segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Narcisismo

De volta à psicanálise, que há muito não escrevo sobre ela. Um dos temas de grande interesse público e também um dos mais complexos é o do narcisismo. Este é um tema difícil e controverso dentro e fora da psicanálise. Talvez, popularmente não seja tão difícil definir o narcisismo. Na onda BBB vemos vários críticos dizerem que fulano ou ciclano é narcisista e que só fica no espelho. Ou que ciclano só pensa nele mesmo. Ou que beltrano passa o dia malhando e cultuando os próprios músculos. Exemplos fáceis e bem dados da definição de narcisismo do ponto de vista popular. O que seria mais popular que o BBB? Nem chocolate.


Mas na psicanálise existem controvérsias. De um lado, fazem certo couro os psicanalistas que defendem que o narcisismo acontece quando o sujeito não é capaz de enxergar outros seres humanos como tais. Em lugar disto, os enxergam como objetos. Este ponto de vista, via de regra, aparece para justificar comportamentos criminosos em que os crimes acometidos foram brutalmente executados. Não faltam exemplos recentes deste tipo de crime no brasil, nem tampouco exemplos recentes de psicanalistas que apareceram na mídia para dizer que o criminoso era narcisista.


Agora, para variar, vou usar um dos meus autores preferidos. Fama e narcisismo, do Calligaris, é um texto que dá uma outra opinião sobre o assunto. A abordagem defendida é a de que a tal Personalidade narcísica, por assim dizer, é a personalidade insegura. Assim, o narcisista é aquele que para existir precisa do olhar do outro. Se usássemos este ponto de vista no BBB, chamaríamos aqueles que perguntam aos outros se estão bonitos e bem vestidos, malhados e fortes. Em uma rápida olhada, pareceria a mesma coisa dizer que, no fim das contas, o narcisista malha e se olha no espelho. Mas no mesmo texto deste autor existe algo que nos propõe o contrário. É que o narcisista, para esta definição, precisaria do olhar do outro. E só. Sem espelhos. Estilo American Idol, Ídolos, Fama, BBB (no BBB eles precisam mais da aprovação do público externo para continuar na casa do que da quantidade de espelhos contidas nela).


Até aqui, três definições diferentes de narcisismo. Problema: talvez nenhuma seja suficiente. Veja que na primeira definição existe comparação direta entre o mito de Narciso, que se apaixona pela própria imagem no lago, e o sujeito que se olha no espelho, que também se apaixona pela própria imagem. Esta definição parece boa, mas para a clínica ela tem uma falha: não explica a origem do narcisismo.


A segunda tem explicações de origem, que não pretendo expor aqui devido à extensão de tal teoria, mas parecem fora de contexto por um motivo: são usadas, na maioria das vezes, para servir de juízo de valor moral e condenam um criminoso por possuir tal estrutura de personalidade. Só que isto faz esquecer que também os não criminosos, psicanalistas, corinthianos, cristãos e pagãos, judeus e artesãos, políticos e médicos, juízes e astronautas, flanelinhas e brancos, negros e russos, brasileiros e de olhos verdes, que usam calças Levi´s e administradores, gripados e resfriados são narcisistas. Sem delongas teóricas: todos precisam de narcisismo para sobreviver pois, para a psicanálise, este termo se refere aos investimentos sobre o si mesmo.


E justamente por ser esta uma definição ampla é que entra a proposta de interpretação dada por Calligaris. Note que a visão trazida por ele sobre o tema é bastante mais complexa de se entender pois envolve algo muito primário (e por isto difícil de visualizar). É que o investimento sobre si mesmo, no exemplo dado, é feito através do olhar do outro. O sujeito pede o reconhecimento do olhar do outro para se sentir investido. Mas Narciso não precisou do outro, precisou? Parece que sim. A interpretação dada por este autor tem imbuída em si a noção de que o Narciso do mito se apaixonou não por si mesmo, mas pela imagem que ele acredita que os outros têm de si. Repare que o autor tem razão: tivesse se apaixonado por si mesmo e a imagem lhe seria desnecessária. Outro detalhe importante é que Narciso, sem um outro (presente ou passado) talvez nem soubesse o que é paixão. Em suma: Narciso teria sido nada se não fossem os outros (inclusive nós, leitores do mito). Então, qual o problema desta teoria?


