Para Cisco
Lugar novo. Onde será que é o banheiro? Ahá! Achei. Bem ali. Melhor ir agora antes que alguma coisa ou força maior impeça que eu faça isto mais tarde. Com licença, com licença. Cuidado com um pé. Outro. Cheguei!
..., mas ele era isto mesmo: peculiar. Tinha assim um jeito cambaleante e magro, além de alto e se vestia quase muito bem. O que não combinava era aquele cinto brega de caubói. O que se pode fazer, afinal? Ribeirãopretano, apesar de um povo bonito, se veste muito mal. Foi nesta cidade que ele cresceu.
E esta lição é a que encerra as Cinco lições de psicanálise, texto de autoria freudiana. Pois bem, Freud retoma a quarta lição no que tange as teorias da sexualidade, mais especificamente a sexualidade infantil, e diz que o adoecimento acontece quando falta a satisfação das necessidades sexuais, seja por obstáculos externos ou por ausência de adaptação interna. Se lembrarmos as lições anteriores e entendermos que estas necessidades não satisfeitas serão reprimidas, entenderemos que os sintomas mórbidos contém ou certa parcela de sua atividade sexual ou ela inteira, sendo uma maneira de satisfação substitutiva. Duas coisas acontecem: o ego se recusa a desfazer a repressão que o fez esquivar da disposição originária e o instinto sexual não renuncia essa satisfação substitutiva. E assim será enquanto houver dúvida de que a realidade pode oferecer algo melhor.
Enfim, falemos sobre sexualidade.
Na quarta lição, Freud nos diz de início que a grande maioria daquilo que é reprimido é de ordem sexual. Repressão é um termo que ficou melhor explicado na segunda lição, mas faço curto lembrete. Ela é a força que faz com que algo saia da consciência. Pois bem, a quarta lição conta-nos logo de partida que o conteúdo do que é reprimido é na quase totalidade dos casos a sexualidade. Por quê não outras excitações mentais poderiam ser alvo de repressão?
Não bastasse a segunda lição com inúmeros conceitos, a terceira vem e introduz mais um sem número de novas idéias. Por este motivo, o presente resumo não pretende ser suficiente para esgotar a lição que contém uma virada importante na teoria freudiana. Que é a passagem da análise de histéricos para a análise da vida comum, cotidiana.
São poucas as páginas que compõem a segunda lição de Freud. No entanto, são por demais densas e produtivas de profundos pensamentos no que tange o entendimento do ser humano. Nestas páginas, Freud nos mostra como se diferenciou de Charcot, que não tinha propensão para pensamentos psicológicos, e Janet. Do primeiro, divergiu por estar definitivamente preocupado com os processos psíquicos que originavam a histeria. Do segundo, divergiu quanto ao caráter degenerativo do sistema nervoso que Janet atribuía as histéricas.
Freud tem, no volume XI de suas obras completas (Edição Stardard Brasileira), uma série de cinco conferências publicadas chamadas Cinco Lições de Psicanálise. Nestas lições, ele comenta sobre como a psicanálise foi descoberta e desenvolvida.
Inspirado pelo filme
"Groundhog day"
... fossem 25 de dezembro? E se eu acordasse de novo naquele mesmo dia em que lhe conheci? Se eu lhe dissesse que vivo eternamente no dia 25, que faria?
Meu único lamento seria você não se lembrar do 25 anterior. Mas eu veria seus olhos se apaixonarem pelos meus com a mesma sinceridade de todos os outros dias. Não se apaixonaria de novo, mas sim pela primeira vez todos os dias. Eu me apaixonaria pela primeira vez continuamente, porque seria inútil eu usar a mesma paixão antiga e gasta contra a autenticidade da descoberta. Naquele dia você diria sempre que nunca deixou de me querer. Lembra?
Redescobriríamos o amor a cada dia pela primeira vez. Mesmo que a levasse a novos lugares. Fizesse coisas diferentes.
Todos os dias seriam o primeiro. E todos os outros se tornariam em 25.
Em homenagem ao sarau Eleituras.
