domingo, 21 de dezembro de 2008

Menti pra você, mas foi sem querer

"Menti pra você
Mas foi sem querer
Me perdoe, amor
Mas não pude conter"


Pato Fu (composição: Rubinho Troll)



De um lado está o coro da maior parte da população que condena a mentira como se fosse um dos sete pecados capitais. Sendo assim, alguns se julgam capazes de avaliar a situação e verificam se seria possível perdoar ou não uma mentira. Na maior parte das vezes, o perdão se dá quando o culpado não sabia, ou alegava não saber, qual era o conteúdo verdadeiro da história que ele contava. Ainda dentro deste enredo, um discurso se mostra com certa força. O de que quem mente está, no fundo, mentindo para si mesmo.


Do outro lado, parece pairar mais um vício interpretativo entre os psicólogos que não se cansam de repetir que a mentira é a verdade daquela pessoa. Portanto, aquela história contada por alguém que mente faria parte do enredo fantástico que aquela pessoa é capaz de fazer.


Direto ao assunto: todos estes discursos parecem versar sobre a culpa.


De um lado, a mentira é condenatória e nitidamente confundida com criminalidade e falta de caráter. Neste caso, a culpa é de quem mente, claro. Ficou deste mesmo lado o discurso sobre Mentir para si mesmo porque ele parece ser capaz de promover o perdão da culpa. Soa como Já que mente, mente a si próprio e desta maneira sou capaz de perdoar.


A psicologia, que não vem (ou não deveria vir) de outro lugar que não as próprias pessoas, parece fazer força no sentido oposto a este. Para isto, libera de antemão as culpas do sujeito. Assim, a mentira é perdoada a priori porque a psicologia acredita que o sujeito não mentiu, mas disse sua própria verdade ou a verdade sobre si mesmo. Este pensamento é essencial para apazigüar a culpa de pacientes que chegam diariamente em clínicas de psicologia se queixando de que Não consigo parar de mentir.


No entanto, ele não é completo. Acredito que a mentira aconteça com todos e por todos. Por duas razões. Uma delas é que nem sempre podemos ter certeza de que o que falamos é verdade. Quer ver? Na idade média dizia-se que o sol girava em torno da Terra. Em tempos modernos esta idéia é absurda. Do ponto de vista da realidade, pode-se dizer que mentiram. No entanto, é possível dizer que não foram sinceros em defender o que acreditavam?


A segunda razão chama mais a atenção. É que na mentira também existe prazer. Não é incomum ouvir pessoas dizerem que preferem não saber da traição do marido ou da esposa a sofrer com a verdade. Existem multidões de pessoas que votam no "rouba mas faz". Também não é incomum ouvir que Uma mentirinha só não faz mal, ainda mais se usada para o bem. Por quê?


Não sei bem, mas constantemente reparo nas mentiras. E como elas são freqüentes. Aproveito a época natalina para dar um bom exemplo. Você acredita em Papai Noel?


Para as crianças a resposta deve ser sempre Sim. Outras mentiras aparecem também para as crianças de maneira demasiado freqüente quanto à sexualidade. Cegonha? Sementinha? O que os pais estavam fazendo no quarto, mesmo?


Não condeno a mágica do natal e do Papai Noel. Aliás, sou fã de histórias mentirosas que os adultos chamam de ficção. Mas não soa estranho que os pais reclamem que suas crianças mentem sendo que eles os criaram sob mentiras? Mais uma vez, não condeno a mágica do Papai Noel ou do Peter Pan ou da fada Sininho. Só que acho que os adultos poderiam lidar de forma diferente com as mentiras infantis e fazer delas algo mágico, tal qual fazem com o Papai Noel.


Será que, com isto, a idéia não deveria ser a mesma que fizeram os homens da idade média sem o saber: tornar uma mentira autêntica por meio da sinceridade?


Não fiz a mesma via de pensamento que fez o Calligaris, até porque não acho que os americanos sejam tão comprometidos com a verdade quanto quer o autor. Mas posso dizer que concordo com o título e o último parágrafo de seu texto No ano novo, prometo parecer sincero e autêntico.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

E se...

nem tivéssemos nos cumprimentado?
Se nem mesmo tivéssemos nos olhado?
Se tivéssemos mantido pose de educado?
Teríamos nos conhecido?

Como dois estranhos saberiam
que é hora de dizer Olá?
Se antes nem se conheciam,
mas de agora, durará.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Keane e meus pensamentos

"Alguns não conseguem se libertar dos seus próprios grilhões, mas conseguem libertar os amigos."


Nietzsche


 


"Quando nos apaixonamos


Apenas nos apaixonamos


por nós mesmos."