É que a maneira que o autor encontra de demonstrar sua teoria de maneira rápida (em uma coluna de jornal) é a partir de suas impressões. Isto invalida suas idéias? Não. Mas as vicia. Quero dizer que, em verdade, o autor jamais terá a capacidade de saber se o sujeito estava de fato em busca de reconhecimento a menos que entre em contato direto com ele. Acredito que o mesmo autor, tivesse ele tido mais tempo e espaço que uma coluna de jornal, pudesse dar exemplos mais sólidos de sua teoria do que um singelo episódio de televisão. Por outro lado, também é possível que se tivesse mais tempo teria encontrado outras maneiras de narcisismo diferentes das três já propostas. E agora?


 


 


P.S.: Leitores, eu os convido a opinar a respeito do tema. Postem seus exemplos, opiniões, concordâncias e discordâncias na sessão de comentários.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Crônica

Um comentário breve antes de iniciar esta crônica. Os estilos romântico e erótico fazem parte dos meus preferidos. Por motivos óbvios, meus textos eróticos não serão postados aqui. Mas tenho um romântico que fiquei com vontade de publicar depois de relê-lo. Espero que aproveitem a ridicularidade do romantismo tanto quanto eu, que sou adepto do poeta que diz que Todas as cartas de amor são ridículas. O poeta é o Fernando Pessoa.


 


maria.


(...) meu anseio que era grande demais para ser contido. (...) Tentei te encontrar nas nuvens, nas estradas, tentei te encontrar na minha cama, no meu quarto, sozinho. (...) Percebi que estava sonhando com você. (...) Eu preciso ter você de verdade. (...)


Por Thaís


 



Maria.
Por Marq

Decidi não dormir por hoje. Não só por hoje, aliás. Não vou mais dormir se não for ao seu lado. É que se eu dormir, sei que vou sonhar com você. E quando eu perceber que é sonho e me virar para o lado e não encontrar você dormindo, vou me entristecer. Se hoje eu dormir, se esta carta não for terminada por conta do peso das minhas pálpebras, vou acordar chorando.


Mal tínhamos combinado de dormir naquela hora. E nem tinha espaço para os dois. Dormimos juntos em um colchão de solteiro no chão e foi, de longe, uma das melhores coisas que já fizemos. Lembraremos do dia em que a única coisa que nos manteve juntos ali foi a intensa vontade de não deixar o outro ir embora para sempre. Por isto, nesta noite, sonhei com você. Não lembro do sonho com detalhes, mas acordei sorrindo. E com você ao meu lado.


Não é aprazível partir. Mas matar a saudade que nunca morre vai ser mágico. Sabe, é essa a saudade que tenho. Essa que não importa se estou ao seu lado mas eu ainda sinto. Digo que a mato, mas apenas a escondo. É a saudade do que ainda não se foi. Saudade do seu abraço, mesmo com você ao meu lado.


Se amanhã eu estiver de olheira, sabe que não dormi. Se estiver com lenço, sabe que acordei chorando. Mas se eu simplesmente estiver, seja como for, triste ou feliz, com ou sem sorriso, bonito ou feio... se eu estiver e apenas estiver... seja aonde for, mesmo ao seu lado, estarei com saudade.


Mas não vou conter meus anseios. Vou encontrar você nas nuvens, estrada, cama e quarto. Me encontro com você até sozinho, quando só é possível lembrar do seu cheiro e voz, pele e olho. Lembrar acordado ou dormindo. Percebi que sonhei com você. De novo.


Preciso ter você de verdade.