sábado, 26 de julho de 2008

Mundo Indie

É sempre tarefa difícil escrever sobre as tendências Indies por uma razão mais ou menos simples. É que quase qualquer coisa pode ser Indie.


Vamos ao termo. Indie é uma abreviação inglesa para Independent, que traduzido signfica Independente. O movimento Indie, ou os movimentos Indies, se expande por todo o ramo da arte e ganha em cada uma delas uma subdivisão, história, influências e tendências. E para ser Independente é preciso que não seja, por exemplo, como a Mariah Carey que tem a obrigação de vender X milhões de dólares por disco, gravar há cada Y espaço de tempo músicas que não são feitas por ela ou quando são têm que seguir um certo formato. Entremos, já que este virou o assunto, na música.


Formato é a palavra chave para a questão do que é ou não Independente. Os Independentes não se sentem, ou não deveriam se sentir, na obrigação de seguir este formato. Vantagem é que podem compôr às suas maneiras, com trechos experimentais, dissonâncias, alternância de volume ou qualquer coisa que perpasse o momento artístico de quem compõe. Desvantagem é que nem tudo é audível.


Já nas músicas, por assim dizer, Dependentes, isto se torna mais fácil de resolver. Poucas ousadias e muita repetição do mesmo são peças chave para a manutenção destes estilos. Assim, por mais que a Britney Spears se esforce ao máximo por ser diferente da Madonna sua música sempre terá o mesmo teor musical, os mesmos tipos de efeito, a mesma quantidade silábica, os mesmos apelos sexuais.


A única chance de as músicas, como aqui foram chamadas, Dependentes se modificarem é em função das tendências Independentes. Não que o movimento Indie seja livre de repetições, que não é, mas é o único lugar aonde existe possibilidade de experimentações virem à tona e causar qualquer modificação no estilo musical vigente. Quero dizer que tudo o que é Dependente outrora foi Independente. Isto me causa estranheza.


Porque é precisamente o oposto o que esperamos vivenciar durante a vida. Esperamos que quando bebês sejamos dependentes e quando adultos sejamos independentes. Por que nos movimentos artísticos isto é trocado?


Chega aquela parte em que não posso responder com certeza, apenas por impressões. E também fica aberto para qualquer um que acompanhe estes movimentos que possa dar sua opinião. Mas de repente me ocorreu um texto do Fábio Herrmann, psicanalista brasileiro que morreu há não muitos anos, que diz, já com as minhas distorções, que tudo o que é independente quer voltar ao estado anterior em que ainda era dependente, em que ainda era uno. O texto se chama Pesquisando com o método psicanalítico. Relutâncias dos independentes de todas as áreas à parte, concordo com ele do ponto de vista da psicanálise.


Quero dizer que não é do ponto de vista consciente que queremos voltar a ser dependentes. Não queremos parar de trabalhar e voltar a morar na casa dos pais e ir diminuindo até voltarmos à infância. Ao contrário, queremos poder construir nossas próprias vidas e ter produções próprias e independentes. Mas, independentes de quê?


Certamente não é independente do, em nosso tempo, capital. Se vivêssemos em outras sociedades não seria indepentente, por exemplo, dos bens de consumo dividos por igual, ou do peixe pescado e trocado pela limpeza da oca. Seja como for, as sociedades se organizam sempre, e por isto são sociedades, em grupos de dependência que se forem desfeitos causam problemas sérios ao funcionamento das mesmas. Veja as greves como exemplo. Os correios, quando têm seus períodos de greve, causam maior rebuliço.


Me desculpem todos os que se dizem independentes. Não acredito mais em vocês.


Portanto a saída para que a sensação de independência seja criada é dividir e impessoalizar. Existe o independente financeiro, a música Indie, o escritor independente e os blogs, que têm seguido o mesmo exemplo. Mas se pararem de visitar meu blog, o mais provável é que ele acabe. Isto não é dependência? E para que criamos estes grupos ou sensações de independência?