Soubera de um certo sarau temático sobre Os sete pecados capitais. Comecei, então, a procurar por eles em vias de poder relatar a experiência. De início, a gula se fez clara pela falta de um "r" comido de Releituras. Pobre "r"... não bastasse a nova gramática, faltaram ao guloso escrúpulos em comê-lo.
Como ainda outros "rr" existem por aí, resolveram se vingar. Utilizaram-se de toda a ira que possa dispor a uma letra, ou grupo de letras, e organizaram um multirão. Atacaram o Rio de Janeiro. Pórrrta. Pôrrrteira. Pôrrrtão. Nas ruas foi um alvoroço. Porrra bródi, tu tinha qui vê a galiera puxando o érrre. Como não se controlaram, o invejoso "s" mostrou para o que veio. Exxtava na exxquina da exxcola exxperando o ônibuxx. Ira e inveja em um só parágrafo, na mais pura ganância ou avareza que um parágrafo pode ter.
Já que citei a nova gramática, gostaria de lembrar que neste últimos tempos cometeram um dos maiores atos de luxúria já vistos em uma língua. É que misturaram em um só quarto todos os idiomas portugueses a fim de tirar um filhote em comum. Eu, que não sou dado a orgias com este fim e propósito, fiquei de fora, com modos antigos, a escrever tremas e acentos diferenciais puramente morais, mas necessários, no meu entendimento. Chamem de vaidade se quiserem.
Para a preguiça, pensei mesmo em dizer sobre a falta de vontade literária de nosso querido Brasil. Mas, talvez por preguiça, julguei não ser o caso para tanto. Preferi escrever algo mais leve. Sobre a preguiça aparente ao tratarmos determidados assuntos como corrupção, assassinato ou desigualdade social. Mesmo os pecados capitais, que de início eram oito, mudam ao longo dos anos. Impomo-nos regras morais em número de sete sendo que as maiores atrocidades da humanidade são perpassadas por questões para além dos pecados. Estas questões nunca mudaram.
Não é pecado capital matar. Nem roubar. Ou mentir. Não é direito humano sonhar, nem surtar, se distrair. Não é pecado a impunidade. Nem direito a criatividade.
Questão de justiça: o que é pecado e o que é direito?
Se eu fosse letras, se pudesse me dar ao luxo de escolher-me a mim para gritar algo para o mundo, escolheria a frase: O mundo está ao contrário!
Chuck Lorre é o criador e produtor de duas recentes séries de televisão que passam nos canais fechados. O Two and a half men e o The Big Band theory (traduzidos livremente por Dois homens e meio e A teoria do Big Bang). O humor ácido e direto de Lorre tem feito sucesso no Brasil.
Uma curiosidade: ao final de cada episódio destas duas séries, Chuck coloca no ar um cartão que ele escreve após cada episódio. Vanity card não tem tradução precisa, mas a Wikipedia diz que é um logotipo de produção que promove uma marca. A palavra Vanity em si pode ser traduzida tanto como Orgulho excessivo (excessive pride) quanto como Vazio (emptiness). Talvez o nome Vanity não tenha sido em vão, e parece que as três definições fazem sentido. É um cartão que promove o Chuck Lorre, escrito com orgulho e sarcasticamente dito vazio, o que é característico no humor de Lorre. Para conferir cada cartão é preciso gravar o final dos episódios até depois de todos os nomes e créditos. Isto porque cada cartão aparece por menos de um segundo em uma tela de fundo branco. Para ler na televisão, pause o vídeo no fundo branco. A outra opção é entrar na página do autor e conferir todos os cartões já publicados (em inglês).
Até aqui, nenhuma novidade para os aficcionados nestas séries. O que talvez possa ser interessante é que existem alguns cartões que a CBS, produtora dos episódios nos Estados Unidos, censura. Sim, a censura também atua por lá e os brasileiros deviam mesmo saber que o "Free world" (mundo livre), como eles gostam de se intitular, é livre às custas de eficaz controle das liberdades. Inclusive atuando sobre a liberdade de outros países, de maneira direta e indireta. Lembre: esta não é uma discussão sobre quem é ou deveria ser livre, ou ainda sobre como deveríamos ser. É antes e tão somente um alerta para o fato de que a total liberdade pregada pela democracia estadunidense não é tão verdadeira quanto eles querem.
