O artigo anterior contou algumas situações que fazem pensar O que, afinal, esperamos dos eventos da vida. Mesmo que eles não devessem ser surpreendentes por serem apenas a repetição do que sempre ocorreu, parece que estamos fadados a, pelo menos em boa parte das coisas, esperar que o mundo seja como ele não é. E nos queixamos muito disto.
Mas o mundo nos escapa ao controle. E o Leo Wroblewski, autor de um blog que acompanho e que já tem o link logo ao lado, propôs uma pergunta interessante nos comentários do artigo anterior. E se fizéssemos por merecer, fôssemos quem poderíamos supor merecedores de algo, mas não conseguíssemos alcançar o tal merecido... poderíamos reclamar? Teríamos este direito?
Em termos econômicos fica mais fácil. Se eu pago por algo que não recebo a lei garante que é possível recorrer para a devolução do que foi pago ou a exigência do objeto adquirido, seja ele material ou imaterial. Mesmo que as dificuldades para o recebimento variem em cada caso, o que acontece de mais importante para nós neste texto é que a lei garante este direito. Portanto, fica entendido que por uma negociação social, ou pelo menos uma negociação entre os votantes pela existência da lei, podemos reclamar o merecido do ponto de vista econômico. Mas é claro que não é deste merecido que estou falando.
É daquele outro merecido que também podemos encontrar com freqüência nas queixas como Eu sempre fui fiel e ele sempre foi um galinha. Ou Eu fiz desta e daquela maneira e ele me deixou. Ou Eu sou tão bom para ela, mas ela não se importa comigo. Ou Eu fiz este prato de comida com tanto gosto, vontade e dedicação e nem sequer um elogio eu recebo. Ou Sempre ajudei as pessoas, mas quando precisei ninguém me ajudou.
Pois é. Reclamamos disto diariamente. Claro que todas estas frases guardam um bom bocado daquela pergunta título do meu artigo anterior, O que você esperava?, mas existe algo mais nelas. Existe a noção de que estamos certos em nosso ponto de vista, por isto reclamamos. Mas eu nunca vi lei, que em última instância é o que regula o certo e o errado, que diz que se você for uma boa moça deverá se casar com um bom moço ou o moço deverá deixar de ser mau moço. Ou que diz que somos obrigados a elogiar o autor, por assim dizer, da obra de arte que ficou a nossa janta. Além de não ser possível regulamentar este tipo de situação por sua grande freqüência e baixa acessibilidade dos meios de controle, acredito que estas leis não existam por ainda mais um motivo. É impossível regulamentar o que desejamos. Explico.
Assim como o que acontece no mundo foge ao nosso controle, o que acontece com as nossas vontades também foge. Além disto, aproveito para relembrar mais uma vez do Calligaris. Em seu texto Liberdade para o quê?, colocado no fim deste artigo, ele diz que relacionamentos amoros têm mais a ver com encontro do que com escolha. Ainda não expliquei nada. Mas semeei o que quero dizer. Passo a explicar.
Relacionamento amoroso envolve desejo. Não só o desejo sexual ou desejo de ter vontade, mas outros tipos de desejo. Que nem desejo de chocolate, que se fosse só vontade daríamos o mesmo nome. E também por isto é que não é só questão de escolha, mas encontro. O chocolate B não serve quando desejamos o A. E só podemos desejar A porque encontramos nele algo de especial. Assim, adoramos ver nosso parceiro dormindo simplesmente porque é linda a posição que ele fica, ou amamos ver o outro bocejar porque ele fica com aquela carinha tão lindinha. Acho que Drummond é muito melhor do que eu. Agradeço à Raíssa por este oportuno artigo.
http://quiproquos.blogspot.com/2008/06/namorados.html
E por que gostamos disto? Por que temos estes desejos, não só o físico e o sexual? São perguntas que sempre que alguém se aventura a responder acaba sendo reconhecido como poeta enquanto é um verdadeiro cientista do desejo. Mas é fácil reconhecer que estes desejos vêm de onde não sabemos e apontam para coisas que tampouco sabemos porque tomaram tal direção. Mesmo os poetas concordam com isto. Assim, fica explicado que também nossas vontades fogem ao nosso controle. Regulamentar que boa moça devesse casar apenas com bom moço mata qualquer possibilidade de a moça desejar, buscar ou encontrar o moço que ela quiser ou não quiser, já que é fora de controle, seja ele bom ou mau.
E parece ser este um dos fundamentos de nossa reclamação. Além de expor algo que desejávamos e que se produz a cada vez que falamos, voltando a citar Calligaris no texto Amores silenciosos que está abaixo, ela, a reclamação, ainda mostra o descontentamento que temos frente à nossa ausência de controle sobre a realidade. Tanto a interna quanto à externa.
Coitados destes nossos pensamentos que se julgam sabedores morais das regras universais e que tentam controlar o mundo à sua maneira. Não fazem mais do que aquilo que são capazes, que é pensar. E neste caso, como não controlaram nada, pensam reclamações. Reclamam porque não têm outra opção. Reclamam porque é melhor para eles do que admitirem que o mundo não quis ser como eles queriam fosse. Portanto eles foram, os pensamentos, incapazes de mudar o mundo. Só posso dizer que reclamar fora dos limites da economia não é uma questão de direito, por isto não é regulamentado pela lei.
Quando fazemos por merecer e não temos o merecido, ou dito de outra forma Quando nos julgamos certos merecedores e o mundo não quer o mesmo que nós... temos o direito de reclamar?
Oras, temos a falta de opção de reclamar. A reclamação, sendo resultado da frustração de nossos desejos mais íntimos, só pode guardar a mesma característica de ser extraordinariamente fora de nosso controle.
P.S.: Links
Leo Wroblewski http://leowroblewski.wordpress.com/
Raíssa* http://quiproquos.blogspot.com/
Liberdade para o quê? http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=1464
Amores Silenciosos http://contardocalligaris.blogspot.com/2008/06/amores-silenciosos.html