segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Keane e meus pensamentos

"Alguns não conseguem se libertar dos seus próprios grilhões, mas conseguem libertar os amigos."


Nietzsche


 


"Quando nos apaixonamos


Apenas nos apaixonamos


por nós mesmos."


Keane


 


O recém lançado Cd do Keane, Perfect Symmetry, é, além de imperdível, um convite ao envolvimento. Para gostar de Keane é necessário atentar para o esquema musical, que muito me lembra o eletrônico oitentista que ouvia enquanto ainda era criança. A abertura, Spiralling, já deixa isto claro logo.


Como já disse, o Cd é imperdível. Mas Spiralling me fez ter um enorme devaneio. Isto devido à criatividade de sua letra. É que em certo momento ela, a música, nos diz Cold like some magnificent skyline, out of my reach but always in my eye line (Frio como alguns horizontes magníficos, fora do meu alcance mas sempre em minha vista, em tradução livre). Além de poética, pensei sobre a psicoterapia.


De fato, nossos horizontes são alheios ao nosso toque. Temos que observá-los, mas jamais poderemos tocá-los. Mas é que outras pessoas podem tocá-lo. Basta que se localizem no horizonte e nós lhe daremos o sinal para abaixar e... pronto! Nosso horizonte está ao alcance de outros.


O psicoterapeuta é, em tese, um destes que se propõe a tocar horizontes alheios. Sempre se lembre do que Nietzsche nos disse sobre libertar os outros e nós mesmos de seus ou nossos grilhões. Nem sempre podemos nos libertar. Talvez porque Keane tenha razão: não nos é possível a nós tocarmos nossos próprios horizontes.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Nós e a ciência

"(...) Não são as idéias, nem a visão, nem as ferramentas que realmente interessam na psicanálise. Se, no final de um tratamento, você perguntar ao paciente qual foi o processo da análise, do que ele se lembra? Nunca das idéias e sempre do relacionamento com o terapeuta. Eles raramente se lembram de uma conclusão importante do terapeuta, mas se lembram com carinho da relação. E me arrisco a dizer que isso serve para você também. (...)"




Em: A cura de Schopenhauer (p. 66)


Irvin D. Yalom


 


A National Geographic apresentou dia 10/11/08 um programa intitulado Mente bilhante, mais especificamente o episódio Gênio nato. Neste episódio, contaram a história de um menino, Marc Yu, que com sete anos já tocava piano com perfeição.


O programa foi organizado de maneira interessante e instigante, mas existia algo além da história que não foi contado pelo programa. Nem deveria ser, mas não pude passar sem reparar. É que o programa se organiza em torno de uma visão específica de ciência. E qual a importância disto?


Simples. Quando organizamos um programa televisivo em torno de um estilo de ciência também eliminamos, por conseguinte, todos os outros estilos de ciência que coexistem com o primeiro. Não creio que os programas televisivos devessem contemplar todos os tipos de visões científicas sobre cada tema. Se isto acontecesse, os programas ficariam enjoativos, repetitivos e sem conteúdo. Mas é importante que tenhamos conhecimento de que a NG é adepta a uma certa noção ciência e que podemos ter contato com outros tipos dela.


E é sobre uma outra modalidade de ciência, que não esteve inclusa no programa, que eu gostaria de falar. Em certo momento do documentário, eles mostram uma pesquisa realizada com uma quantidade grande de crianças com o intuito de verificar se a estimulação precoce ajudaria o desenvolvimento do intelecto. Resultado: até os 12 meses de idade existe pouca diferença no desenvolvimento das crianças, mas a partir dos 15 meses, com a criança sendo estimulada desde o sexto mês, aproximadamente, já é possível notar diferença significativa na aprendizagem da linguagem, matemática, QI e sociabilidade. E ainda, depois de crescerem elas foram comparadas a outros indivíduos não estimulados e obtiveram melhores resultados quanto aos empregos e desempenhos pessoais. Até aqui, apenas constatação de fatos.


