segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Peculiar é uma palavra engraçada...

..., mas ele era isto mesmo: peculiar. Tinha assim um jeito cambaleante e magro, além de alto e se vestia quase muito bem. O que não combinava era aquele cinto brega de caubói. O que se pode fazer, afinal? Ribeirãopretano, apesar de um povo bonito, se veste muito mal. Foi nesta cidade que ele cresceu.


E se tornou contador de histórias. Gostava de contá-las aos muitos. Sabia do avesso das mais variadas histórias. Do Édipo ao Peter Pan, do Brás Cubas ao Dom Quixote. Conhecia autores independentes que, quando fazem sucesso, se tornam cult. Porque, afinal, cult é aquilo que a minoria gosta. Não importa se é bom. E ele contava todas, mas todas as histórias.


Alguém aqui já leu Reparação, do McEwan? Chato. Ao leitor: vale muito a pena ler, porque a história é excelente, mas a irritante maneira quase barroca com que o autor escolheu para narrar o livro torna a leitura quase insuportável de lenta. Ainda ao leitor: depois comento, com exclusividade, sobre este livro fantástico.


Mas chato. E calhou que ele fazia o livro do McEwan ser bom. Vocês acreditam? Aliás, bom o livro é. Ele fazia ser legal. Animado e triste ao mesmo tempo. Pensativo, mas ativo. Em plena praça pública, um grupo de pessoas começou a freqüentar seus atos.


Mas a grande magia era que a história eleita era, estranhamente, alguma que o público estivesse clamando por, só que inconscientemente. A peça fazia sentido para a multidão. Todos ficavam de olhos presos. Era assim, quase que um improviso musical. Sabe, quando o cara dá uma nota e sustenta dois ou três acordes e o outro faz um solinho de guitarra que combina? Pois é. O pessoal contava duas ou três coisas para ele, e ele fazia uma história que combinava. Coisa de artista, mesmo. Ressoava com a vontade do público.


Só que naquele dia, ele teve qualquer coisa que resolveu contar um dos seus próprios contos. Nunca antes o havia feito. Revirou e achou um. Um que esteve lá, guardado. Agora estava revirado e pronto para ser contado. O caso do cara que roubava carros.


O público ficou assustado. Era uma estória longa que ele contava em detalhes minuciosos. Mas o susto não foi por isto. Foi que pela primeira vez a estória não ressoava com o público. Era o mesmo que contar a estória para ninguém. Contou como que ao vento fraco que se dissipou antes de atingir qualquer rosto, mesmo que de um gato à paisana.


Devido a estranheza com que o público recebia suas palavras, terminou o texto e tudo ficou em silêncio. E foi embora.


Da multidão, com o nosso sujeito já ausente, alguém teve um clique! Vai ver e hoje era o dia de contar uma história que ressoasse com ele próprio, dizia o outro, do meio da multidão.


Os comentários dos moradores da cidade se dividiam entre os que defendiam que talvez fosse uma história ressoante com as próprias aspirações do contador de histórias e os que criticavam o mesmo contador por ter enlouquecido em praça pública.


A imprensa se apressou em apresentar um programa especial de fim de semana, com horas de duração, sobre a psicose, falta de contato com a realidade e dificuldade de relacionamento com o público. A mesma imprensa se dizia imparcial, mas apresentava argumentos que levavam a crer que nosso contador de histórias tinha mesmo enlouquecido.


Muito se perguntou ao contador de histórias. No que estava pensando, O que pensou na seqüência, Por que foi embora, O que sentiu ao ir embora.


Mas ninguém perguntou Por que este conto.


E na semana seguinte, tudo estava como antes.

2 comentários:

  1. Uma curiosidade: Na realidade voce é assim? cambaleante...magro!

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  2. hhaahaha ia fazer quase a mesma pergunta que ela............vc se inspirou em alguem??? mas mto bom

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