Keane


 


O recém lançado Cd do Keane, Perfect Symmetry, é, além de imperdível, um convite ao envolvimento. Para gostar de Keane é necessário atentar para o esquema musical, que muito me lembra o eletrônico oitentista que ouvia enquanto ainda era criança. A abertura, Spiralling, já deixa isto claro logo.


Como já disse, o Cd é imperdível. Mas Spiralling me fez ter um enorme devaneio. Isto devido à criatividade de sua letra. É que em certo momento ela, a música, nos diz Cold like some magnificent skyline, out of my reach but always in my eye line (Frio como alguns horizontes magníficos, fora do meu alcance mas sempre em minha vista, em tradução livre). Além de poética, pensei sobre a psicoterapia.


De fato, nossos horizontes são alheios ao nosso toque. Temos que observá-los, mas jamais poderemos tocá-los. Mas é que outras pessoas podem tocá-lo. Basta que se localizem no horizonte e nós lhe daremos o sinal para abaixar e... pronto! Nosso horizonte está ao alcance de outros.


O psicoterapeuta é, em tese, um destes que se propõe a tocar horizontes alheios. Sempre se lembre do que Nietzsche nos disse sobre libertar os outros e nós mesmos de seus ou nossos grilhões. Nem sempre podemos nos libertar. Talvez porque Keane tenha razão: não nos é possível a nós tocarmos nossos próprios horizontes.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Nós e a ciência

"(...) Não são as idéias, nem a visão, nem as ferramentas que realmente interessam na psicanálise. Se, no final de um tratamento, você perguntar ao paciente qual foi o processo da análise, do que ele se lembra? Nunca das idéias e sempre do relacionamento com o terapeuta. Eles raramente se lembram de uma conclusão importante do terapeuta, mas se lembram com carinho da relação. E me arrisco a dizer que isso serve para você também. (...)"




Em: A cura de Schopenhauer (p. 66)


Irvin D. Yalom


 


A National Geographic apresentou dia 10/11/08 um programa intitulado Mente bilhante, mais especificamente o episódio Gênio nato. Neste episódio, contaram a história de um menino, Marc Yu, que com sete anos já tocava piano com perfeição.


O programa foi organizado de maneira interessante e instigante, mas existia algo além da história que não foi contado pelo programa. Nem deveria ser, mas não pude passar sem reparar. É que o programa se organiza em torno de uma visão específica de ciência. E qual a importância disto?


Simples. Quando organizamos um programa televisivo em torno de um estilo de ciência também eliminamos, por conseguinte, todos os outros estilos de ciência que coexistem com o primeiro. Não creio que os programas televisivos devessem contemplar todos os tipos de visões científicas sobre cada tema. Se isto acontecesse, os programas ficariam enjoativos, repetitivos e sem conteúdo. Mas é importante que tenhamos conhecimento de que a NG é adepta a uma certa noção ciência e que podemos ter contato com outros tipos dela.


E é sobre uma outra modalidade de ciência, que não esteve inclusa no programa, que eu gostaria de falar. Em certo momento do documentário, eles mostram uma pesquisa realizada com uma quantidade grande de crianças com o intuito de verificar se a estimulação precoce ajudaria o desenvolvimento do intelecto. Resultado: até os 12 meses de idade existe pouca diferença no desenvolvimento das crianças, mas a partir dos 15 meses, com a criança sendo estimulada desde o sexto mês, aproximadamente, já é possível notar diferença significativa na aprendizagem da linguagem, matemática, QI e sociabilidade. E ainda, depois de crescerem elas foram comparadas a outros indivíduos não estimulados e obtiveram melhores resultados quanto aos empregos e desempenhos pessoais. Até aqui, apenas constatação de fatos.


As diferentes ciências convergem ou divergem a partir daqui. As explicações, motivos, maneiras de entender, maneiras de intervir é que determinam como cada ciência difere uma da outra. A primeira coisa que é preciso saber sobre este tipo de ciência descrita pelo programa é que ela trabalha com normalidade. Isto significa que tem que haver um número grande de sujeitos que serão testados e as arestas, por assim dizer, serão desconsideradas em prol do grupo. Assim, pouco importa que entre as crianças testadas pudesse haver uma ou duas que não chegaram nem perto do sucesso profissional, já que as outras chegaram e respondem pelo grupo todo. Quero dizer: nem todos são contemplados e, portanto, explicados. Segunda coisa a se pensar é que a explicação para o desenvolvimento das crianças se deu pela observação de seus cérebros. Sou materialista. Toda a transformação ocorrida passou, sim, pelo cérebro. Mas só?


Claro que não. Mas é que esta ciência exclusivamente materilista se esquece de aspectos importantes da pesquisa. Literalmente, se esquece, pois considera pouco (ou nada) o papel do contato humano na experiência. Como assim?