Lorre é um dos alvos. Como eu disse antes, alguns de seus Vanity cards foram censurados pela própria emissora e nunca puderam ir ao ar. Mas nós, claro, conhecemos as artimanhas. Ou passaremos a conhecer agora.
O cartão #171 foi o primeiro a ser banido do ar. Para que não passasse em branco, Lorre escreveu outro para que fosse ao ar. Pena estar em inglês, mas faço uma tradução livre: "Censurado, disponível para leitura se você souber onde procurar". O #217 é sobre censura e foi censurado. Chuck nos alerta, mais uma vez, que se soubermos onde procurar poderemos ler o conteúdo alvo da censura. Pois bem, aqui vai.
Para ler o conteúdo censurado basta adicinar a letra "c" ao final do link de cada cartão. Por exemplo, o link do cartão #171 é este:
http://www.chucklorre.com/index.php?p=171
Para acessar o conteúdo que não foi ao ar apenas adicione "c" ao final deste link e pronto:
http://www.chucklorre.com/index.php?p=171c
Quero aproveitar o tema Censura para comentar um cartão de Lorre que não foi censurado. O #155. É uma carta aberta à FCC (Comissão Federal de Comunicação, em inglês). Este órgão é o regulador de conteúdos e censuras nos Estados Unidos entre outras atribuições. Na carta, Lorre diz que determinar o que é vulgar baseado no "caso a caso" claramente confunde a todos. Então ele propõe uma solução para evitar desentendidos. Listado em duas colunas se vêem coisas Comumente boas e Comumente ruins. Nas boas: Celebrar os buracos humanos criados por Deus, Beijar consensualmente, Mostrar qualquer parte do corpo, Palavras que provoquem emoção ou fazem rir. Nas ruins: Celebrar buracos humanos criados por humanos, Atirar e explodir não consensualmente, Mostrar qualquer parte do corpo levando tiros, Palavras que provoquem violência. Depois disto, diz que esta seria uma maneira bastante saudável de pensar a menos que se queira criar uma cultura baseada no medo, com sede de sangue e feliz com guerras, entre outras coisas. "Mas parece não ser o caso", ele diz. Sarcasticamente, claro.
Em um certo sentido, não teria ele razão?
Notas do escritor:
Texto proibido para menores.
Não sou adepto ao suicídio.
Não sou adepto às críticas aos homossexuais.
Não sou adepto às políticas do medo.
Use o texto com responsabilidade literária.
Não me responsabilizo pelos seus atos! Não diga, frente aos juízes, que matou John Lennon por conta do meu texto ("O apanhador no campo de centeio") ou que imaginou que estava jogando GTA enquanto atropelava alguém.
Em parte inspirado em O homem de areia, de E.T.A. Hoffmann, 1815.
Hoje foi daqueles dias típicos. Pouca novidade quanto ao que pouco poderia acontecer no dia. Pouco porque em termos gerais as tarefas diárias me são mesmo poucas. Apenas trabalhar, organizar a casa para o dia seguinte e descansar. O trabalho, o de sempre. Nem vejo como poderia ser muito diferente de ontem o trabalho de digitação de contratos para uma empresa de eletrônicos. Pega o nome, digita, copia, cola, cola, cola, 8 vezes, o cnpj, copia, cola, cola, inscrição estadual, copia, cola, cônjuge, copia, cola, local e data, copia, cola, cola, imprime, 2 cópias, próximo contrato. Repita isto várias e várias vezes e no final do mês lhe depositarão cerca de oitocentos ou novecentos reais.
Você nem precisa conhecer seu chefe.
O meu nem tem cara.
O problema de sistematizar demais o trabalho é que depois que você acostuma, pode pensar em outras coisas enquanto trabalha. Sem novidades significa pensamentos. E eles, já que não têm novidades, são os mesmos de sempre.
Lembro-me daquela desgraçada que me largou há um ano atrás. Pudera, só porque não morávamos na mesma cidade. O que será que está fazendo hoje? Dando para outro, na certa. Cretina.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: delete um contrato importante.
Pelo menos a raiva diminui. Mas ainda não resolvi o problema, porque amanhã acontecerá de novo a mesma coisa. E lá se vai outro contrato importante. Ainda bem que nem conheço meu chefe, ou estaria encrencado.
