E o Batman acha o Curinga um verdadeiro enigma. Que esta seja a última vez que falo do Batman. É que sua autonomia no filme é tão pequena que quem alerta o herói que seu vilão é um enigma é o seu mordomo. E mesmo o Curinga acha o Batman um enigma, já que quer descobrir a verdadeira identidade de seu rival mascarado. E estranhamente, um nunca mata o outro. Isto me lembra inúmeras músicas estilo Entre tapas e beijos.
Todd é cruel. Mas é uma pena. Se eu pudesse reescrever aquele final, eu certamente tiraria o clima de Moral da história que ele contém e substituiria por algo realmente cruel. Porém o filme não perde seu brilho. Todd esteve cego do olho do amor, que o ódio lhe cegou. Não esteve ausente de realidade, só a enxergou por um ângulo sem profundidade.
Curinga, por outro lado, impecavelmente louco, tem o olho do ódio cego. E só ama seu rival. Jeito esquisito de amar, é verdade, mas talvez a loucura dele esteja no fato de amar estranho e não em matar. Matar é quase conseqüência. Outro dia, e digo isto mais uma vez, falo sobre o amor. Se ele fosse simples, não existiriam poetas. E nem seriam contraditórios. Voltando ao Curinga, ele se mostra lúcido demais em duas passagens. Uma, diz ao herói Não quero matá-lo, só desmascará-lo. Entre tapas e beijos me vem em mente. Outra, A loucura é que nem a gravidade, basta dar um empurrãozinho.
Entre um e outro estamos nós, espero. Ora nos cegando de um olho, ora de outro. Jamais estamos sãos e sabemos disto, pois reconhecemos abertamente que o ódio cega. E o amor também.
Como enxergar? Não negando nem um nem outro. E nem que tanto um quanto outro podem ser construtivos e destruitivos. Problema é que para enxergar com os sentimentos não existe nem fórmula nem órgão corpóreo específico. Todd deu o jeito que conseguiu (ou pôde) dar. Curinga também.
P.S.: Freud nos alertou várias vezes que em nossa normalidade somos loucos. É que nunca tinha citado ele assim, abertamente. Fiquei com vontade de creditar algo àquele que intitula este site. Leiam a Conferência XX de suas Obras Completas.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Mudanças
Nós nunca mudamos de fato
Coldplay
Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo.
Lulu Santos / Nelson Motta
Afinal. Mudamos ou não?
Tudo muda ou não?
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Sobre a verdade
Quando ouvi esta frase eu assistia televisão em um lugar que dava para ouvir conversas vindas da rua. Daí comecei a ouvir tudo repetidamente três vezes. Eu ainda não tinha enlouquecido, porque minha mãe também estava ouvindo estas vozes. Até que do outro lado do portão ouvi Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta para mim. Aqui é o José Carlos Biagioti, tia, abre a porta pra mim. Aqui é o José Carlos.... Biagioti, tia. Abre a porta p'mim.
Vai saber o que me moveu no sentido de abrir a porta, porque já em primeiro alarme fui avisado que seria melhor não ir até lá, Vai que ele está com um pedaço de pau na mão, bêbado, e pega você de surpresa, este foi o sábio aviso de minha mãe. Mas é que a mãe, este lado oraculoso de nossas mães, mesmo tendo razão, sempre é ouvida depois que tudo acontece. O oráculo do Édipo rei foi a mesma coisa. Só fizeram algo depois que já era tarde. Por que eu seria diferente, me perguntei.
Com o que restou de sobriedade em mim, ouvi minha mãe quando me disse para dar a volta e ir pela porta dos fundos. Mal sabia eu que teria um encontro implacável com uma verdade que não sossegaria até que fosse dita de maneira completa, clara. Subi pela rampa de acesso que leva aos fundos e dei a volta na casa, indo para o portão, desta vez do outro lado dele. Vi de longe um alguém sentado e de costas. Estranho que a verdade se nos apresenta primeiro de costas e só aos poucos se nos mostra.
Quando se virou, não se apresentou logo, claro, o que mais esperar da verdade. Eu que tive que lhe fazer as perguntas. Você, está bem, quer água ou precisa de algo. Nada de respostas. Quando se dirigiu a mim disse Sou o José Carlos Biagioti, eu vim buscar meus documentos com a minha tia que mora nesta casa, e apontou para a minha casa. Claro que esta não era a verdade. Repetiu mais duas vezes para ver se eu acreditava. Resolvi acreditar.
