Freud tem, no volume XI de suas obras completas (Edição Stardard Brasileira), uma série de cinco conferências publicadas chamadas Cinco Lições de Psicanálise. Nestas lições, ele comenta sobre como a psicanálise foi descoberta e desenvolvida.
A primeira lição nos diz sobre os estudos que ele fez com a histeria. As histéricas tinham variados sintomas físicos (paralisias, afasias e outros) que não encontravam causa orgânica para ocorrerem. Os médicos viam seus conhecimentos orgânicos sobre o ser humano serem insuficientes e, em função disto, negavam qualquer tratamento a elas por acreditarem que seus sintomas eram resultado de fingimento. Por sorte, nem todos os médicos negaram-lhes atenção.
Freud conta sua experiência com Charcot, na França, ao observar que por meio da hipnose seria possível eliminar ou produzir sintomas histéricos em pessoas histéricas ou normais, respectivamente. No entanto, a duração da eliminação dos sintomas não era grande e, por isto, Charcot não as curava. Apenas eliminava os sintomas por curto período de tempo. Há que se dizer que já é de grande importância que Charcot tenha verificado cientificamente a interação entre palavra (hipnose) e corpo (produção ou remoção de sintomas). E que mostrou que a histeria não era exclusividade feminina. Mas, de maneira diferente de Charcot, Freud se preocupou com algo mais que a eliminação temporária dos sintomas.
Começou a, então, perguntar para as histéricas sobre os porquês de seus sintomas enquanto estavam em estado de hipnose. Daqui surge a teoria de que para se produzir a histeria algum afeto teria que ser separado de sua representação em uma situação que ele chamou de trauma. No entanto, eu pergunto: como pode um afeto se separar de sua representação sendo que ambos aconteceram e, em tese, passaram pela consciência da pessoa? Se ambos estão na consciência, como se separaram?
A estas perguntas, Freud, à época dos anos 90 do século XIX, responderia que o trauma (quebra, ruptura) separou a consciência em duas. Uma das consciências teria, desta forma, o afeto e a outra teria a representação. A representação sem o seu respectivo afeto causaria, assim, a paralisia ou qualquer outro sintoma histérico. Aquele afeto, colocado na segunda consciência, seria fonte de energia para gerar o sintoma. Quando, sob hipnose, a histérica se lembrava daquele afeto e o revivia de maneira a uni-lo à sua representação o sintoma sumia de maneira permanente. Ou quase. Porque a grande maioria dos sintomas estavam ligados, na verdade, em várias cenas traumáticas. Assim, era necessário esgotar todas as cenas traumáticas para que o sintoma sumisse. Nem sempre isto era possível por dois motivos. Primeiro porque nem todos podem ser hipnotizados. Segundo porque nem todos conseguiam se manter neste tratamento. Mas, de maneira ilustrativa e didática, Freud nos dá um exemplo que deixa esta teoria clara. Uma paciente não conseguia beber água havia semanas. Só conseguia saciar a sede com frutas e afins. Sob hipnose, se lembrou de um cachorro que viu beber água no copo e que teve nojo. Ela não gostava da dona do cachorro e, para manter a educação, não comentou nada. O afeto envolvido na cena fora esquecido, ou melhor, levado para a segunda consciência. Quando o nojo pôde ser revivido junto à cena, a paciente pôde beber água. Importante que se note que o trauma, por ter dividido a consciência, faz com que parte do acontecido seja esquecido. E que esta parte esquecida se acessa, neste trecho da teoria freudiana, pela hipnose.
Ainda sobre o trauma, como algo é esquecido e gera o sintoma, seria como se o passado estivesse ali presentificado pelo sintoma. Seria como contemplar, sempre, um monumento sobre algum fato histórico (e Freud mesmo nos dá dois exemplos semelhantes). Daí que ele formula que As histéricas sofrem de reminiscências.
Apesar de parecer que a primeira lição possa ser esta, que as histéricas sofrem de reminiscências, eu diria que existe ainda uma mais importante. A de que existe algo em nós que não somente a consciência.
Segunda Lição ◊ Terceira Lição ◊ Quarta Lição ◊ Quinta Lição
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