Notas do escritor:
Texto proibido para menores.
Não sou adepto ao suicídio.
Não sou adepto às críticas aos homossexuais.
Não sou adepto às políticas do medo.
Use o texto com responsabilidade literária.
Não me responsabilizo pelos seus atos! Não diga, frente aos juízes, que matou John Lennon por conta do meu texto ("O apanhador no campo de centeio") ou que imaginou que estava jogando GTA enquanto atropelava alguém.
Em parte inspirado em O homem de areia, de E.T.A. Hoffmann, 1815.
Hoje foi daqueles dias típicos. Pouca novidade quanto ao que pouco poderia acontecer no dia. Pouco porque em termos gerais as tarefas diárias me são mesmo poucas. Apenas trabalhar, organizar a casa para o dia seguinte e descansar. O trabalho, o de sempre. Nem vejo como poderia ser muito diferente de ontem o trabalho de digitação de contratos para uma empresa de eletrônicos. Pega o nome, digita, copia, cola, cola, cola, 8 vezes, o cnpj, copia, cola, cola, inscrição estadual, copia, cola, cônjuge, copia, cola, local e data, copia, cola, cola, imprime, 2 cópias, próximo contrato. Repita isto várias e várias vezes e no final do mês lhe depositarão cerca de oitocentos ou novecentos reais.
Você nem precisa conhecer seu chefe.
O meu nem tem cara.
O problema de sistematizar demais o trabalho é que depois que você acostuma, pode pensar em outras coisas enquanto trabalha. Sem novidades significa pensamentos. E eles, já que não têm novidades, são os mesmos de sempre.
Lembro-me daquela desgraçada que me largou há um ano atrás. Pudera, só porque não morávamos na mesma cidade. O que será que está fazendo hoje? Dando para outro, na certa. Cretina.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: delete um contrato importante.
Pelo menos a raiva diminui. Mas ainda não resolvi o problema, porque amanhã acontecerá de novo a mesma coisa. E lá se vai outro contrato importante. Ainda bem que nem conheço meu chefe, ou estaria encrencado.
Volto à digitação. Entre os contratos a serem digitados aparece a Jiowanna. Nome estranho? Ainda não viu nada. Pelo menos este é pronunciável e me lembra uma outra namorada, um pouco mais antiga. Esta sim pude amar, compartilhar todos os meus defeitos, ódios, medos e frustrações. Pena que me largou no altar. Não seria para menos, já que me pegou na cama com outra apenas dois dias antes. Ainda que tentou me perdoar, mas a pressão dos olhos atentos naquele que deveria ser o momento de felicidade de sua vida a fez desistir. Cheguei a duvidar que a amava, já que a traira. Ctrl+z. Errei um colar.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.
Mas ainda estou vivo e preciso imprimir mais um contrato. Clica, clica, 2, imprime, espera, grampeia, grampeia. Juntar de maneira permanente... isso me lembra... que... Nossa! Eu estou namorando e nem liguei pra ela ontem.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: invente uma boa desculpa.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: treine mentalmente antes de dizer.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: acredite nela. Na mentira, claro.
Alô, estou no trabalho, não, acho que não vou para a sua casa hoje, ontem não te liguei, acabou a bateria, eu sei que tenho cabeça oca, mas fazer o quê, também estou com saudade, amanhã a gente vai no cinema, beijo. Esta eu nem gosto tanto, mas ela é tão boa comigo que estou pensando em deixar como está por um tempo. Até ela vir e reclamar. Na terceira reclamação eu termino. É assim, temos que nos impor regras a nós mesmos para que possamos nos controlar. Mas nunca as sigo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na mão: Terminar com ela.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva na testa: Terminar com você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: compre um colete que proteja de balas e um capacete para mesmo fim.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: escreva neles: Terminar com você.
Talvez eu não tenha mesmo seguido nenhuma regra minha até aqui. Só as inúteis.
Certa vez comprei um fone de ouvido só porque prometi que se estivesse por cinco reais eu compraria. Quanto custa? Cinco reais. Eu levo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa que nunca mais prometerá nada.
Mas não funciona. Hoje cheguei em casa e prometi que nunca mais ia enloquecer. E quando dei por mim estava pelado na rua correndo e nem era na rua de casa. Na verdade, nem sei aonde era. Sei que acordei em casa, na minha cama. E não era sonho porque eu estava pelado, com os pés sujos e tinha até um chiclete nele.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: prometa sempre o contrário daquilo que pensar.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometi não prometer, não poderia ter prometido não prometer, então ainda é possível prometer. Prometa o quanto quiser.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se prometer não enlouquecer, coloque um chinelo, ao menos.
Merda não é exatamente o palavrão que me vem em mente quando sinto que, depois de acordar, pisei no mesmo chiclete que achei que tinha sonhado.
Levantei de súbito e gritei feito louco. Subi pelas grades da janela fazendo questão de deixar o rastro de sujeira por ali. Corri até a porta gritando Vizinho do caralho, vou te matar e quando cheguei até a porta vi o vizinho. Pulei em seu pescoço e o vi ficar roxo. Não lembro bem que tonalidade era aquela, mas quando me tiraram da garganta dele ele estava era mais para lilás. Vai saber, sangue ruim é assim mesmo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: carregue sempre uma arma para seus acessos de loucura.
Minha frustração foi não tê-lo matado. Virei-me e vi que o filho da puta que me segurava era um vizinho que morava com aquele que eu quase matara. SEU LOUCO, gritei. NÃO!!! VOCÊ É BICHA, VEADO, CORNO E AINDA MAL AMADO POR UM CARA QUE QUASE MATEI! Todos os vizinhos saíram na rua.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: para chamar a atenção, grite.
E dei-lhe um soco direto no queixo. O sujeito, sem jeito, tentou revidar, mas corri. Não de medo. Mas de ódio. Do quê? Não sei... acho que corri para descobrir. Voltei para dentro do quarto e todos entraram atrás de mim. Alguns ainda tinham esperança de me conter. Em vão. Eu corria mais e dava mais tapa na cara que todo mundo ali. Abri minhas gavetas cheias de fotos de namoradas antigas. Por que não as joguei fora antes? Por quê? De novo, senti ódio de todas. TODAS, gritei.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: sempre jogue as fotos das ex-namoradas fora.
Me contaram que a polícia me conteve. Por sorte, dó ou medo, ninguém deu queixa dos acontecimentos.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: deixe que todos tenham medo de você.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: repita o passo anterior.
Alguém, provavelemente um amigo, me diz para me tratar. Diz que minha mãe não me ama. Diz que acha que é por isto que tenho problemas com minhas namoradas. Diz que acha que estou exagerando e que deveria me desfazer das fotos. Diz que falta de amor materno não é desculpa para nada.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate seu amigo.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate sua mãe.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: mate suas namoradas.
Soluções práticas para problemas do dia-a-dia: se mate.