Perguntei o nome de sua tia. Sem resposta. Em vez disto, ouvi três vezes Eu vim da guerra mundial do Brasil, em Ribeirão Preto, eu sou polícia. Guerra mundial do Brasil, aqui em Ribeirão, e quem mais esteve nesta guerra, perguntei, Só eu, matei todos os estrangeiros, Tinham estrangeiros em guerra aqui, eu quis saber, Alemães, ingleses, americanos, franceses, tinha até japonês, Nossa, e como você fez isto sozinho. Silêncio. A verdade não se revela assim tão fácil, às simples perguntas.
Mas interessante que as duas repetições além da frase original pararam. Acho que parou de tentar me convencer. Teria que revelar a verdade por outra via. E como não respondeu à última questão para não se revelar simplesmente quando lhe fosse requisitada, resolveu mudar a abordagem.
Todo mundo é inimigo, e eu sou tenente coronel, sou da polícia, a guerra mundial do Brasil acabou, foi lá em Ribeirão, e todo mundo é inimigo. Resolvi oferecer mais água. Ribeirão Preto, neste dia, estava marcando quarenta e dois graus celsius. De verdade. Ignorou.
Você é meu inimigo, eu mandei você me matar, E por que eu faria isto, Porque você é inimigo, Ora, mas você pode até se dizer meu inimigo, mas veja, não estou tentando lhe matar, quero lhe ajudar, estou oferecendo água. Reparei que o cigarro apagado em sua mão tremia muito e ele se esforçava por tragar em vão. Aquele homem devia ter uns 50 anos, aproximadamente. Semblante cansado, respiração difícil e bastante trêmulo. Mas não hesitava em andar em baixo de sol pleno. Era aproximadamente 15h. Simplesmente ia. E se encostava na parede enquanto estava sentado. Era assim que o tinha encontrado.
Ei, eu estou reconhecendo você, você é meu filho, disse ele, E como eu me chamo, retruquei, Não lembro, E qual a minha idade, Uns 20 anos, e você vai me levar para casa, minha tia está me esperando com meus documentos, Mas se sou seu filho, eu que moro na sua casa e não o contrário, Não, você vai me levar para casa e me oferecer um café à sua mesa, Já lhe ofereci água, mas se quer um café lhe trago, você pode esperar, perguntei, Eu não, você é meu inimigo.
Inimigo por quê, perguntei, Porque você estava na guerra mundial de Ribeirão Preto, a cidade que eu construí, E destruiu na guerra, perguntei. Silêncio. E você ia me matar, Acho que não, você não me é inimigo, ao contrário, estou lhe tratando como amigo. Sua expressão mudara e pela primeira vez me olhou nos olhos. Pediu com os olhos que eu lhe repetisse a última frase, como ele mesmo o fazia quando queria me convencer, no início de tudo. Desta vez eu teria que convencê-lo. E olhando em seus olhos disse novamente Para mim, você é amigo. Estendeu a mão e esboçou um aperto de mão. Dei-lhe a minha mão. Foi a única vez que o vi sorrir. Se levantou animado, querendo ir para casa. Pois vá, estarei aqui para quando quiser ajuda, Oras, me arrume um copo de água, Quer um fósforo, perguntei. Silêncio.
Voltei com uma garrafa de dois litro de água e uma caneca. Só que o encontrei dormindo. Ainda na ânsia de cumprir minha palavra, resolvi que ia buscar uma garrafa menor e deixar a água ali, para quando acordasse. Aproveitei e peguei uma caixa de fósforo. Quando voltei, ele estava sentado já acordado. Não se lembrou de seu filho até que eu lhe dissesse que era seu amigo, não inimigo. Então, de repente, quase sem sentido, ele me disse a verdade! Na cara! Aquelas palavras não poderiam ser mais sábias. Fiquei sem jeito. Andei meio de lado. Ressabiado, sorri e só pude dizer Oras, pode ser. Tomou água com toda a certeza de que era a melhor parte do seu dia. Lembrei do relógio marcando quarenta e dois graus. Terminou sua água, não quis ficar com a garrafa, pegou a caixa de fósforo e fumou o que restava do cigarro apagado em sua mão. Ainda me disse que matou muitos inimigos e que vinha da guerra mundial do Brasil. Falou algo sobre voltar de avião para a casa do próprio pai. Sem mais nem menos, se levantou e foi embora.
