Enfim, falemos sobre sexualidade.
Na quarta lição, Freud nos diz de início que a grande maioria daquilo que é reprimido é de ordem sexual. Repressão é um termo que ficou melhor explicado na segunda lição, mas faço curto lembrete. Ela é a força que faz com que algo saia da consciência. Pois bem, a quarta lição conta-nos logo de partida que o conteúdo do que é reprimido é na quase totalidade dos casos a sexualidade. Por quê não outras excitações mentais poderiam ser alvo de repressão?
Não sei. Assim nos responde também Freud. Para os afoitos por respostas rápidas e conclusivas, não se apressem tanto. Esta não é uma pergunta que se responde na quarta lição. Mas seus, que se somaram às largas e por longas horas de contato, foram-lhe mostrando um a um tal fato. O de que o reprimido era de ordem sexual. Mas, por quê ninguém, nenhum outro médico, havia reparado antes?
Ora. Porque também o médico está sujeito aos mesmos princípios de repressão a que estão os doentes aos quais trata. E mais ainda. Seus estudos sobre os sintomas de seus pacientes apontavam, cada vez mais, para épocas que não datavam do presente momento do tratamento. Em verdade, o surgimento dos sintomas e das primeiras impressões ligadas ao sintoma se relacionavam com eventos da adolescência ou da infância de seus pacientes. Com a volta das memórias esquecidas do passado à consciência, o sintoma perdia sentido e sumia. Aqueles eventos infantis eram os desejos, de ordem sexual, que haviam sido reprimidos. Desejo sexual infantil? Está a tratar, este texto, sobre sexualidade infantil?
Sim. E talvez esta seja a maior descoberta freudiana. Pelo menos assim alguns o consideram. Ao contrário do que se imaginava àquela época, sexualidade não é exclusiva de adultos e, em verdade, se observa mesmo que faz um longo caminho até chegar na configuração a que estamos habituados. Que é a de que sexualidade se presta para a reprodução. Ora, se existe longo caminho até a sexualidade servir à reprodução, estaria Freud a dizer que sexualidade existe antes e independente de tal função, a reprodutora?
Sim. Ele nos afirma que a sexualidade infantil independe da procriação e somente mais tarde é que passa a se prestar a isto. Contradiz os princípios, ensinamentos e estudos da época que dizem que a sexualidade entra no homem em sua fase de puberdade como os demônios entram nos porcos. Portanto, há que se pensar sobre a nova definição de sexualidade dada por Freud, uma vez que não mais significa contato heterossexual entre pênis e vagina (como seus contemporâneos definiam). A sexualidade freudiana, grosso modo, é entendida como prazer obtido pela excitação de zonas erógenas. E são estas excitações, dadas desde os primeiros dias de vida a um bebê, que serão mais tarde reorganizadas (ou não) para o fim de reprodução. Rápida definição, zona erógena é qualquer zona do corpo que proporciona prazer sexual, cito a boca, ânus, dedo, pele.
Para demonstrar a sexualidade infantil, Freud se utiliza de duas pesquisas anteriores as dele que demonstravam que crianças de três ou quatro anos já se enamoravam e também que existiam zonas de prazer já em tenra idade.
Os impulsos sexuais da infância são, em essência, auto-eróticos. O que quer dizer que buscam satisfazer em seu próprio corpo. Mas como Freud nos disse, estes impulsos são reprimidos e os mais atingidos por esta força são os impulsos coprófilos (relativos aos excrementos) e os da escolha das primeiras pessoas alvos de seu amor.
As perversões seriam, por este modo de pensar, quando os impulsos parciais não atingiram o fim reprodutivo e se mantém independentes dele. Freud cita como exemplo a homossexualidade. Neste ponto, faço uma pausa.
É importante que se destaque o entendimento que se tem a respeito deste termo e que nos incumbamos de tirar qualquer julgamento moral que se lhe impregna. Perverso é tudo aquilo que se desvia do comum. Tudo o que é colocado fora de contexto. À época de Freud, sexualidade era sinônimo de reprodução e, sendo assim, até mesmo a relação heterossexual que não fosse o contato direto do pênis com a vagina era entendido como desviante pela ciência. Significa que só se fazia este tipo de sexo? Claro que não! Mas, do ponto de vista daquela ciência, os comportamentos desviantes desta função reprodutora eram perversos. Freud, quando diz que a homossexualidade está entre as perversões, não está a julgar personalidade ou estrutura e sim dizendo que seus comportamentos sexuais não eram utilizados com função reprodutiva. Assim como também os sádicos e masoquistas e tantos outros atos de qualquer sexualidade que não se prestavam diretamente a tal função.
E ainda, para a neurose valeira o oposto da perversão. Ocorreria uma fixação em determinado ponto do desenvolvimento dos impulsos parciais sexuais e quando, na vida adulta, a normalidade encontrasse obstáculos seria rompida justamente a barreira repressiva naquele ponto de fixação. Os impulsos sexuais parciais são os impulsos por prazer em cada zona erógena em específico.
Vale lembrar que neste texto Freud já flerta a idéia de comparar toda a trajetória que leva a sexualidade infantil até a adulta com a história de Édipo. Mais tarde, esta trajetória recebe o nome que se tornou consagrado daí em diante. O complexo de Édipo.
Com o tema da sexualidade, não nos afastamos do trabalho analítico. É por meio dele, e do entendimento da sexualidade infantil, que se pode pensar em vencer os resíduos infantis que estão a causar o sintoma. Em meu entendimento, porém, a quarta lição não diz só sobre o alcance do tratamento psicanalítico com o uso deste novo referencial teórico. Esta lição nos diz que sexualidade independe de procriação e é perfeitamente compatível com a vida infantil.
Primeira Lição ◊ Segunda Lição ◊ Terceira Lição ◊ Quinta Lição
[...] das Cinco Lições de Freud podem ser lidos em Primeira Lição Segunda Lição Terceira Lição Quarta Lição Quinta [...]
ResponderExcluirBom dia,
ResponderExcluirFiquei muito contente em ler este texto, apresentrei um trabalho sobre o assunto tratado, no qual me deixa muito encantada a cada linha lida, se tiverem possibilidade de encaminharem mais conteúdos no meu email ficarei grata.
Obrigada desde já.
Atenciosamente,
Luciana Santos
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