As diferentes ciências convergem ou divergem a partir daqui. As explicações, motivos, maneiras de entender, maneiras de intervir é que determinam como cada ciência difere uma da outra. A primeira coisa que é preciso saber sobre este tipo de ciência descrita pelo programa é que ela trabalha com normalidade. Isto significa que tem que haver um número grande de sujeitos que serão testados e as arestas, por assim dizer, serão desconsideradas em prol do grupo. Assim, pouco importa que entre as crianças testadas pudesse haver uma ou duas que não chegaram nem perto do sucesso profissional, já que as outras chegaram e respondem pelo grupo todo. Quero dizer: nem todos são contemplados e, portanto, explicados. Segunda coisa a se pensar é que a explicação para o desenvolvimento das crianças se deu pela observação de seus cérebros. Sou materialista. Toda a transformação ocorrida passou, sim, pelo cérebro. Mas só?


Claro que não. Mas é que esta ciência exclusivamente materilista se esquece de aspectos importantes da pesquisa. Literalmente, se esquece, pois considera pouco (ou nada) o papel do contato humano na experiência. Como assim?


O experimento começou precocemente nas crianças. Algumas delas tiveram contato com os pesquisadores antes das seis semanas de idade. E permaneceram em contato com eles até pelo menos os primeiros anos de vida. Retornaram a vê-los na vida adolescente e adulta. Não teriam sido estas pessoas de extrema importância para a vida destas crianças? Não estariam os pesquisadores investindo os "sujeitos da pesquisa" de amor e afeto e ao mesmo tempo sendo investidos desta maneira? E ainda, não estariam eles investindo os mesmos "sujeitos" de expectativas sobre seus intelectos?


Este outro tipo de ciência não é novidade. Mas sem dúvida traria, se não tivesse sido deixada de lado, contribuições diferentes para a pesquisa. Não são contribuições opostas, mas complementares. Como por exemplo, propor que um dos objetivos seja verificar se os sujeitos tendem a não desapontar os pesquisadores. Ou que os sujeitos se achem sortudos de serem, depois de adultos, mais inteligentes simplesmente porque fizeram parte de um grupo que foi amado e esperado para ser inteligente. E ainda, como explicar aqueles que fugiram a norma?


As descobertas poderiam, estas sim, impressionar pelo incomensurável grau de sentimentos envolvidos nos sujeitos de uma pesquisa que até então tem sido desprezado pela ciência contemporânea dominante. A propósito, um romance que sem dúvida foi construído após muita experiência clínica neste estilo diferenciado de ciência é A cura de Schopenhauer. Vale a pena conferir o alto teor literário (e científico) de Yalom neste romance que emociona.

domingo, 2 de novembro de 2008

Sofia


Durante muito tempo, Hilde tentara fazer a mesma coisa. Mas piscar os dois olhos ao mesmo tempo para sua própria imagem refletida era tão difícil quanto querer correr da própria sombra. Por fim acabou ganhando de presente o espelho, herança da bisavó. Durante toda a sua infância ela tentou várias vezes realizar este feito impossível. (p. 311)



 




- A primeira coisa que eu vi foi que você não estava.


- Não é estranho que a primeira coisa que você viu neste local tenha sido justamente algo que não estava aqui?


(...)


- Quando você está apaixonada e esperando o telefonema de seu namorado, pode ser que você "ouça" a noite inteira que ele não telefona para você. O fato de ele não telefonar é exatamente o que você registra o tempo todo. Se você vai buscar seu namorado numa estação ferroviária e está numa plataforma tão cheia de gente que não consegue encontrá-lo, pode estar certa de que você não enxerga todas estas pessoas. Elas incomodam, mas são irrelevantes para você. Você pode achá-las antipáticas, eu mesmo repugnantes. Elas tomam tanto espaço... Mas a única coisa que você registra é que ele não está ali. (p. 489)



 




Se que o cérebro humano fosse tão simples ao ponto de podermos entendê-lo, nós seríamos tão idiotas que não conseguiríamos entendê-lo. (p. 355)



 




- Preste atenção. Um mal-entendido muito comum é o de achar que o espírito é "mais etéreo" do que o vapor. Na verdade, o que ocorre é o contrário: o espírito é mais sólido do que o gelo. (p. 526)



 




- Um de nós vai ter de nadar até o barco.


- Vamos nós dois, papai. (p. 547)



 


O mundo de Sofia.


Jostein Gaarder.

Devaneio

Qualquer previsão já soa mais apaziguante do que o nada, mesmo que no fim a previsão não tenha sido a melhor coisa.


 


Não se esqueça de se perguntar: prefiro a previsão ou o nada? Ambos são sofridos.