Volto à digitação. Entre os contratos a serem digitados aparece a Jiowanna. Nome estranho? Ainda não viu nada. Pelo menos este é pronunciável e me lembra uma outra namorada, um pouco mais antiga. Esta sim pude amar, compartilhar todos os meus defeitos, ódios, medos e frustrações. Pena que me largou no altar. Não seria para menos, já que me pegou na cama com outra apenas dois dias antes. Ainda que tentou me perdoar, mas a pressão dos olhos atentos naquele que deveria ser o momento de felicidade de sua vida a fez desistir. Cheguei a duvidar que a amava, já que a traira. Ctrl+z. Errei um colar.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.
Mas ainda estou vivo e preciso imprimir mais um contrato. Clica, clica, 2, imprime, espera, grampeia, grampeia. Juntar de maneira permanente... isso me lembra... que... Nossa! Eu estou namorando e nem liguei pra ela ontem.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: invente uma boa desculpa.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: treine mentalmente antes de dizer.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: acredite nela. Na mentira, claro.
Alô, estou no trabalho, não, acho que não vou para a sua casa hoje, ontem não te liguei, acabou a bateria, eu sei que tenho cabeça oca, mas fazer o quê, também estou com saudade, amanhã a gente vai no cinema, beijo. Esta eu nem gosto tanto, mas ela é tão boa comigo que estou pensando em deixar como está por um tempo. Até ela vir e reclamar. Na terceira reclamação eu termino. É assim, temos que nos impor regras a nós mesmos para que possamos nos controlar. Mas nunca as sigo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na mão: Terminar com ela.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na testa: Terminar com você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: compre um colete que proteja de balas e um capacete para mesmo fim.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva neles: Terminar com você.
Talvez eu não tenha mesmo seguido nenhuma regra minha até aqui. Só as inúteis.
Certa vez comprei um fone de ouvido só porque prometi que se estivesse por cinco reais eu compraria. Quanto custa? Cinco reais. Eu levo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa que nunca mais prometerá nada.
Mas não funciona. Hoje cheguei em casa e prometi que nunca mais ia enloquecer. E quando dei por mim estava pelado na rua correndo e nem era na rua de casa. Na verdade, nem sei aonde era. Sei que acordei em casa, na minha cama. E não era sonho porque eu estava pelado, com os pés sujos e tinha até um chiclete nele.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa sempre o contrário daquilo que pensar.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometi não prometer, não poderia ter prometido não prometer, então ainda é possível prometer. Prometa o quanto quiser.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometer não enlouquecer, coloque um chinelo, ao menos.
Merda não é exatamente o palavrão que me vem em mente quando sinto que, depois de acordar, pisei no mesmo chiclete que achei que tinha sonhado.
Levantei de súbito e gritei feito louco. Subi pelas grades da janela fazendo questão de deixar o rastro de sujeira por ali. Corri até a porta gritando Vizinho do caralho, vou te matar e quando cheguei até a porta vi o vizinho. Pulei em seu pescoço e o vi ficar roxo. Não lembro bem que tonalidade era aquela, mas quando me tiraram da garganta dele ele estava era mais para lilás. Vai saber, sangue ruim é assim mesmo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: carregue sempre uma arma para seus acessos de loucura.
Minha frustração foi não tê-lo matado. Virei-me e vi que o filho da puta que me segurava era um vizinho que morava com aquele que eu quase matara. SEU LOUCO, gritei. NÃO!!! VOCÊ É BICHA, VEADO, CORNO E AINDA MAL AMADO POR UM CARA QUE QUASE MATEI! Todos os vizinhos saíram na rua.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: para chamar a atenção, grite.
E dei-lhe um soco direto no queixo. O sujeito, sem jeito, tentou revidar, mas corri. Não de medo. Mas de ódio. Do quê? Não sei... acho que corri para descobrir. Voltei para dentro do quarto e todos entraram atrás de mim. Alguns ainda tinham esperança de me conter. Em vão. Eu corria mais e dava mais tapa na cara que todo mundo ali. Abri minhas gavetas cheias de fotos de namoradas antigas. Por que não as joguei fora antes? Por quê? De novo, senti ódio de todas. TODAS, gritei.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: sempre jogue as fotos das ex-namoradas fora.