Agora não consigo pensar em outra coisa que não seja para voltar à dependência. Simples. Ganhamos dinheiro, impessoal e independente, para gastar com nossos vícios, dependências, repetições. Os Indies musicais só existem porque pagamos as entradas dos shows, porque compramos seus discos. Por isto não me estranha que os grandes encabeçadores e financiadores dos movimentos independentes sejam os jovens.


Nunca vi alguém de mais de quarenta anos ouvir discos inteiros do Bloc Party, Interpol, Snow Patrol, Doves. Existem, mas sem dúvida são bandas ouvidas principalmente por jovens. Os jovens estão precisamente na fase de se despregarem de casa, na luta entre a dependência e a independência financeira e talvez por isto apostem tanto nos seus próprios artistas preferidos, independentes e da mesma idade e geração.


Novamente, não são todos os jovens que mantém esta preferência e nem todos os adultos ouvem só Dependentes. Mas é muito provável que quando os jovens crescerem, todas estas bandas que hoje são independentes e experimentais serão as que farão parte das músicas Dependentes. Com um pouco de sorte, as grandes gravadoras se enfraquecerão e selos Independentes ganharão destaque, mas ainda assim as rádios não tocarão os mesmos estilos musicais desta atualidade. Duvida? Então se pergunte o que aconteceu com as músicas eletronicizadas dos anos oitenta. Nossos pais cresceram e o que era independente tomou conta das FM e pouco se ouve Outlets tocando Josi's on vacation far away... I just wanna use your love tonight.


Portanto, ainda mantenho minha concordância com Herrmann. Mas acaba de me ocorrer, e disto me serve escrever, que em certa altura eu escrevi que o movimento Dependente só encontra possibilidade de se modificar em função do movimento Independente. Assim, por mais que o desejo Indie seja voltar a ser Dependente e isto acabe acontecendo de fato nas alternâncias entre as gerações, é esta uma maneira possível de se movimentar, criar, atualizar, desatualizar, mudar, fazer, desfazer. Enfim, se eu pudesse apostar que algo faz diferença, eu apostaria naquelas coisas que não esperávamos que fosse acontecer justamente por ser ela fora de controle, fora da dependência de nossa onipotência.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Você acredita em amor à primeira vista?

Ainda bem que esta é uma pergunta de duplo sentido.


A palavra Acredita, nesta frase, devido à sua falta de complementos lança mão para uma dupla interpretação que é pouco explorada. Tanto pode querer perguntar se você acredita que exista, a exemplo de  perguntas como Acredita em ET, como pode querer perguntar se você acredita que ele possa vingar, guardando este segundo sentido a idéia de que ele já aconteceu e a pergunta passa a ser se Acredita que este amor tenha futuro. Veja que a omissão é simples mas oportuna. A omissão de que falo é do que viria depois de Acredita, que pode ser tanto Que exista como Que tenha futuro. Como ainda não sei se me fiz claro, vou dar um outro exemplo da segunda omissão, já que é o sentido menos comum. O antigo casal de ex-namorados volta a namorar e alguém pergunta Você acredita que agora vá dar certo. Ou omitindo partes Você acredita neste namoro. Você acredita Neste amor à primeira vista?


Sim e não são respostas que comumente designam a crença na possibilidade de ele existir. Mas a resposta que tem me inquietado demais é aquela que deixa as conversas no limbo, que faz com que a dúvida possa servir tanto para não assumirmos qualquer responsabilidade quanto para nos movimentar para outras possibilidades... é o Talvez.


Talvez é freqüentemente entendida como a resposta mais humana em contraponto ao sim ou não do computador, do um ou zero, bom ou mau, certo ou errado. E notar que pode ser uma resposta tanto paralizadora quanto movimentadora deixa o Talvez tão divido quanto o sim e o não. Se eu digo que Talvez eu acredite e não quero conversar sobre isto soa deveras paralizador quando os atos subseqüentes não contradizem a fala. Mas quando se diz, em tom mais animado, Talvez eu acredite, a fala pode soar quase como a colocação de teste sobre a crença na possibilidade de dar certo. É este segundo Talvez que tem me interessado mais.