O experimento começou precocemente nas crianças. Algumas delas tiveram contato com os pesquisadores antes das seis semanas de idade. E permaneceram em contato com eles até pelo menos os primeiros anos de vida. Retornaram a vê-los na vida adolescente e adulta. Não teriam sido estas pessoas de extrema importância para a vida destas crianças? Não estariam os pesquisadores investindo os "sujeitos da pesquisa" de amor e afeto e ao mesmo tempo sendo investidos desta maneira? E ainda, não estariam eles investindo os mesmos "sujeitos" de expectativas sobre seus intelectos?


Este outro tipo de ciência não é novidade. Mas sem dúvida traria, se não tivesse sido deixada de lado, contribuições diferentes para a pesquisa. Não são contribuições opostas, mas complementares. Como por exemplo, propor que um dos objetivos seja verificar se os sujeitos tendem a não desapontar os pesquisadores. Ou que os sujeitos se achem sortudos de serem, depois de adultos, mais inteligentes simplesmente porque fizeram parte de um grupo que foi amado e esperado para ser inteligente. E ainda, como explicar aqueles que fugiram a norma?


As descobertas poderiam, estas sim, impressionar pelo incomensurável grau de sentimentos envolvidos nos sujeitos de uma pesquisa que até então tem sido desprezado pela ciência contemporânea dominante. A propósito, um romance que sem dúvida foi construído após muita experiência clínica neste estilo diferenciado de ciência é A cura de Schopenhauer. Vale a pena conferir o alto teor literário (e científico) de Yalom neste romance que emociona.

domingo, 2 de novembro de 2008

Sofia


Durante muito tempo, Hilde tentara fazer a mesma coisa. Mas piscar os dois olhos ao mesmo tempo para sua própria imagem refletida era tão difícil quanto querer correr da própria sombra. Por fim acabou ganhando de presente o espelho, herança da bisavó. Durante toda a sua infância ela tentou várias vezes realizar este feito impossível. (p. 311)



 




- A primeira coisa que eu vi foi que você não estava.


- Não é estranho que a primeira coisa que você viu neste local tenha sido justamente algo que não estava aqui?


(...)


- Quando você está apaixonada e esperando o telefonema de seu namorado, pode ser que você "ouça" a noite inteira que ele não telefona para você. O fato de ele não telefonar é exatamente o que você registra o tempo todo. Se você vai buscar seu namorado numa estação ferroviária e está numa plataforma tão cheia de gente que não consegue encontrá-lo, pode estar certa de que você não enxerga todas estas pessoas. Elas incomodam, mas são irrelevantes para você. Você pode achá-las antipáticas, eu mesmo repugnantes. Elas tomam tanto espaço... Mas a única coisa que você registra é que ele não está ali. (p. 489)



 




Se que o cérebro humano fosse tão simples ao ponto de podermos entendê-lo, nós seríamos tão idiotas que não conseguiríamos entendê-lo. (p. 355)



 




- Preste atenção. Um mal-entendido muito comum é o de achar que o espírito é "mais etéreo" do que o vapor. Na verdade, o que ocorre é o contrário: o espírito é mais sólido do que o gelo. (p. 526)



 




- Um de nós vai ter de nadar até o barco.


- Vamos nós dois, papai. (p. 547)



 


O mundo de Sofia.


Jostein Gaarder.

Devaneio

Qualquer previsão já soa mais apaziguante do que o nada, mesmo que no fim a previsão não tenha sido a melhor coisa.


 


Não se esqueça de se perguntar: prefiro a previsão ou o nada? Ambos são sofridos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Em terra de cego, quem tem olho...

... sofre. E não é pouco. Depois de assistir Ensaio sobre a cegueira, de Meirelles, ouvi alguns comentários importantes que não poderiam me escapar aos ouvidos.


Entre as críticas estão que É só um filme com um monte de cegos, Não acontece nada ou É só isso, outro pergunta. É. É só isso. É somente a história de como seria a humanidade se ficássemos cegos. Nenhum espanto mesmo. No fundo, conhecemos bem o nosso lado animalesco, bem caracterizado pelo filme. E também não me parece espantoso que já vivamos em sociedade similar. Concordo com o outro, é só isso. Só um filme sobre um monte de cegos.


Os comentários mais otimistas, que tentam compreender por outro ângulo o filme, diziam Puxa, eles se organizavam em sociedades como a nossa, Fica clara a relação de poder entre os homens, Estou cego. Mesmo nestes comentários, ainda é só isto... uma história óbvia sobre nós mesmos. Isto é uma crítica negativa?