Me contaram que a polícia me conteve. Por sorte, dó ou medo, ninguém deu queixa dos acontecimentos.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: deixe que todos tenham medo de você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Alguém, provavelemente um amigo, me diz para me tratar. Diz que minha mãe não me ama. Diz que acha que é por isto que tenho problemas com minhas namoradas. Diz que acha que estou exagerando e que deveria me desfazer das fotos. Diz que falta de amor materno não é desculpa para nada.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate seu amigo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate sua mãe.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate suas namoradas.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.
De volta à psicanálise, que há muito não escrevo sobre ela. Um dos temas de grande interesse público e também um dos mais complexos é o do narcisismo. Este é um tema difícil e controverso dentro e fora da psicanálise. Talvez, popularmente não seja tão difícil definir o narcisismo. Na onda BBB vemos vários críticos dizerem que fulano ou ciclano é narcisista e que só fica no espelho. Ou que ciclano só pensa nele mesmo. Ou que beltrano passa o dia malhando e cultuando os próprios músculos. Exemplos fáceis e bem dados da definição de narcisismo do ponto de vista popular. O que seria mais popular que o BBB? Nem chocolate.
Mas na psicanálise existem controvérsias. De um lado, fazem certo couro os psicanalistas que defendem que o narcisismo acontece quando o sujeito não é capaz de enxergar outros seres humanos como tais. Em lugar disto, os enxergam como objetos. Este ponto de vista, via de regra, aparece para justificar comportamentos criminosos em que os crimes acometidos foram brutalmente executados. Não faltam exemplos recentes deste tipo de crime no brasil, nem tampouco exemplos recentes de psicanalistas que apareceram na mídia para dizer que o criminoso era narcisista.
Agora, para variar, vou usar um dos meus autores preferidos. Fama e narcisismo, do Calligaris, é um texto que dá uma outra opinião sobre o assunto. A abordagem defendida é a de que a tal Personalidade narcísica, por assim dizer, é a personalidade insegura. Assim, o narcisista é aquele que para existir precisa do olhar do outro. Se usássemos este ponto de vista no BBB, chamaríamos aqueles que perguntam aos outros se estão bonitos e bem vestidos, malhados e fortes. Em uma rápida olhada, pareceria a mesma coisa dizer que, no fim das contas, o narcisista malha e se olha no espelho. Mas no mesmo texto deste autor existe algo que nos propõe o contrário. É que o narcisista, para esta definição, precisaria do olhar do outro. E só. Sem espelhos. Estilo American Idol, Ídolos, Fama, BBB (no BBB eles precisam mais da aprovação do público externo para continuar na casa do que da quantidade de espelhos contidas nela).
Até aqui, três definições diferentes de narcisismo. Problema: talvez nenhuma seja suficiente. Veja que na primeira definição existe comparação direta entre o mito de Narciso, que se apaixona pela própria imagem no lago, e o sujeito que se olha no espelho, que também se apaixona pela própria imagem. Esta definição parece boa, mas para a clínica ela tem uma falha: não explica a origem do narcisismo.
A segunda tem explicações de origem, que não pretendo expor aqui devido à extensão de tal teoria, mas parecem fora de contexto por um motivo: são usadas, na maioria das vezes, para servir de juízo de valor moral e condenam um criminoso por possuir tal estrutura de personalidade. Só que isto faz esquecer que também os não criminosos, psicanalistas, corinthianos, cristãos e pagãos, judeus e artesãos, políticos e médicos, juízes e astronautas, flanelinhas e brancos, negros e russos, brasileiros e de olhos verdes, que usam calças Levi´s e administradores, gripados e resfriados são narcisistas. Sem delongas teóricas: todos precisam de narcisismo para sobreviver pois, para a psicanálise, este termo se refere aos investimentos sobre o si mesmo.