Não que o primeiro não tenha sua importância, que sem sombra de dúvida o tem. Mas é que o segundo Talvez nos faz esquecer aquele primeiro sentido da pergunta que soa quase como se Acreditamos em ET. É mais ou menos assim Se os ET existem ou não pouco me importa, mas se vierem estarei pronto para recebê-los. Claro que com um pouco de mau jeito e falta de habilidade no começo, mas aos poucos vamos nos ajustando. Agora estou falando do amor, não dos ET.


Portanto, fica aqui a minha opinião. Se eu acredito em amor à primeira vista?! Ah... por que não nos preocupamos com coisas mais interessantes como Devo apostar Neste amor, à primeira vista ou não, tão intenso e vívido? Esta sim deveria ser a verdadeira pergunta.

sábado, 12 de julho de 2008

O lado bom da nova Lei Seca

Não sei se é possível avaliar esta nova lei de trânsito apelidada de Lei Seca. Por um lado, pode ser uma maneira de reduzir acidentes. Por outro, é exageradamente severa. Mas não é sobre isto que me interessa discutir.


Desde que a lei foi estreada, por assim dizer, as conversas de bar não conseguem mais passar sem conter pelo menos leve referência sobre o assunto. Não importa há quanto tempo você conhece aquele seu amigo ou ficou sem vê-lo, cedo ou tarde alguém pergunta E a Lei Seca?


Ainda mais interessante é reparar que não importa quantas vezes o assunto já foi repetido. Ele será repetido novamente. Nem que seja em tom de alerta Cuidado com a nova lei. Ou em tom de resguardo Nossa, não posso beber hoje... Essa lei... Por que tamanho furor?


Claro que as respostas serão as mais individuais possíveis. Um pode alegar que é para não discutirmos coisas mais sérias, como corrupção ou o que de fato é crime. Outros podem dizer que é mais um daqueles papos como Será que vai chover, só porque não temos mais assunto. Ou ainda podem dizer que é para negar assuntos mais sérios ou aproximativos entre os envolvidos na conversa. Podem alegar que é para descarregar a raiva da lei. Servir de lição de moral para o próximo. Realizar uma verdadeira discução política. Enfim, podem ainda ter mais N sentidos.


Concordo com todas as respostas. Digo mais, é possível que todas essas funções estejam presentes em nossa fala quando repetimos sobre a lei. Mas o fato é que nenhuma destas respostas satisfaz a pergunta anterior por serem, em si, respostas incompletas. Mais do que isto, nem mesmo acredito que ela tenha uma resposta que possa ser completa.


Até que me ocorreu que vivemos de furor em furor. Já discutimos acidentes aéreos, crimes importantes, o filme Matrix, corrupção, mudança de moeda... e agora esta nova lei. Falem bem, falem mal, mas sempre falando deles.


Por isto, gostaria de expor que de fato continuo não sabendo o porquê do furor pela nova lei, tendo em vista que conheço defensores e opositores. Mas observando que vivemos transitando os interesses públicos e burburinhos, não acredito que eles sejam de todo ruim. Primeiro por conta da repetição. E como já disse no meu texto sobre repetição, ela contém o lado bom. E segundo porque graças a estes assuntos comuns ainda podemos nos comunicar a partir da nossa relação com o outro. Explico.


Esta semana eu estava discutindo uma outra lei, a do rodízio de placas em São Paulo, com uma pessoa deveras estimada por mim. Até que percebi que um de nós defendia ferrenhamente o cumprimento da regra e outro fazia de tudo para convencer o primeiro do contrário. O mais interessante disto foi que, via de regra, aquele que queria seguir a lei tem o discurso menos rígido e o segundo tem, em geral, o discurso mais rígido.