Não. O filme é excelente e muito fiel ao livro. Fiquei com a sensação de estar relendo enquanto assistia. E arrepiei de ver São Paulo vazia, com lixo para todos os lados e pessoas se comportando como animais (e um animal se comportando como pessoa). Parece que fui o único que me surpreendi com a história entre meus amigos, mas eles têm razão. É só uma história sobre nós mesmos, contada e assistida de ângulos diferentes. E por isto ele é tão bom.


Em outra oportunidade, falei sobre a complexa maldade do Curinga. E um outro comentário foi sobre a complexidade sobre o bem e o mal em torno da personagem que enxerga, que tem olho. Aqui está a única coisa que preciso discordar, que se esperava dela que fosse uma heroína, uma pessoa certa, a única com possibilidade de manter em si leis morais.


Como eu disse no começo, em terra de cegos quem tem olho sofre. Não pretendo contar o filme, mas posso tentar explicar com algumas cenas. O ditado popular, Em terra de cego quem tem olho é rei, tem um defeito. Como saber se aquele que diz que enxerga, enxerga? Com efeito, o surgimento de alguém que diz que vê em meio a outros cegos, se não fosse desastroso por conta de causarem a destruição daquele dotado de visão (conforme Platão acreditava e Saramago também em A caverna), seria desastroso por conta de, a partir disto, todos poderem simplesmente dizer que enxergam. Aliás, freqüentemente ouço pessoas repetirem a pergunta Será que ele não enxerga isto que é tão claro para mim. Esta é uma das frases que parte do pressuposto que nós mesmos enxergamos. E certamente faríamos o mesmo caso fôssemos cegos. Como quando na cena do outro que disse estar diante de um negro por reconhecer seu tom de voz. Escuso dizer que o lado mais bestialmente excludente do ser humano esteve presente nesta fala. Mas ela também nos diz que ele sim enxergava, ele sim saberia distinguir o bom do ruim pelo tom de voz, quase enxergando sua cor. Quantas vezes fazemos isto por dia?


A decisão de não contar a quase ninguém sobre sua lucidez, por assim dizer, torna a única personagem que enxerga uma heroína sem igual na literatura. É aqui que entram os críticos que dizem que ela era uma heroína que ia contra princípios éticos. Que fazia também o mal. E também aqui que eu rebato a crítica e pergunto Qual ética? Qual mal? Naquela terra de cegos? Duvido que não faríamos o mesmo.


Freud, em Mal estar na civilização, nos lembra que não é possível a nós nos colocarmos em lugar de outrem, pois isto implicaria levar conosco toda a nossa experiência e subjetividade para tal lugar. O que implica em enxergar conforme si mesmo, e não conforme outrem. Acredito que tenhamos, neste caso, exemplo nítido de tal fenômeno. É que levamos a nossa moral, nossa ética para o corpo daquela que enxergava em meio a cegos. Só que nos esquecemos que no filme somente ela enxerga. Por isto, esperamos que ela aja como nós e soa mal, soa antiético que ela faça o que faz durante o filme. Por exemplo, correr de cegos esfomeados com sacos de comida em mãos.


No entanto, todo aquele que percebe algo de diferente, algo de novo, algo que somente ele diz estar enxergando também se queixa de sua situação de impotência. Não é raro, logo depois daquelas frases típicas de Será que ele não vê o que está fazendo, ouvirmos Mas ele é assim, não temos o que fazer. E sofremos frente a nossa impotência de querer fazer algo, mas não poder fazer. Os estadunidenses se enganam. Querer não é poder.


Por sorte, Drummond nos lembra que a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Nossa heroína sente dor. Mas por fim escolhe não sofrer. Digam-me... o que de antiético ou imoral existe em matar aquele que se dispõe em matá-lo de antemão, apenas por seu tom de voz? A lei brasileira reconhece este ato como, pelo menos, plausível de não ser entendido como crime. O que de imoral existe em querer comer após dias de fome e sendo tratado de maneira excludente por esta mesma sociedade que agora está cega? Discutir ética é sempre demasiado complexo. Mas discutir ética em terra (quase) sem ela é insano. O Curinga sim, revelou tal complexidade de maneira que o bem e mal são colocados a prova em todos os momentos. Mas a nossa heroína. Ela agiu como lhe obrigou a sobrevivência do corpo. E enxergar teve um preço caro. Teria que suportar que a sobrevivência transcende à razão. Teria que suportar ver a própria onipotência destruída frente ao caos.


Suportou como pôde, acredito eu. E isto não tem implicações éticas em terra sem ética. Calligaris aposta em mais uma coisa. Em caos, quando temos que recomeçar do zero, as mulheres, via de regra, se saem melhor.


 


P.S. em 02/11: http://caderno.josesaramago.org/2008/10/28/fernando-meirelles-cª/


"(...) foi a apresentação deste Ensaio sobre a cegueira em imagens e sons."


José Saramago