Fiquei pasmo. A verdade me fora revelada, sem custo, sem dor. Tudo o que precisei fazer foi dizer que era sua amiga. E não se engane com aparências, a verdade se revela por entre as mentiras que contamos. Em verdade, nenhuma mentira é mentira, ao contrário, é verdade pedindo gentilmente por ser revelada. Mas aquela verdade... minha mãe me avisou para não ir lá, eu iria levar uma paulada. O que ele me disse foi... Você é louco, pois está conversando comigo. Louco.
sábado, 6 de setembro de 2008
Inteligência, sofrimento e internet
Tenho notado a freqüência com que se associa inteligência com capacidade de apertar botões. Um aqui outro acolá repetem frases como Meu filho é muito mais inteligente do que eu, já sabe mexer no controle remoto da televisão e tem apenas 3 anos. Outros dizem que os filhos já sabem, aos 5, usar o computador. Freqüentemente também, os pais se perguntam o que este menino, ou menina, fica fazendo até tão tarde na internet que eles não têm domínio algum.
Não vivi a esta outra época, mas também com grande freqüência ouço que as revistas em quadrinhos, quando de seus surgimentos, teriam o mesmo poder destruidor da humanidade que tem hoje a inter-rede. A geração anterior a esta, que prega que a internet destruirá o mundo, leu quadrinhos. Muitos quadrinhos. E seus pais se perguntavam e ficavam em dúvida se eles, os quadrinhos, não destruiriam seus filhos e, por conseguinte, o mundo.
Claro que não me isento de ser participante ativo deste que já é meio de comunicação importante entre pessoas de todas as idades ao redor do mundo. Mas é que me soa antiqüado dizer que a internet é ou será responsável pela desgraça da humanidade. Digo isto porque tenho notado o quão importante têm sido as visitas neste blog de pessoas buscando ajuda para si ou conhecidos. No entanto, isto tem me preocupado. Porque pouco tenho escrito aqui que acredito que possa ser uma luz no fim do túnel. Ou que possa indicar caminhos. Ou que algo de novo possa ser enxergado. Por enquanto, ainda não é o que pretendo escrever. Explico.
Outro dia, em conversa de bar, alguém que tive pouca oportunidade de conhecer melhor me pergunta minhas características pessoais. Dei-lhe então toda a minha sinceridade em responder tanto coisas que são socialmente reconhecidas como boas quanto como ruins. E nem me atentei ao fato de tê-lo feito. Mas acontece que os olhos, do outro lado da mesa, se esbugalharam e ouvi Nossa, você deve sofrer um bocado. Resposta simples em forma de pergunta, E você não.
Ora, apesar de meu cansaço em ter que discutir este tipo de assunto e finalizar com uma pergunta que simplesmente evita delongas, não sei se não tive, por outro lado, certa razão. É que não conheço ser humano que não sofra.
De fato, o assunto não pôde prosseguir. Mas em verdade, percebi nitidamente que algo de desconforto e ao mesmo tempo conforto ocorrera do outro lado da mesa. Reconhecer que eu sofro e que este outro também sofre foi ao mesmo tempo espantoso e confortante. Não consigo provar, em linhas de blog, as sensações que pude observar, mas que ouve certo relaxamento após o clima de tensão, isto houve. Por que? Respondo agora, explico depois. Acredito, veja que é apenas uma suposição, que isto fez esta pessoa reconhecer que, apesar de sofrermos ambos, podemos nos recuperar do mesmo sofrimento.
Winnicott me vem em mente. E aproveito o seu curto, mas certeiro A função materna primária com excelente tradução (2000) no livro Da pediatria à psicanálise. É que ele descreve de maneira que poucos conseguiram fazer o que acontece com a mãe logo após o nascimento de seu bebê. Aliás, este autor fora durante sua vida exímio observador da relação de mães com seus filhos. E, com provas simples, ele conta como a mãe faz seu percurso a partir da anormalidade de volta para a normalidade logo após o nascimento do filho. Estranho?
Faço um pedido. Quando observar um recém nascido, não apenas observe aquele corpo em si, mas note com que facilidade a mãe atribui àquele bebê sensações que supõe pertencer a ele, sem saber se em verdade é isto que ocorre. Assim, ela diz que ele tem fome. Ou fez cocô. Ou xixi. Ou está com dor de barriga. Mas ela não sente o mesmo que ele. Quero dizer que, em certo grau, ela sente em seu lugar, como se fosse dele a vontade de que ele fosse alimentado. Mas é pouco provavel que um bebê saiba, nos primeiros dias, diferenciar uma dor qualquer de uma dor no estômago sendo que ainda nem reconhece sua mão como parte do seu corpo. Só que a prova mais convincente de que a mãe não está normal é que o cocô do bebê não lhe cheira mal. Pare do lado do bebê recém nascido e peça para trocar-lhe as fraldas. Mesmo que seja rápido, não nos passa a nós, que não somos mães naquele momento, despercebido o fato de que aquele produto tem um cheiro. Para a mãe passa.