Além dos motivos particulares de cada um para inverter seu papel para consigo mesmo, também estávamos, em última instância, dizendo um para o outro Não concordo com você. E esta é a posição que em boa parte das nossas conversas, entre eu e tal pessoa, tem sido tomada. Será, então, que a discussão da regra era mesmo o mais fundamental?


Acredito que não. Talvez o mais importante fique por conta da maneira como é conversada, da disposição que temos em conversar, do conteúdo da conversa e porque ele é dito assim, entre outras coisas mais que compõem nossas conversas diárias.


Por isto, discutir os prós e contras da nova lei não tem sido divertido, nem tampouco seguí-la. Mas podemos agradecer a esta lei e a tudo aquilo que tem causado furor por ser mais uma maneira de nos comunicarmos.


E alguém me diz Acho que não tem problema de fazermos desta maneira porque ... e eu agradeço que o assunto existe, mas preciso dizer... Não concordo.

domingo, 6 de julho de 2008

O quarto é quase escuro...

... porque é iluminado apenas pela luz do computador. Já é noite e só se ouve o silêncio. Para tapar o desespero causado pela ausência sonora, colaca sua lista no lastfm. Checa o Orkut. Caixa de email vazia. Ninguém no Msn.


Deita e finge que a música o diverte. Mas as músicas, que antes serviam para tapar o desespero, começam a desesperar. Não só pela repetição, mas pelo conteúdo.


Já ao som gelado do Cientista de Coldplay, ele percebe, como se fosse novidade, que está apaixonado pela internet. Ah! A Internet... como eram bons os tempos que as pessoas se falavam olho no olho. Saíam às ruas como se o planeta ainda fosse habitado por outros seres humanos. Outro invento parecido foi o telefone. Em diferente grau e função, a televisão.


Pouco a pouco, a humanidade criou um novo meio ambiente, alheio às leis naturais de temperatura, ventos, movimento. Mas pertencente à lógica do Bug milenar, do World clock, da língua inglesa. À lógica da música que ninguém canta ou toca, do texto que não usa tinta, da luz que emite sentido, da vida virótica que não vive em outro meio. Sim, existem discussões sobre a vida de um vírus de computador. Veja: Se multiplica sozinho, existe em um meio e é capaz de mutações e adaptações. O único problema concreto que pode pôr em cheque esta definição é uma que se aplica também aos vírus proteicos de Se isto é vida.


Isto é vida?


 


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Cena 2:


 


Será que ela entra hoje? Pena, não está online. Mas e se eu esperar?! Já sei! Vou fazer algo diferente... vou conhecer novas páginas. Dizem que há milhões por aí.


Tédio... as páginas novas são tão novas... tão diferentes do que eu estava acostumado. Não gostei. Queria mais do mesmo. Queria falar com ela!


 


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Cena 3:


 


Oi! Nossa, que bom te ver por aqui, na Internet.


...


É mesmo! faz tempo que não nos falamos. Novidades?


...


Por que você fez isto?


...


Sério que não gosta do jeito que eu sou?


 


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Cena 4:


 


Sou?! É isto o que sou? Um ser de frente para um ambiente que não existe, seguindo leis que não se aplicam à realidade, para me satisfazer com algo que não satisfaz?


E ela?! Quem é ela?


 


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Cena 5:


 


Pena que os pensamentos anteriores se aplicam também ao ambiente fora do computador, exceto o fato de não ter sido inventado pelo homem. Não seria o computador uma reinvenção do que o homem acredita que É? E tenta Ser sempre que usa mais uma vez? Mas deixa de Ser quando percebe que aquilo que criou achando que É, em verdade, não É?


 


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Cena 6:


 


Está tarde, vou dormir, enfim. Mas não ia.


A Thaís diria Podia, sim, abrir os olhos. Não queria. O problema dela era esse.


http://freudentenderia.wordpress.com/2008/07/03/play-dead/