E justamente por ser esta uma definição ampla é que entra a proposta de interpretação dada por Calligaris. Note que a visão trazida por ele sobre o tema é bastante mais complexa de se entender pois envolve algo muito primário (e por isto difícil de visualizar). É que o investimento sobre si mesmo, no exemplo dado, é feito através do olhar do outro. O sujeito pede o reconhecimento do olhar do outro para se sentir investido. Mas Narciso não precisou do outro, precisou? Parece que sim. A interpretação dada por este autor tem imbuída em si a noção de que o Narciso do mito se apaixonou não por si mesmo, mas pela imagem que ele acredita que os outros têm de si. Repare que o autor tem razão: tivesse se apaixonado por si mesmo e a imagem lhe seria desnecessária. Outro detalhe importante é que Narciso, sem um outro (presente ou passado) talvez nem soubesse o que é paixão. Em suma: Narciso teria sido nada se não fossem os outros (inclusive nós, leitores do mito). Então, qual o problema desta teoria?
É que a maneira que o autor encontra de demonstrar sua teoria de maneira rápida (em uma coluna de jornal) é a partir de suas impressões. Isto invalida suas idéias? Não. Mas as vicia. Quero dizer que, em verdade, o autor jamais terá a capacidade de saber se o sujeito estava de fato em busca de reconhecimento a menos que entre em contato direto com ele. Acredito que o mesmo autor, tivesse ele tido mais tempo e espaço que uma coluna de jornal, pudesse dar exemplos mais sólidos de sua teoria do que um singelo episódio de televisão. Por outro lado, também é possível que se tivesse mais tempo teria encontrado outras maneiras de narcisismo diferentes das três já propostas. E agora?
P.S.: Leitores, eu os convido a opinar a respeito do tema. Postem seus exemplos, opiniões, concordâncias e discordâncias na sessão de comentários.
Um comentário breve antes de iniciar esta crônica. Os estilos romântico e erótico fazem parte dos meus preferidos. Por motivos óbvios, meus textos eróticos não serão postados aqui. Mas tenho um romântico que fiquei com vontade de publicar depois de relê-lo. Espero que aproveitem a ridicularidade do romantismo tanto quanto eu, que sou adepto do poeta que diz que Todas as cartas de amor são ridículas. O poeta é o Fernando Pessoa.
(...) meu anseio que era grande demais para ser contido. (...) Tentei te encontrar nas nuvens, nas estradas, tentei te encontrar na minha cama, no meu quarto, sozinho. (...) Percebi que estava sonhando com você. (...) Eu preciso ter você de verdade. (...)
Por Thaís
Maria.
Por Marq
Decidi não dormir por hoje. Não só por hoje, aliás. Não vou mais dormir se não for ao seu lado. É que se eu dormir, sei que vou sonhar com você. E quando eu perceber que é sonho e me virar para o lado e não encontrar você dormindo, vou me entristecer. Se hoje eu dormir, se esta carta não for terminada por conta do peso das minhas pálpebras, vou acordar chorando.
Mal tínhamos combinado de dormir naquela hora. E nem tinha espaço para os dois. Dormimos juntos em um colchão de solteiro no chão e foi, de longe, uma das melhores coisas que já fizemos. Lembraremos do dia em que a única coisa que nos manteve juntos ali foi a intensa vontade de não deixar o outro ir embora para sempre. Por isto, nesta noite, sonhei com você. Não lembro do sonho com detalhes, mas acordei sorrindo. E com você ao meu lado.
Não é aprazível partir. Mas matar a saudade que nunca morre vai ser mágico. Sabe, é essa a saudade que tenho. Essa que não importa se estou ao seu lado mas eu ainda sinto. Digo que a mato, mas apenas a escondo. É a saudade do que ainda não se foi. Saudade do seu abraço, mesmo com você ao meu lado.
Se amanhã eu estiver de olheira, sabe que não dormi. Se estiver com lenço, sabe que acordei chorando. Mas se eu simplesmente estiver, seja como for, triste ou feliz, com ou sem sorriso, bonito ou feio... se eu estiver e apenas estiver... seja aonde for, mesmo ao seu lado, estarei com saudade.
Mas não vou conter meus anseios. Vou encontrar você nas nuvens, estrada, cama e quarto. Me encontro com você até sozinho, quando só é possível lembrar do seu cheiro e voz, pele e olho. Lembrar acordado ou dormindo. Percebi que sonhei com você. De novo.
Preciso ter você de verdade.