Mas, no texto, o que me chama a atenção é que, depois de certa discução teórica, ele consegue afirmar que o bebê vai se constituindo a partir de se recuperar das próprias reações que tem ao ambiente. Cunfuso. Dito de outra forma, o bebê passa a adquirir segurança quando percebe que, mesmo que o estômago lhe doa e que isto pareça o fim de sua própria existência, ele pode se recuperar após algo acontecer. Ele reage às dores e, com sorte, algo lhe tranqüiliza. Isto o faz reconhecer que seus momentos mais frágeis e de sensação de desintegração de si mesmo são recuperáveis. Claro, isto tem ainda outros desdobramentos.
Só que é este pensamento que me importa agora. Para todos estes que procuram este blog atrás de respostas, que nunca lhes dei, posso dizer que pouco provavelmente lhes darei agora. Mas que, por outro lado, se ainda lhes resta esta capacidade de acreditar que é possível se recuperar da sensação inevitável de estar se despedaçando, esta mesma capacidade pode movê-lo a criar novas possibilidades de existência. E quero crer que buscar ajuda na inter-rede é uma das manifestações de que esta capacidade ainda existe. Este texto é, portanto, dedicado a todo aquele que sofre.
Neste sentido, nossa querida internet, bem como o ombro amigo, podem exercer funções bastante divergentes daquela intenção destruidora. Não só isto, a internet também vem cooperar com o que antes só era possível viver enquanto sensação de pura solidão. É que a internet abre a possibilidade de sempre encontrarmos alguém que, mesmo a meio globo de distância, pensa como nós. Sempre.
Ah! Durante a faculdade de psicologia, pelo menos nos anos que cursei, tive que condicionar um rato a apertar uma espécie de botão para tomar água. Com facilidade de pouco mais de uma hora de prática, o rato, que tinha pouco mais de um mês de vida, pôde apertar o botão para saciar a sede. Em menos de três meses depois disto, pôde fazer longas cadeias de rituais até chegar a apertar a barrinha. Aliás, sobre a inteligência de nossos bebês, tenho uma séria pergunta que me faço quando ouço algo relacionado. Por que acreditamos que inteligência é a capacidade de apertar botões e não delegamos tamanha importância a esta mesma capacidade em ratos?
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
O Brasil...
... está em vias de se tornar Primeiro Mundo. E resolveu começar pelos desastres naturais. Já temos terremotos, tornados, leves geadas, mas que têm se intensificado aos poucos. Ou pelo menos ganhado visibilidade aos poucos.
E agora estamos em época de eleição. Relutei muito em escrever sobre este tema. E para ser sincero, o tema dos terremotos e a discução de Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo me interessam muito mais do que este. Mas, já que iniciei o assunto, gostaria de fazer um pedido encarecido aos políticos.
Odeio comício. Odeio propaganda política, ainda mais as de trinta segundos. Odeio papeletinhos. Odeio adesivos de carros. Pensando nisto, eu gostaria de propor aos nossos queridos vereadores que, em vez disto que fazem, que se comprometessem de uma vez por semana estar em um ambiente público para discutir política por pelo menos 1h. E que fizessem isto desde a campanha política até o fim de seu mandato.
Pedir muito? Não sei. O psicólogo recebe de seus pacientes para ter um horário de atenção a eles. O médico e boa parte dos profissionais de saúde também. O engenheiro tem que dispor de parte de seu horário em função daqueles que lhe pedem para construir suas casas. O advogado pára seu dia para receber um cliente, que paga os honorários. Só que nós pagamos boa parte dos nossos salários para pessoas que nem sequer sabemos se têm mal hálito, mas que são lindas no nosso novo televisor de plasma com recepção de sinal digital. Claro, esta televisão a gente só vê nos supermercados, porque ainda é muito caro comprar uma. Ou o dinheiro está mal distribuído?
Por isto, eu aviso desde já que meu voto fica dedicado ao primeiro candidato que em minha cidade se comprometer em ter uma aparição pública semanal de hoje até o fim do seu mandato, em prol de conversar com quem lhe pagará o salário sobre aquilo que será seu ofício. A política. Nem que o candidato seja ruim, já merece um voto por ser inaugural. E se isto acontecer e puder virar moda entre os políticos, aí volto a analisar o que eles têm a me dizer.
Senhores políticos, se passarem por aqui e já estiverem fazendo o que propus acima, por favor postem um comentário me informando como entrar em contato. De preferência um email, tendo em vista que acredito que muitos políticos irão postar seus nomes aqui e o email facilita a comunicação com várias pessoas.
Claro, a última frase foi irônica.